Existe caminho na fotografia?

De uns três meses pra cá, alguns amigos me pediram dicas sobre o processo da fotografia, principalmente a de rua. Seja sobre como se aproximar das pessoas pra fazer um retrato ou qual equipamento é o melhor, parece que sempre buscamos uma base segura, uma direção ou técnica para nos movimentarmos. Quando tentei escrever sobre o assunto, foi a mesma coisa. Busquei várias referências, “vou falar disso primeiro, seguir essa linha de pensamento”. Cada vez mais perdido em pesquisas, até que lembrei de uma conversa que tive com dois fotógrafos dos quais o trabalho admiro muito , André Spindola e Castro e Fernando Cohen. Tinha comentado:

— Então André, é que eu queria entender como alguns fotógrafos..

— Ta vendo Fernando? Igual você mais novo tentando ~entender~ fotografia.

— Hahahaha é. Sabe o que entendi até agora? Nada.

Isso me deu um puta de um alívio.

O que estamos buscando? Foto: Fernando Cohen

No livro “Sobre Fotografia”, Susan Sontag nos conta como o ato de registrar eventos vem se tornando cada vez mais parte da própria experiência desses eventos, e como a imagem fotográfica os legitima. Dá pra pensar numa viagem sem nenhuma foto, nem mesmo de celular? GoPro e pau de selfie são quase itens de prioridade na bagagem. E o mais interessante é que quando olhamos as fotos depois de voltar pra casa, a nostalgia não vem exatamente do Cristo ou a torre Eiffel, nem do fato de que fomos felizes ali. O que surge é um brilho, uma energia. A foto funciona como um apoio pra ativar estruturas internas. Repare: a imagem do sorriso nas férias ativa nossa própria capacidade espontânea de sorrir. Assim também é na arte: esculturas, peças, pinturas e filmes movem nossa energia e servem de veículo para externalizá-la. Na fotografia, ao escolher aquela fatia exata de tempo para clicar e aquela paisagem para pinçar da experiência visual para o frame, estamos escolhendo a nós mesmos. Selecionamos o que “lá fora” mais movimenta “aqui dentro”. Isso é algo impressionante: quando postamos no Instagram, não estamos só representando pedaços do cotidiano, mas construímos e sustentamos uma maneira de experienciar o mundo.

É difícil ver as fotos do Dirty Harrry sem achar que o mundo inteiro é sombrio

Ainda que todas as fotos que tiramos expressem a maneira que olhamos e sentimos e que essa capacidade de criar realidades seja ilimitada, parece que sempre tem algo em outro lugar mais certeiro, mais estável e que brilhe mais. No caminho de casa pro trabalho poderíamos perceber a qualquer momento algo sob uma nova perspectiva, mas parece que uma viagem pra Indonésia enfim seria o cenário ideal pra tirar a foto inesquecível. Moramos num bairro cheio de histórias e pessoas incríveis, mas deixamos de fazer um projeto sobre o assunto porque não vai ficar tão bom quanto o daquela garota que mora no centro. É como se estivéssemos atrás do melhor jeito de tatear o caminho ao invés de abrir os olhos. Nesse vídeo, que fala sobre o processo de desescolarização, a Ana Thomaz conta como fez diversas investigações na própria vida e na dos filhos, sobre a sensação de falta de sentido dentro do percurso de formação e usa uma expressão que mudou bastante meu processo de aprendizado. “A meta é potencializar a potência, não se distrair com a técnica”.

Considere que dentro da fotografia a potência é a capacidade da visão de construir realidades, sempre presente. Na maior parte do tempo, estamos nos entretendo com uma nova técnica (que podem ser desde técnicas mesmo — composição, edição, postura e práticas — até processos mais sutis como lugares que achamos que deveríamos estar e gostos extremamente rígidos), mas dificilmente reservamos bastante tempo e energia pra transformar e ampliar nossa visão. Por quantos anos você se manteve em algum projeto antes de desistir ou inventar um novo? Quantas horas eu gastei fazendo café, treinando palavras bonitas e me distraindo descendo o feed do facebook antes de realmente sentar e escrever esse texto? Nossa mente está sempre pulando de um lugar pro outro. Esse ciclo continuo dificulta o processo criativo mais profundo, pois raras vezes conseguimos ultrapassar nossos automatismos e transformar a maneira de nos relacionarmos com o que surge. Entretanto, essa possibilidade de abrir a visão independente das configurações externas e está sempre disponível. No campo da produção fotográfica artística, se você der uma busca no Google, pode encontrar diversos ensaios e projetos incríveis, com temas que consideramos super banais, até dentro do cotidiano de um escritório. Acontece que, amortecidos pelas nossas identidades e reações automáticas, todo o teatro que se monta bem na nossa frente, de forma mágica e com cenas absurdas, passa completamente despercebido.

Lars Tunbjörk na série “Office”

Quando miro minha câmera pra alguém na rua e sinto medo caso seja percebido, ao invés de entender que é só uma sensação de medo e me relacionar com isso de forma criativa, geralmente crio uma porção de obstáculos, me convencendo que estou fazendo errado, fico estagnado e não tiro a foto. Tudo isso porque tenho um preconceito do que é ser bom fotógrafo: alguém ligeiro, sem vergonha. Quase todas as frustrações vem da sensação de perder algum jogo ou da sensação de “eu não deveria ser aquele que…”. O ponto é que essas características: medo, coragem, câmera grande, câmera pequena, preto e branco, colorido, nada disso é bom ou ruim por si. Cada um desses fatores pode ser um trampolim pra potencializar nossa visão, nossa relação com o mundo. Acredito que seja isso que a Ana Thomaz fala. Cada contato que surge, do que jeito que vêm, é um possibilidade. Eventualmente podemos desenvolver novos projetos, usar só analógica, viajar pra países exóticos, mas sem se tornar uma fixação. Pra isso ficar mais claro, apresento dois fotógrafos com abordagens completamente diferentes em relação a aproximação e timidez, mas que se apropriam de forma igualmente intensa sobre a linguagem que surge de suas visões de mundo.

Bruce Gilden

Foto: Bruce Gilden

Nascido em Nova York, é conhecido por fotografar muito próximo ao assunto e com o uso de flash. Gilden é extremamente agressivo na sua abordagem e poucas vezes pede permissões pras fotos. A sensação de movimento e caos que expressa em suas imagens são completamente interligadas com sua maneira de lidar com as pessoas. Em vídeos que mostram ele em ação, conseguimos perceber a agilidade e movimento frenético do próprio fotógrafo. Integrante da Magnum Photos desde 98, Gilden publicou diversos foto livros e recebeu prêmios variados, como o European Publishers Award for Photography pelo projeto Haiti, que é um dos que mais me impressiona.

Foto: Bruce Gilden

Saul Leiter

Foto: Saul Leiter

Nascido também em Nova York, foi um dos pioneiros a utilizar o filme colorido Kodachrome como suporte para fotografia artística. Começou sua carreira como pintor expressionista e mais tarde, influenciado pelas técnicas e conceitos dessa arte, começou a fotografar. Autodidata, emanam em suas imagens timidez e quietude , dando uma sensação de tempo em câmera lenta. Leiter registrou Nova York à partir desse estado mental de flaneur, num estilo contrastante aos demais fotógrafos emergentes de sua época. Seus interesses se transpõem em imagens que expressam mais sensações do que um recorte tenso e agitado da cidade. Pessoalmente, sempre que vejo suas fotos, sinto que se cria uma atmosfera terna e contemplativa de cores e emoções, e que seus assuntos estão sempre compartilhando um segredo comum.

Foto: Saul Leiter

O que mais gosto no trabalho desses dois é a riqueza que cada um trabalha dentro de uma dialética, mesmo sendo tão distintas. Cada trabalho é capaz de nos apresentar uma Nova York completamente própria, isso sem falar de fotógrafos como Diane Arbus e tantos outros.

Parece que quando abandonamos nossas reações automáticas e abrimos espaço para o florescimento criativo, é como se finalmente entendendo que não há necessidade de ir a outro lugar que as coisas começam a se movimentar, e desse movimento brotam expressões espontâneas, cada uma com sua linguagem e inteligência própria.

Na fotografia de rua, em especial, estar aberto ao outro, escutar histórias, trocar, é muito enriquecedor. Esse é o ponto que mais me fascina nesse estilo de foto: não há regras. Só existe um mundão de cenas, nas quais nos descobrimos cada vez mais em todo clique que disparamos.

Então amigos, espero que todas as técnicas, dicas, ideias e experiências que surgirem pelo nosso e por qualquer outro encontro sirva de apoio pra cultivar cada vez mais um olhar aberto, curioso e vivo.