Homocinética

Lucas Garcia
Jul 27, 2017 · 5 min read

Homocinética.

Nenhuma palavra tem mais lembranças de infância pra mim do que homocinética. Sim, homocinética. O “culpado” disso? O velho Passat 81 do meu pai.
O velho Passat, aquele que foi o primeiro (e até hoje único) carro de Célio, comprado a muito custo quando já não era o carro da moda, em 1990. O velho Passat, nosso grande companheiro em quase todos os momentos da vida.
Foi nele que voltei do hospital quando nasci, em setembro de 1992.
Nele que meu pai levava religiosamente, eu e minha irmã, ao ParkShopping todo sábado, nem que fosse pra ver a decoração das lojas. Era outro tempo, e rasgar a Estrutural indo da Ceilândia ao Guará custava menos, com gasolina abaixo de R$ 2,00.

Homocinética.
Era ao velho Passat que meu pai dedicava seus fins de semana. Não havia quem fizesse esse homem desistir do hábito de encerar o carro e passar graxa brilhante no seu interior a cada sete dias. Cuidado com muito zelo, causava discórdia. Minha mãe ralhava, achava perda de tempo. Mas o Passat brilhava.

Homocinética.
Lembro do nosso primeiro acidente. Um dia a noite, voltando pra casa. Um carro parado, chuva, o estrondo da batida. Chorava muito, embora não tivéssemos nos machucado. Talvez eu estivesse compartilhando da dor do velho Passat. Sua frente ficou danificada, mas a funilaria logo trouxe o amigo pra nossa vida.

Homocinética.
Você esteve lá, em todas nossas mudanças. Quando em 1999 nos aventuramos em terras novas, mudando da Ceilândia para o Riacho Fundo. O trator abria a rua, e você bravamente ia atrás, desviando dos buracos, lutando contra a lama, atravessando aquelas camadas de latossolo vermelho como brasa, típicos do Cerrado. Me sentia um desbravador. Com sete anos, quem não se sentiria? Minha casa era a primeira da rua. Não havia asfalto. Você ficava sujo.
Mas também estava de casa nova.

Homocinética.
Desbravamos também as estradas rumo a Bahia.
O bug do milênio, a virada de 1999 para 2000 também me assustava.
- Mamãe, o mundo vai acabar?
Minha mãe me tranquilizava e dizia que não. Viajamos dia 31 de dezembro de 1999 para visitar meus avós, e enquanto você era sacudido pelas carretas que passavam ao seu lado, esperava um belo dia raiar em 01 de janeiro de 2000. E raiou. E seu pneu furou logo pela manhã do novo milênio.

Homocinética.
A vida na casa nova trouxe um emprego novo pra minha mãe. Vendedora. Ela luta até hoje bravamente na mesma empresa, mesmo cargo. Mas a função necessitava um carro. Sebastiana, você tem que visitar os clientes, o dia inteiro, em várias cidades. Você se dispôs. E assim, minha mãe colheu os frutos do seu trabalho. Mas você já mostrava seu desgaste. Minha mãe precisava de um carro mais confortável, e acabou por comprar um Gol, também usado.

Homocinética.
O novo carro trouxe facilidades, mas também lhe trouxe problemas, amigo. Meu pai tentava lhe cuidar, mas minha mãe gostava menos ainda.
- Larga desse carro velho, Célio!
Mas meu pai insistia. E íamos fazer as compras da minha vó, no Tatico do Centro de Ceilândia. Seu porta-malas onde meu pai tanto enchia de ferramentas não cabia as compras. Leite, queijo, iogurte, se esparramavam pelo banco. E eu bebia o iogurte da minha vó ali no seu banco traseiro, um ato de traquinagem e fome.

Homocinética.
Minha mãe venceu a batalha, e meu pai desistiu de lhe dar o justo trato merecido. Cera e lavagem já era algo raro. Idade avançada, peças
quebradas. O zelo não era o mesmo de outros tempos, mas meu pai ainda cuidava para que pudesse servi-lo, nem que fosse para ir jogar o futebol de sábado.

Homocinética.
Chega 2009 e um novo carro. Seu carburador desregulado, seu câmbio que só tinha duas marchas (primeira e ré), seu interior rasgado acabaram deixando você na garagem por um longo tempo. Mas meu pai insistia. No fim de semana, ligava o carro para “não descarregar a bateria”. Aquilo era pra lhe manter vivo. A casa se empesteava de fumaça, as roupas da minha irmã se carbonizavam. Mas seu motor AP 1.6 Litros de 8 válvulas e 80 cavalos ainda roncava. E roncava alto. Com “soluços”, mas funcionava.

Homocinética.
2013. Os sonhos mudam, e talvez minha mãe tenha realizado o maior dela. Uma casa nova, onde sempre desejou morar. Um canto menor, mas ao prazer dela. Infelizmente não haveria mais espaço pra você, talvez nem pra mim, já que meu novo quarto tem o tamanho de um ovo. Mas o metrô é perto.
A solução foi lhe vender. Meu pai lhe rebocou até a o oficina mais próxima.
Mesmo escanteado por anos, seu problema era menor do que aparentava. Uma regulagem aqui, um câmbio novo ali, e você estava inteiro, pronto pra rodar.
Cheguei em casa do trabalho e incrédulo lhe vi ali, na rua, onde não esteve por anos. A rua, que era seu lugar. Meu pai fez o convite irrecusável:
- Quer dar uma volta?
E fomos. Não somos de muito afeto, mas esse momento vou guardar sempre. Pai e filho, o primeiro carro do meu pai, e a primeira vez em que lhe pude guiar.
Seu câmbio não era nada macio, direção nada leve, pedais sem ajuste. Foi um desafio divertido levar você pra passear. O Passat cheirava a mofo por dentro, mas a fumaça que saía me enchia os pulmões. E você andava rápido!

Homocinética.
Seu destino foi ficar com o serralheiro, vizinho do meu tio. O valor da sua venda comprou um sofá pra casa nova. Dinheiro é mesmo uma coisa irrelevante.
Cresci, e descobri que homocinética é uma peça que recebe a rotação do motor e transfere para as rodas dianteiras, fazendo com que elas estercem para dar direção ao automóvel. Essa peça quebrava dia sim, dia não. O barulho quando meu pai virava o carro era insuportável. Bendita homocinética, junto com o barulho da porta que parecia uma porteira de fazenda abrindo, junto com o ruído que vinha do assoalho furado, junto com o ranger dos vidros abrindo compunham sua orquestra.

Homocinética.
Esses dias eu andava de madrugada, devagar, por ruas que tanto passamos. Eu estava no meu próprio carro, e me peguei pensando em você. Penso onde possa estar, se ainda está com o mesmo serralheiro. Se ainda está “vivo”. Pensando que talvez devíamos ter lhe dado um destino melhor. Quem sabe uma reforma, e deixar você como herança de família. Nunca lhe demos um nome, mas talvez não fosse necessário. Célio, Tiana, Lucas, Thainá, o Passat branco. Eram de uma identidade única, indissociável.

Definitivamente, você não foi só um carro velho.

    Lucas Garcia

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    Comentários impensados, delírios e disparates.