Fratres

Lucas C. J.
Nov 7 · 6 min read

Na fronteira entre Minas Gerais e São Paulo existe um pequeno circuito de cidades turísticas como Tiresias ou Hécate, onde famílias atravessam dispendiosos feriados em busca de sossego. Um pouco alheia e apagada, isolada da rota comum dos paulistanos que buscam respirar o ar gelado das serras ou tomar o chocolate quente de Campos do Jordão, fica a cidadezinha Ora Pro Nobis, habitada por algumas centenas de almas desejosas de paz. Não há nenhuma placa por entre os caminhos delgados das serras, ou indicação no GPS, ou qualquer página na internet, que pudesse denunciá-la em seu incontaminado anonimato. Mas o turista será bem recebido por todos aqueles que, vigilantes, não estiverem ocupados lançando suas varas de pesca no Rio Fratres, que é propriamente o coração daquele povinho tão amigável, que lhe fornece o mínimo de unidade, de coerência e de continuidade em vidas um pouco dispersas.

A verdade é que o Rio Fratres trabalha em favor da autoestima daquele povo: ainda que o Google não ofereça nenhum registro de sua história, haverá sempre naquele reflexo as luzes e construções que depõem a sua inegável existência. Contemplar-se no Rio é como testemunhar-se na tela da eviternidade, algum Ora-Nobrense com tendências poéticas haverá de dizer, porque ele se esquece muito rápido do inesgotável fluxo de cotidianidade ali projetado. Outro dirá que o reflexo da cidade, no Rio, é mais lindo que a própria cidade, pois a completa, preenche suas lacunas, ainda que de modo fugaz. Fato é que alguns turistas dizem ser da água do Rio, ou da carne dos seus peixes, a fonte daquilo que na cidade é prodigioso. Quem atravessar o caminho de terra opaco e irregular, tomado pelo mato selvagem, e adentrar o perímetro do povoado sem portões, a qualquer hora do dia, encontrará um invejável silêncio, pois quase todos dormem.

Os sistemas imprescindíveis funcionam: a prefeitura recebe reclamações, os farmacêuticos tratam dos enfermos, o mercadinho oferece as mercadorias e as trutas que vêm do Fratres. Uma única rua principal abriga os prédios mais novos, que em nada diferem das construções periféricas e antigas — casinhas brancas e quase perfeitamente quadradas, com janelas que pouco se abrem (algumas não têm janelas, ou portas, senão buracos cobertos por tecidos floreados que se fazem de cortinas). Não existem letreiros coloridos para assinalar o comércio, mas placas brancas com indicações pouco imaginativas, em letras finas: “CONCESSIONÁRIA” ou “AÇOUGUE”, e assim por diante. As duas pracinhas são arborizadas e vazias, com duas igrejinhas com tendências rococó. Os poucos vigilantes, que geralmente estão na pesca ou no campinho de futebol, cuidam para que o barulho não exceda o aceitável — as pessoas precisam dormir. Às diversas gerações de arquitetos e engenheiros que ali trabalharam, não ocorreu em absoluto a idéia de que uma construção abrigasse algum valor estético, qualquer coisa além do meramente funcional: por dentro, as famílias dispõem de uma mesa, uma cama, no máximo uma escrivaninha para guardar papéis — o mínimo possível para não macular as paredes que mais parecem de um adobe branquíssimo, mediterrâneo, e dão ao cenário uma simplicidade absoluta e inexpressiva.

Quase todos dormem, porque no sono do Ora-Nobrense há algo de prodigioso e, francamente, inacreditável: noite após noite, cada indivíduo habita o mesmo sonho, de modo contínuo. Cada soneca é um fragmento linear dentro de uma narrativa maior. Ao dormir, retornam sempre ao que estavam fazendo quando foram interrompidos, anteriormente, pelo acordar. Mais do que isto: todos os cidadãos habitam o mesmo sonho coletivo, ininterruptamente, em uma harmonia invejável. A este plano comum de convivência apelidaram Hora Mortis (porque se acredita que esta cidade noctâmbula será o palco universal e destino concreto das almas de cada um). Uma cidade que paira nas alturas, reconstruída inteiramente por cada cidadão no cerrar dos olhos, na respiração ritmada que antecede a decolagem rumo à matéria abstrata do sonho.

