A Solução para o Problema do Mal

O “Problema do Mal” é, na Filosofia da Religião, uma das áreas de estudo mais interessantes. Os argumentos que formam o “problema” foram, provavelmente, primeiro articulados por Epicuro, que é um daqueles filósofos gregos das antigas. Ele teria sustentado que se Deus é Onipotente (pode tudo), Onisciente (conhece tudo) e Onibenevolente (é cheio de amor) — não poderia existir, ao mesmo tempo, o mal no mundo.

Olha só o que ele falou:

“Ou Deus quer eliminar as coisas ruins e não pode, ou pode mas não quer, ou nem quer nem pode, ou quer e pode. Se quer mas não pode, ele é fraco — e isso não se aplica a deus. Se pode mas não quer, então ele é malvado — o que é igualmente estranho à natureza de deus. Se não quer e não pode, ele é ao mesmo tempo fraco e malvado e, portanto, não é um deus. Se quer e pode, o que é a única coisa adequada a um deus, então de onde vêm as coisas ruins? Ou por que ele não as elimina?” [1]

“Teodiceia” é a resposta que os filósofos da religião dão aos questionamentos que surgem para os questionamentos acima.

Eu, pessoalmente não vejo nada complexo no “Problema do Mal”. Até acredito que aqueles que se encontram neste debate são iniciantes na teologia. Então, vamos as respostas!

Adversidades na vida seriam evidência da Inexistência de Deus? Claro que não!

Um problema na premissa

O “Problema do Mal” tem uma falha estrutural: o homem! Pode parecer simplório, e que eu esteja querendo fugir das questões centrais — mas ninguém seria tolo de admitir que os argumentos, teorias e ideias do homem são infalíveis e sempre verdadeiras. O homem é imperfeito, e no exercício de sua racionalidade pode cometer erros.

Foi um homem que propôs o mal como problema para a existência de Deus. Seria razoável chegar a esta drástica conclusão sabendo que a lógica do homem é muitas vezes falha?

Suponho que apenas compreenderíamos Deus e Sua majestade, caso tivéssemos a mente arrebatada a uma condição muito superior a que nos encontramos agora. E mesmo que isso acontecesse conosco, teríamos dificuldade em reproduzir a teofania em uma linguagem humana, afinal até os profetas que tiveram visões da eternidade recorreram a símbolos e imagens para tentar descrever o mundo celestial sem sucesso.

Assim, quando exercitamos a indagação, tal como Epicuro, precisamos ter em mente que não somos capazes de ver o quadro completo das coisas. Simplesmente há elementos da verdade que não conseguimos distinguir, por sermos imperfeitos.

Isso não significa que devamos desistir de questionar e buscar respostas — pois elas existem. Só que devemos ser cuidadosos e refletir com certa demora, antes de abandonar uma crença — ainda mais uma fundamental — como a crença em Deus. Se a premissa do argumento for descaracterizada não há sentido em prosseguir com o mesmo.

O que é mal?

O que será que Epicuro considerava como mal? O que você considera como mal. Há coisas que a maioria de nós concordará como más: doenças, guerras, morte de criancinhas, estupro, etc. Entretanto, até mesmo essas adversidades podem ser coisas boas. Uma doença pode ajudar uma pessoa a refletir sobre suas prioridades na vida, mudar seus hábitos, desenvolver empatia e dedicar-se a causas nobres. Então nem toda doença seria essencialmente má.

A morte também não pode ser considera mal. De fato, até nas ciências biológicas que evitam questionamentos morais — a morte é vista como algo bom — ou melhor, natural. A morte de uma planta ou animal garante a manutenção do ciclo da vida.

A morte de uma pessoa pode ser uma bênção determinante para que outras vivam em paz — por exemplo, a morte de um ditador.

Mesmo a morte e sofrimento do Filho de Deus, foi a causa da vitória de todos os que Nele creem.

Isso tudo demonstra que a maldade esta, na maioria das vezes, nos olhos de quem vê.

Não quero dizer, porém, que não exite mal — ou que coisas realmente ruins, se encaradas de outro modo, deixam de ser amargas e passam a ser doces. De forma alguma. Existe o mau, o vício e as trevas e existe o bom, a virtude e a luz. Entretanto, não é possivel prosseguir numa reflexão aprofundada sobre o mal sem verificar seus imensos contornos e significados.

O Arbítrio

Quando consideramos o mal essencial, que é a proposta insistente do “Problema do Mal”, encontramos a resposta para esta relação com Deus no livre-arbítrio ou somente arbítrio, como prefiro, dado ao homem.

Deus, que realmente é Todo-Poderoso e Misericordioso deseja eliminar o mal essencial. Certamente, por ser um Pai Bondoso (e aqui uso o Deus Cristão), anseia pela felicidade de seus filhos e pela paz universal. Todavia, tal só pode ser alcançado com a existência de seres racionais e conscientes, que fazem escolhas. Essas escolhas geram consequências. Tais consequências nem sempre podem ser minimizadas ou alteradas por Deus — não por lhe faltar capacidade, mas por ter confiado o arbítrio a seus filhos.

Assim, Deus, embora seja muito caridoso e bondoso, é absolutamente justo. Ele estabeleceu leis das quais Ele mesmo não pretende quebrar. Ele não vai criar um quadrado redondo ou uma pedra inamovível. Isso não faz sentido, pois os termos foram lançados. E os termos são a liberdade de escolha.

Se eu escolher comer apenas fast-food o resto da vida, certamente ela não será longa. Não posso me revoltar e dizer que Deus inexiste pelo fato de não me deixar comer hambúrgueres todos os dias sem sofrer consequências negativas por isso. Seria tolo! Se eu planto abacaxi não posso colher tomate! Há uma ordem natural, por assim dizer.

Alguns supõem que a legislação celeste reduz o poder do Legislador — mas o fato é que sem Legislação não há nem direito, nem prerrogativa, nem poder, nem glória, nem legislador. Ou, como disse um sábio do passado à seus filhos, quando estava prestes a falecer:

E se disserdes que não há lei, direis também que não há pecado [ou mal]. E se disserdes que não há pecado [ou mal], direis também que não há retidão [ou bem]. E não havendo retidão [ou bem], não há felicidade. E não havendo retidão [o bem] nem felicidade, não haverá castigo nem miséria [ou mal]. E se estas coisas não existem [bem e mal], não existe Deus. E se não existe Deus, nós também não existimos nem a Terra; pois não poderia ter havido criação nem para agir nem para receber a ação; portanto, todas as coisas inevitavelmente teriam desaparecido.
E agora, meus filhos, digo-vos estas coisas para vosso proveito e instrução; pois existe um Deus e ele criou todas as coisas, tanto os céus como a Terra e tudo o que neles há, tanto as coisas que agem como as que recebem a ação.
E para conseguir seus eternos propósitos com relação ao homem, (…) era necessária uma oposição (…)
O Senhor Deus concedeu, portanto, que o homem agisse por si mesmo; e o homem não poderia agir por si mesmo a menos que fosse atraído [pelo bem e pelo mal]” [2].

Conclusão

O “Problema do mal” sugere que o mal existente no mundo é uma evidencia da inexistência de Deus, ou ao menos que nossa concepção Dele esta equivocada. Entretanto, há problemas significativos na propositura dos questionamentos.

Primeiro, as indagações são feitas por pessoas imperfeitas. Segundo, o mal pode ser algo bom, dependendo as circunstancias.

O arbítrio responde plenamente ao “Problema do Mal”, pois retira a responsabilidade do mal de Deus. A liberdade de escolha não só permite a existência de maldades, adversidades e injustiças — mas de bondades, recompensas e compensações.

Sem o mal o crescimento seria limitado, se é que haveria.

Embora estas repostas sejam filosoficamente satisfatórias, perguntas espirituais são melhor respondidas espiritualmente. É preciso buscar, por meio de oração e jejum a certeza das coisas que não se veem, mas que são verdadeiras. A fé em Deus é que esclarece a verdade última. É ela que devemos buscar.


Notas

[1] Epicuro segundo Lactâncio, citado por Inwood e Gerson — Inwood, Brad e L. P. Gerson, Hellenistic Philosophy, Indianápolis: Hackett, 1988, pg. 94

[2] O Livro de Mórmon, 2 Néfi 2:13–16