Walking dead

“O século XXI será a desorientação, quer dizer, a perda de todas as referências — se a humanidade continuar desse jeito, e ela não continuará. Portanto, eu não creio de maneira alguma no fim do mundo. Mas o que eu quero dizer é a desorientação: não sabemos mais onde estamos nem no espaço nem no tempo.” (Paul Virilio)

Às vezes me imagino uns trinta anos mais velho, no futuro. Vejo-me em uma terra arrasada, acompanhado dos restos de uma catástrofe que consumiu o mundo. Nesse tempo, não encontro outras pessoas. Uma solidão habita-me e, com ela, o silêncio dos que se foram.

Nesse futuro eventrado e profundamente doloroso, as memórias do presente adquirem a densidade de montanhas. Como estratégia de sobrevivência, volto-me para o que fora antes: filho, pai de duas meninas, professor, marido. Lembro-me curtindo ao sol uma conversa com minha esposa e de as nossas filhas correndo por de lá para cá, indo e vindo aos risos e gritos. Combinamos como será a semana, quem passará na escola e como será o almoço de amanhã. Em dias assim, o sol é um elemento inescapável: o calor e a luz naturais entorpecem, criando a ambiência de um dia como os outros; gradualmente, por outro lado, suas energias se esvaem, indicando a passagem banal do tempo e da vida.

Enquanto isso, trinta anos mais tarde, nuvens pesadas instalaram-se definitivamente. Com elas, foram-se as sombras. A ambiência, neste caso, é a dos mortos-vivos: trafego pelo asfalto, entrechoco-me com paredes de concreto e cambaleio através da sucessão indiscernível dos dias e das noites. Observo os arredores: tudo se passa como se os sólidos desmanchassem-se no ar, criando uma monotonia quase pura, não fosse o desespero

(não sei ao certo a cor do desespero, mas jamais me pareceu cinza. Ou preto. Ou branco. Há algo de álgido nele, mas do tipo que queima. Deve ser qualquer cor por aí).

Fecho os olhos. As lembranças de outrora, por oposição, são multicolores. A tez das meninas, os raios de sol, os inços no gramado, as pedras de arenito. Frutas: maçãs, bananas, tangerinas. Feijão com arroz, talheres sobre a mesa. Copos de vidro. Vejo a vida tonalizada nas formas. Com ela, o alívio e a esperança.

Em minha fantasia, é a realidade da catástrofe que libera os devaneios e os reconfortos. Os mortos-vivos que me habitam devoram a banalidade dos dias, ressuscitam a densidade das experiências e fazem durar o presente.

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Originally published at nopresente.wordpress.com on March 30, 2015.

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