Não vi com meus próprios olhos, porque os portões de Hora Mortis se abrem para poucos (ou, se estive por lá, foi por um momento isolado e fortuito, sem participar do permanente milagre da continuidade de que gozam todos os Ora-Nobrenses). Mas as descrições são vivas e abundam: a cidade constitui uma versão mais complexa e desenvolvida de sua contraparte terrena. As casas não são brancas, mas projetadas cada qual segundo as íntimas preferências estéticas de seus proprietários — há um castelinho francês de estilo clássico na esquina onde, na cidade da vigília, há apenas um campo desolado de entulhos. No lugar da prefeitura (construção excessiva e já desgastada), em Hora Mortis há um teatro aberto que se expande, ao estilo dos gregos, em espetáculos coloridos e apresentações de orquestra. Há pelo menos dois campos de futebol onde os meninos disputam campeonatos, e um parque de diversões onde não se usam pregos no maquinário, mas uma técnica japonesa de marcenaria. Os habitantes, ali, assumem também formas mais interessantes: o velhinho que entrega os jornais mostra-se um centurião romano capaz de levantar um touro com as mãos; o filho gago do prefeito torna-se um sheik muçulmano que tem cinco palácios, cada um construído para promover o gozo máximo de um dos cinco sentidos. Um caubói gauchesco rasga os paralelepípedos com uma faca na mão, buscando os espólios de sua caça. Ouvi dizerem que o silêncio grávido e expansivo de Ora Pro Nobis se converte, do outro lado, na música sagrada das esferas. As pessoas, todavia, não vivem ali num ócio perfeito — trabalham, comem, apaixonam-se, vivem uma frugalidade doce e plácida. O dinheiro é utilizado para trocas; as casas são ornamentadas de maneira alegre e até vanguardista, movimentando o comércio e os empregos. As pessoas trabalham, constituem vidas e laços indissolúveis — porque não há Oficial de Justiça em Hora Mortis, e a miséria comum das vidas não é pusilânime ou canhestra. A moralidade, ali, consiste num bom-viver estoico e desinteressado, numa certa elegância que constitui a força vital da sociabilidade (que, aliás, falta amplamente aos mesmos senhores e senhoras em vigília, quando retornam à tosca realidade, e precisam se lavar, comer, se amar).

Do lado de cá, observa-se um fenômeno curioso: homens e mulheres em plena juventude, que dormem dezesseis, às vezes vinte horas por dia. Não se sabe se as Trutas são envenenadas, se há uma força invisível que se alimenta desta excessiva geração de imagens, de pensamentos. Mas as pessoas dormem feito ursos, e seus músculos pouco a pouco se atrofiam, gerando moços débeis e com aspecto doente. Se o turista questionar, o Ora-Nobrense dirá que não há sentido em manter uma boa aparência, uma constituição saudável, nesta conjuntura por demais fugidia: o músculo vai definhar e a gordura eventualmente vai secar. Em Hora Mortis, no entanto, os tijolos e as relações hão de se manter para além da borra da eternidade. Esta vida, eles dirão, é uma ante-sala imperfeita demais, pobre demais. Alguns mais habituados acordam apenas uma dúzia de vezes durante o ano. Existem relatos de um velhinho que acordava somente na troca de estações, para colocar roupas mais brandas, ou mais quentes, e fechar a janela. Dois personagens: um comerciante de relíquias sagradas cristãs e um marinheiro trapezista (que se apresenta de seu navio, nas margens do Rio Frates, que em Hora Mortis é um oceano) se encontram na vigília e se cumprimentam, ambos com vagas lembranças dos contratos firmados no sonho, mas também desinteressados, pois a vigília é um palco que não admite a falsidade e a imaginação. Conversei com um sujeito que havia acabado de estabelecer em Hora Mortis a sua pequena imobiliária. Ele me ensinou que vender loteamentos em sonhos é mais difícil do que parece: os terrenos mudam de lugar, de estação e de linha temporal sem aviso prévio. (Imaginei que deve existir também uma imobiliária que vende terrenos no Céu e no Inferno).

Corre a lenda na cidade de que há um sujeito que fez o caminho inverso: nasceu em Hora Mortis e, dormindo, consegue acordar em Minas Gerais. Dizem que ele seduz moças virgens, capturando-as na eternidade da cidade celeste, motivo pelo qual seu apelido entre as crianças é Batman Tarado (porque os morcegos dormem ao contrário). Quando em Ora Pro Nobis, em teoria, este cidadão do éter pode ser identificado pelo seu dente canino direito, que é possuído pelo Tinhoso e grita impropérios para velhinhas na hora da missa. Não há dentista no mundo inteiro que consiga arrancar deste dente a sua alma repugnante, porque isso não se ensina nas escolas.

Uma noite, depois de conversar extensivamente com um amansador de cavalos, depois de dois ou três tragos de cachaça, passeei sozinho pelas margens do Rio Fratres, pensando na riqueza inestimável de uma vida dupla. Quando me virei para a água reluzindo o brilho dourado dos postes da cidade, por um momento, pude ver no reflexo a prodigiosa Hora Mortis em toda a sua ampla pujança, infinitamente mais brilhante que o da cidade original. Lá, uma procissão passava pela rua central, repleta de homens e mulheres bonitas, levantando velas para Nosso Senhor. Uma moça bronzeada e plácida olhou para o rio, e viu nele o meu reflexo, e sorriu. E percebi, de maneira total e profunda, como a eternidade de Hora Mortis me parecia doce naquele sorriso.

Marília, 06 de Novembro, 2019

Lucas C. J.

Written by

based on a true story

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade