quanto tempo leva para um amor passar da validade?

ilustra da @slautow

estava olhando umas embalagens de biscoito essa semana, revirei de um lado, revirei do outro, e finalmente achei a data de validade do biscoito, que nunca se sabe onde vamos encontrar tal informação.

semana que vem. o biscoito venceria semana que vem.

coloquei a mão na cintura, ainda segurando o biscoito, e pensei: se eu deixar esse biscoito pro último minuto da sua vida, será que ele terá mais gosto de chocolate ou de vitória? nos últimos segundos de vida do biscoito, vou lá e tenho o ato heroico de abri-lo e comê-lo completamente, só pra mim, ninguém para partilhar aquele último momento. somente eu, biscoito e o último suspiro.

abri o biscoito. comi. a vontade foi maior do que a necessidade. o desejo fala mais alto. ter é o que mais queremos, não é mesmo? e não iria desperdiçar aquele momento… e se eu esquecesse de comer o bendito biscoito?

mastiguei. mastiguei. mastiguei um pouco mais, só que agora saboreando cada pedaço de chocolate que agora virava lama em minha boca. fechei os olhos.

o amor.

abri os olhos, de repente. o amor? sim! o amor. lembrei do amor. datas, vira pra lá, vira pra cá, encontramos finalmente algo, saboreamos tudo aquilo de olhos fechados e seguimos o rumo de nossas vidas com o outro alguém ainda de olhos fechados. ora, e a validade?, pensei. bom, a validade é algo importante, sabendo que após o vencimento, não se serve de mais nada aquilo que temos em mãos. já deixa de ser nosso, é do mundo.

fui levando todo aquele sentimento à frente, levando mais um biscoito à boca. fiz exatamente a mesma coisa como quando estamos gostando de alguém: prolongar o sabor, o prazer, o sentimento de mastigar todos os afetos e lembranças e amarguras futuras num inocente sorriso de prazer. sabe aquela explosão de sensações que sentimos quando engatinhamos em caminho ao amar, ao amor, àquele que decora e colore os nossos dias? é a mesma sensação do biscoito deslizando pela garganta.

irônico, a sensação de sacies é passageira. ponho na boca mais uma, duas, três bolachas. estou farto. tão farto que me lembro de quantas inverdades e vontades de falar engoli no meu do caminho só pra manter uma barriga cheia de sentimentos e momentos à dois e um amor que sempre calha a data de validade. quantas vezes já senti fome de verdade e compreensão ao seu lado? milhões de vezes, pensei. e mais uma vez deixo escorregar pela minha garganta um bolo enorme de biscoitos, que antes eram feitos de sentimentos.

demorei-me mais um pouco com a cerimônia que era comer aquele pacote de biscoitos. pus em cima da mesa. observei-o de todos os ângulos. me atentei a cada detalhe que aquela embalagem me mostrava, desde os serrilhados no topo do lacre até as dobraduras mais bem coladas para ninguém ver o que há lá dentro. sorri. engraçado como nos envolvemos em camadas e mais camadas para nos vender, pensei mais uma vez.

faltavam apenas dois biscoitos para terminar o pacote. suspirei. não queria que acabasse. suspirei profundamente, e com os olhos cheios de remorso, peguei a penúltima bolacha lá no fundo do pacote. busquei lá do fundo a penúltima bolacha na esperança de que surgissem mais e mais e mais e que o fundo daquele pacote de biscoito fosse falso. nada aconteceu. era a penúltima.

parti o penúltimo biscoito em dois. dizer adeus é muito difícil quando se há uma fome que não sabemos qual é. tamborilei com a língua o pedaço de biscoito para lá e pra cá dentro da minha boca, numa tentativa de salvar os últimos momentos que tinha de sobra. pestanejei para engolir. me fiz esquecer de como fazia para engolir. repeti muitas vezes o mesmo processo e não deu em outra: o biscoito derreteu goela abaixo. ele não queria ficar.

o último biscoito.

decidido do meu destino, e do meu biscoito, consequentemente, deixo-o em cima da mesa, como quem não quer nada. deixei-o ali: único, intacto, envolto em suas variadas cores e camadas, pronto para ser achado por alguém e levá-lo e comê-lo sem olhar a sua data de validade, ainda que fosse vencer dias depois.

fui me afastando do biscoito, como quem se despede de uma criança no seu primeiro dia de aula. lentamente. lentamente. ainda mais lento. virei o meu rosto pro sentido oposto e saí andando, sabendo agora que o biscoito agora era do mundo, e por mais que a minha vontade seja de voltar e comê-lo e ter a certeza de que ele foi todo meu, não o fiz.

sabia desde o início a data de vencimento.
sabia desde a abertura do biscoito que iria doer me despedir sem levar tudo.
e ainda assim o fiz até a sua data de vencimento.
me venci de que o sentimento que tinha era só meu.
a insistência era só minha. 
o biscoito continuou biscoito, e eu, mero apreciador do seu sabor.