Estou escrevendo uma história.

Eu ainda não sei em qual forma será escrita. Estou pensando que poderia ser um daqueles livros grandes com vocabulário rebuscado, cheio de palavras belas e arcaicas. Eu poderia usar hipérbatos, ou quem sabe mesóclises nas falas das personagens. Se eu escrevesse assim seria uma grande obra, mas até agora a dúvida que me paira é se escrevo um conto, uma peça ou um romance. Não consigo decidir qual seria o melhor formato para essa história, qual iria aproveitar mais suas metáforas, mas a ideia do formato clássico me atrai. Uma narrativa clássica, como na antiguidade, com a melhor forma e o mais nobre tema. …


Com certeza não sou o único a pensar desse jeito, mas talvez não seja comum que se pense desse jeito com a frequência que eu penso.

O enquadramento.

A fotografia.

O ângulo.

As cores.

A iluminação.

A trilha sonora.

As falas.

Pra mim sem dúvida tudo poderia ser roteiro.

Poderia ser filme, curta ou série.

Nada pra mim parece ter um significado cotidiano. Como naquele filme americano em que o menino foge da escola por um dia para se aventurar. Ou no outro em que o romance acontece com direito a música tema e tudo.

A vida pra mim é filmada e editada por mim mesmo. Como no Show de Truman, sinto como se houvessem fases em que várias coisas significativas se reunem. As pessoas com quem eu andava, as músicas que ouvia, as expectativas e os pensamentos, todos eles presentes em temporadas e temporadas. …


Com doses de risos frequentes eu me dopo. São profundas de modo que toda dor e desanimo possa ser esquecido e colocado de lado por algum tempo. A sensação de normalidade da vida e a recuperação de que alguma coisa tem graça é o objetivo. Dar sabor a comida que parece repetida e sem gosto. Deixar de ter toda conversa fosse a mais pura bobagem e todo comentário fosse a mais pérfida idiotice. Essa droga que eu chamo de humor é de fato degradantem, se mostrando cada vez mais necessária após ser usada, é como se não fosse possível retroceder. Depois que da primeira vez, espera-se a queda. O desanimo volta e dessa vez contrasta com alegria que estava presente. Um ciclo é criado. São necessárias novas experiências de riso, dessa vez mais fortes para que doa menos e menos. Mas obviamente, chega-se a um momento no qual não há piadas ou comentários ácidos bons o suficiente para continuarem o efeito que você quer e precisa. Todo esse desânimo constante não se mostra profundo, como algo que nunca será removido, mas se manifesta como algo que cobre tudo, como se tudo fosse revestido de certa melancolia e a habilidade de fazer vir a tona o que se quer enterrar num caixão. Não só há o riso e o humor como uma forma de passar pelo sofrimento, mas há também o coma. Este é um método de utilizar músicas, sejam elas alegres ou depressivas a fim de que a mente se desligue de tudo, entrando num certo transe empírico. Os pensamentos são neutralizados. Estes pensamentos que quando são deixados ao vento fazem a festa e destroem tudo, só reconstruindo o que deveria estar em pó. A música é então outro jeito de se anestesiar, fazer a dor doer menos e poder levar. Parecer que sua dor é mais poética, mais travessia e menos estado faz tudo mais romântico e mais tolerável. A sensação de que alguém já passou pelo que você passa faz a música ser seu cúmplice, e então você divide a dor. Dividi como se ela não fosse apenas sua, fosse também de quem a fez, sua dor fosse da música. Mas como já foi dito, os pensamentos são parte chave do sofrimento. O meio pelo qual eles são banidos não são realmente importantes se eles forem de fato postos de lado. Qualquer atividade que faça com que eles sejam bloqueados e então seja possível seguir em frente com um menor peso, é bom. Qualquer método pode buscado e usado. Um momento em que os tais pensamentos indesejáveis sempre tendem a voltar e voltar é a hora de dormir. E eles estão a espreita esperando a desocupação, e então ocupam, colocando a tona tudo que já tentou ser esquecido, tudo que foi trancado na gaveta o resto do dia. Tudo que você finge não se importar. E para esse momentos, não há método, não há música, não há humor. …


Bem-vindo ao circo do dia dos namorados! Aqui sua felicidade importa muito, desde que você possa mostrá-la aos outros. Vamos começar mostrando cada uma das atrações desse picadeiro. Sei que alguns de vocês com certeza vão se identificar com os nossos artistas e sairão satisfeitos da noite de hoje.

Nossa primeira participação é o malabarista. Em uma mão você pode ver que ele está equilibrando o celular falando com o chefe, enquanto na outra segura o buquê que vai dar de presente para namorada. Além das duas mãos ocupadas, no ar você pode ver sua carteira. Observando e ouvindo com cuidado vão perceber que no telefone o chefe está gritando. Está exigindo as planilhas de gastos da semana. Com certeza estão pensando que a dificuldade desse truque reside em manter a calma com as broncas que estão sendo dadas ao telefone, mas essa sem dúvida não é a parte mais difícil. Manter a carteira com o dinheiro dentro é uma parte importante. …

About

Lucas Juliano

Já dizia Kafka, tudo que não é literatura me aborrece

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