O mundo não se importa com você. E isso é bom

É muito comum que a gente queira criticar outras gerações. Seja a geração passada, sempre mais conservadora e “quadrada” que a nossa; seja a geração mais nova, “despreparada” e “infantil”. Pra falar a verdade, nunca faltam adjetivos negativos e pejorativos para desqualificar os nossos antepassados ou o filho do vizinho, que não larga o XBox.

Costumamos desconsiderar qualquer contexto histórico, qualquer influência que as massas têm sobre nossos pensamentos, como se a nossa geração (no meu caso, as pessoas com quem trabalho, faço faculdade, namoro etc.) fosse sempre a mais consciente e livre, revolucionária, inovadora, a “diferentona” — com o perdão do meme ultrapassado — . Se soubéssemos quantas gerações inovadoras e singulares já passaram por essa Terra…

Mas hoje eu pretendo fazer diferente. Eu quero falar mal de nós. De pessoas da minha idade, a famosa geração “leite-com-pera”, geração “toddynho”, geração “vou-chamar-meu-pai-na-escola-pra-brigar-com-o-diretor”. Aquela gente que espera ansiosamente pra assistir Star Wars VII, e no entanto não sabe o que é FGTS. Isso com 20 e tantos anos já vividos. O que é que tá acontecendo, pessoal?

Andei lendo algumas coisas que me motivaram a escrever essa “crítica”. Talvez eu não consiga, mas minha intenção é mesmo dar um tapa na cara de todo mundo que acha que ler “Cinquenta Tons de Cinza” é a mesma coisa que ler “Ana Karenina”, que um vídeo da Jout Jout é um tratado de Sociologia, e por aí vai. Não quero ser um baluarte da verdade, mas se der pra jogar um balde de água fria na vidinha de algumas pessoas, já fico feliz.

Então vamos ao ponto. A minha geração diz não querer ser rotulada, ao mesmo tempo em que diz coisas bizarras como “eu não sou hétero. Eu sou bi-flexível-eletro-retro-assexuado”. Pesquise quantos gêneros e orientações sexuais já existem. A minha geração não quer preconceito (algo inerente ao ser humano, sobre o qual ainda vou escrever mais), ao mesmo tempo em que rejeita argumentos simplesmente porque “Ah, mas se tal pessoa falou, só pode estar errado. Tal pessoa tá sempre errada”. A minha geração quer um mundo em que você pode ser e dizer o que quiser, mas os outros não podem pensar ou dizer o que acham disso. Minha geração não entende as contradições nas quais se joga de cabeça.

Hoje as pessoas têm uma necessidade de serem reconhecidas, de estarem inseridas em algum grupo social da internet, de encontrarem outras pessoas com as mesmas tribulações e pesadíssimos problemas (incríveis problemas, coisa séria mesmo, coisa de cinema, do tipo “Ai, não tem negro no Oscar esse ano!”, ou “Nossa, aquela menina da faculdade é tão falsa!”) — É claro que estou falando de pessoas comuns, da classe média mundial, gente que pode, no mínimo, completar o ensino fundamental. Africanos que morrem de fome não se importam com a quantidade de negros no Oscar.

Agora, é preciso tentar entender porque essa geração BuzzFeed é o que é. Isso aqui não é um texto sobre economia, política, sociologia ou filosofia. Então é apenas um chamado à reflexão, por isso deixo essa pra próxima.

O que mais quero dizer à minha geração, e já estarei feliz se uma ínfima parte dela me ler ou ouvir, é: o mundo não se importa com você. Ninguém quer realmente saber se você está bem triste hoje. Ninguém perguntou se você está no Outback. Ninguém está nem aí se você vai ter forças pra escrever um TCC, ou se está se dando bem no trabalho. Cada um quer saber de si. Esse é o sistema em que vivemos, é o ser humano em sua mais pura essência: “primeiro eu, depois os outros”.

As pessoas do nosso tempo se preocupam muito em transmitir o que sentem e, principalmente, querem fazer com que todos a sua volta se adaptem a isso. Como se 7 bilhões de almas pudessem conviver com as manias e noites mal-dormidas umas das outras. Como se tudo o que você gosta fosse seu direito, enquanto o que você não gosta precisa ser considerado crime. Boa parte das pessoinhas ridiculamente infantis do século XXI não suportam ouvir alguém que discorde delas, mas estão sempre com ouvidos atentos e dedo em riste, prontas para apontá-lo a qualquer um que pareça minimamente diferente do aprovado pelo coletivo.

Dê uma volta pelo maior catálogo de merda acumulada do planeta (também conhecido como “internet”), e passe a perceber algumas coisas. Veganos contra não-veganos. Fãs da Marvel contra fãs da DC. Fãs do Oasis contra fãs do Blur. Essas discordâncias são todas iguais. Enquanto isso, ninguém chega a consenso algum, ninguém concorda em coisa alguma, simplesmente porque é desnecessário. É isso aí. É desnecessário concordar. É desnecessário vivermos em paz. Mas calma. Olha só:

“Posso não concordar com nenhuma das palavras que você disser, mas defenderei até a morte o direito de você dizê-las”.

Essa frase é uma daquelas que guiam minha vida. Talvez não te interesse, mas essa citação é importante demais pra mim. Voltaire foi genial neste trecho.


Em suma, as pessoas desenvolveram uma infantilidade extrema, além do escapismo e do lazer, uma fragilidade enorme, de forma que não conseguem mais sequer ler uma palavra diferente daquilo que acreditam. Tudo ofende, tudo incomoda. E todos devem se encaixar no padrão dessa geração que assiste a Ellen DeGeneres e coloca um ‘❤’ no final de cada textão revolts. Experimente postar a frase “eu não gosto de cachorros” no Facebook — uma tempestade de ataques desse pessoal da paz aparecerá em minutos.

O senso de coletivização do pensamento, de padronização e rotulação, de conduta politicamente correta, atingiu em cheio as pessoas nascidas de 1990 pra cá (estimativa genérica). Toda essa minha crítica ainda vai render um livro inteiro.

E assim toda essa massa caminha sem rumo, se comovendo com uma foto diferente por semana (ora uma criança morta na praia, ora um golfinho que engoliu uma garrafa pet). Tudo isso sem realmente se preocupar com o próximo. Somos ativistas virtuais. Lamentamos um tiroteio numa escola enquanto comemos Doritos em frente ao notebook.

Mas aí chegamos a um ponto extremamente importante sobre o que quero dizer: é preciso que toda essa escória que acabei de xingar, aquela que tanto me revolta, entenda: ninguém está aqui para aceitar ou amar ninguém. O que precisamos é, simplesmente, aprender a tirar proveito de nossas individualidades, gerando valor a outros.

Ao entendermos que ninguém se importa de verdade conosco, nós aprendemos que podemos andar com as próprias pernas, resistir a pequenas ofensas do dia a dia, boicotar o que não nos interessa ou nos parece errado. Esse problema de não aceitar o que outros pensam atinge a todos, sem dualismos, sem “nós e eles”. A verdade é que ninguém está a salvo dos males da própria geração até que escolha se libertar.


É bem provável que este texto não tenha ficado claro para você. É bem provável que ele tenha uma parte dois, três, e se torne algo maior. Porém espero que meu objetivo tenha sido alcançado, que pelo menos uma pulga tenha se mexido atrás de sua orelha, fazendo-lhe pensar “o que diabos eu estou fazendo aqui?”. Torçamos para que eu não desista de mais esse projeto — como costumam fazer as pessoas da minha idade.

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