Como um seriado numa madrugada qualquer me ajudou a entender a mim mesma quando criança
Desde criança eu tenho dificuldade para pegar no sono. Hoje é tranquilo com a quantidade de coisas pra fazer que a internet proporciona, mas quando criança sua única opção é TV, no meu caso, a TV aberta. Muitas coisas me marcaram nessa época, Filmes como Efeito Borboleta, Clube da Luta, O Homem que copiava, me entreteram nessas noites de tédio e deixaram uma grande impressão em mim até hoje.
Uma dessas coisas que ao longo dos anos eu voltava a lembrar era o seriado Arquivo Morto, especificamente o episódio 9 da quinta temporada, intitulado Boy Craze.
O seriado não tem nada de muito especial, é um seriado policial procedural genérico, como as centenas de outros que existem por aí. A gimmick desse é que os casos se tratam de acontecimentos antigos e abandonados, daí o nome.
O episódio em questão trata do caso de uma adolescente, Sam, achada de vestido em um rio durante anos 60, que até então tinha sido considerado suicídio, mas após uma testemunha aparecer, eles passam a investigá-lo como um assassinato. Ao decorrer da história eles aprendem mais sobre a personagem, Sam, e acabam descobrindo que na verdade era um garoto trans, nascido mulher, mas que se identificando como e se vestindo como homem. Mostra ele sofrendo preconceito, bully, e um romance com um amigo, que não acaba tão bem quando boatos sobre eles são espalhados na escola, fazendo Sam ser expulsa da escola, levando o seu pai a interná-la numa clínica de reorientação sexual. Durante os cruéis tratamentos Sam se rebela, e acaba sofrendo uma terapia de eletrochoques que acaba mal, o deixando catatonico. O garoto com que ele se envolveu invade o hospital, com ajuda de uma enfermeira, e acaba com seu sofrimento, libertando-o e levando seu corpo ao rio em que eles costumavam passar o tempo juntos.
O episódio em si é bem básico. Tudo contado de forma simples e rasa, sem nenhum mistério, apenas um simples vai e volta com testemunhas. Mas a maneira como ele tratava de gênero foi algo muito marcante pra mim. Até então, com uns 9 anos, eu não tinha noção de que algo como pessoas trans existiam, a ideia era que eram apenas gays se passando pelo gênero oposto. Mas ver aquele episódio abriu meus horizontes, me mostrou que aquilo era algo real, e plantou uma semente em mim.
10 anos depois eu me aceito, finalmente, como uma garota trans. O episódio me veio a mente, e eu resolvi re assisti-lo. Sem dúvida não era tão incrível como eu lembrava, mas ainda é um bom episódio que trata do assunto com uma boa delicadeza e responsabilidade. Esse é um exemplo maravilhoso de como esse tipo de representatividade é tão importante.
Pesquisando sobre o episódio eu cheguei na roteirista que foi creditada pelo episódio,
Joanna Lovinger. Ela parou de trabalhar como roteirista e hoje é uma terapeuta, sendo esse episódio o único trabalho dela que saiu do papel. Eu encontrei o e-mail dela e escrevi contando sobre a minha história, e ela atenciosamente me respondeu.
Ela disse que ficou muito feliz de receber o meu e-mail, e que todo o trabalho duro e pesquisa valeu a pena, já que foi capaz de afetar alguém tão positivamente. Ela me falou que pesquisou bastante (inclusive me mandou alguns livros que ela leu), além de ter falado com bastante pessoas trans. E de como a equipe foi bem positiva durante a produção. Fiquei bem feliz de poder falar com ela, saber um pouco mais sobre quem fez esse conteúdo que me marcou tanto.
Eu não tenho exatamente um ponto em que quero chegar com esse texto, além de compartilhar minha experiência, e lembrar que sim, representatividade importa, que o entretenimento importa. De como esse seriado policial qualquer, que muitos relutariam em chamar de “arte”, teve um efeito tão profundo em mim. E acho que essa é a grande beleza de qualquer tipo de mídia: A habilidade de tocar as pessoas.