O retrato do artista quando fode

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Posso tirar uma foto sua?
Claro.
Ok.
Ficou boa?
Vem ver.
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E transamos.

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Era quinta, sexta, talvez segunda-feira, mas já passava das onze da noite e o artista contemplava sozinho a própria obra no porão do ateliê. Apesar de satisfeito, não queria mais saber dos elogios de pessoas desconhecidas a fim de agradá-lo na abertura de sua exposição. No começo é bacana, ele me disse, mas cansa. As pessoas não estão realmente interessadas. Elas me dão parabéns, mas parabéns pelo quê? Tiro mais uma foto. E outra. E de repente estamos presos, um ao corpo do outro. O beijo, a foto, o tempo. Eu preciso voltar para o trabalho e ele para os abraços.

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Subimos as calças e as escadas, que nos levam àquele pequeno hall onde pessoas sorriem bêbadas. Um homem o cumprimenta e ele lembra que precisa lavar as mãos. Ele ri. Na porta à nossa frente, uma placa chama sua atenção: Tudo é permitido. Ele ri. Me encontra no hotel em meia hora?

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Eu não consigo pensar em outra coisa senão no tempo. Meia hora não é nada e de repente vira tudo. Então eu penso no acaso, na beleza dos encontros e naquela matéria de jornal do dia anterior. Quando estamos diante de algo que nos encanta, dizia a reportagem, aumentamos a produção de dopamina, substância química localizada no córtex órbito frontal do cérebro que, quando ativada, causa sensações de extremo prazer. Este fenômeno é comum quando, por exemplo, nos apaixonamos, saboreamos um prato delicioso de comida, usamos drogas ou quando observamos uma obra de arte.

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Começo a prestar atenção no público, nas obras, no artista e naquele espaço independente que nada tinha a ver com o entorno, esnobe e arrogante. Havia ali um gosto de liberdade que nunca tinha experimentado em um local de trabalho. E não estou falando da situação do sexo no porão. Eu habitava aquele lugar e não importava se minha função era organizar a biblioteca, fazer uma reserva no hotel, escrever um texto ou vender cerveja no bar em dia de festa, era perceptível o compromisso sério com a arte, um respeito enorme pelas pessoas envolvidas nos projetos, mas também a possibilidade de cada pessoa ser o que realmente quer. Havia afetividade e eu estava feliz.

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Ainda lembro bem daquele dia em que fui parar quase sem querer ali. Lembro-me da primeira exposição, do dia seguinte em que fui pedir emprego, de todos os projetos que participei, de cada artista que por lá passou, dos porres, das noites viradas, das segundas-feiras com jazz, das desilusões amorosas, de cada característica dos meus parceiros de trabalho. Eu poderia citar nomes, viagens e datas incríveis, mas o artista me espera em meia hora no hotel.

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Ele está do lado de fora, onde não é mais o centro das atenções. Seguimos juntos falando de como o Ateliê era especial. Falamos de como as drogas funcionam no organismo, da loucura que é o amor, da dopamina ativada no cérebro depois daquela foto sem flash que ele perguntou se tinha ficado boa.

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Eu pensava na imagem, que era linda, estranha e difícil de decifrar. Um borrão quase escuro com um feixe de luz iluminava aquilo que eu imaginava ser o rosto do artista, mas a verdade é que não havia ninguém. O que eu via agora era metade luz, metade ausência, como se aquele momento, de fato, nunca tivesse sido vivido. Eu pensava no tempo, no trabalho, no Ateliê e tudo era passado. A mim, então, não restava mais nada a não ser ir embora e esperar os próximos dias, as próximas horas, as próximas fotos, com a certeza de que sempre haverá mais uma noite. E nela, um artista contemplando sozinho a própria obra.

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