A dona do castelo

A história da nordestina que chegou a viver nas ruas de São Paulo e hoje administra a ONG Clube de Mães do Brasil

Lucas Lima — Aluno do 6° semestre de jornalismo pela Fapcom

Uma nordestina que veio a caminho de São Paulo, em plena década de 70. Isto realmente é uma frase comum, mas a história de Maria Eulina Hilsenbeck, 67, se difere de tantos migrantes que chegaram e que chegam constantemente a maior metrópole brasileira. Maria Eulina veio do Maranhão, com 19 anos de idade. Sem ter condições de se manter e ter uma moradia, passou a viver na rua. Foi mais de um ano morando no Parque Dom Pedro, região central da cidade.

Maria Eulina em debate com o público no 11° Simpósio de Comunicação da Fapcom, entre Gabriela Nascimento, representante do Sarau do Capão e André Palhano, a frente da Virada Sustentável— Foto: Lucas Lima

Mas a história tomou um rumo diferente. Era mais um dia comum no centro de São Paulo quando Maria Eulina avistou uma mulher brava por seu carro ter quebrado. “Eu senti que tinha que falar com ela, então disse ‘por que está tão brava com Deus, por tão pouco? Imagine se fosse você em minha situação’”, conta Maria Eulina durante o 11° Simpósio de Comunicação da Faculdade Paulus de Comunicação. A moça, que se chamava Vânia, se comoveu com a história e deu o primeiro emprego para Maria.

O período vivido nas ruas pela maranhense foi de aprendizado e de resistência. Para não perder seus documentos, Maria Eulina enterrava-os no pé de uma árvore, negava quando ofereciam bebidas e drogas nas noites frias e nunca dormia em albergues. “O abrigo é a pior coisa para o morador de rua. Primeiro que para você conseguir vaga é uma tortura. Eles (os moradores de rua) vão para porta do abrigo às 16h, ficar na fila. Depois, tem que entrar até às 19h, se não fica para fora. Às cinco da manhã passa o guarda com o cassetete mandando sair”, conta. “Fora que, se você chega bêbado, leva tapa, leva porrada”, completa.

Maria Eulina durante o 11° Simpósio de Comunicação da Fapcom — Foto: Lucas Lima

Após muito sofrimento nas ruas, Maria conseguiu um emprego e se casou com um diretor de uma empresa. Mesmo com a vida estruturada, nunca deixou de pensar no quanto sofreu e o quanto ainda sofrem tantas pessoas em situação de rua. Foi então que veio a ideia de criação do Clube de Mães do Brasil, entidade sem fins lucrativos, sediada no castelinho da Rua Apa, região central de São Paulo, que trabalha para a ressocialização do morador de rua.

No castelinho, são oferecidos serviços com o fim de encaminhar o cidadão para o mercado de trabalho, estimular o empreendedorismo e criar formas de renda alternativa, assim o morador de rua pode alcançar a independência financeira, segundo informativo disponível no portal do Clube de Mães.

“Este nome, Clube de Mães do Brasil, homenageia todas as mulheres do nosso país. Quem cuida quando precisa, quem dá abrigo, é a mãe. E eu sou mãe de todos eles”, pontua.

Um novo lar

Hoje reestruturado, o Castelinho da Rua Apa, que sedia o Clube de Mães do Brasil, esteve por muito tempo abandonado. A construção que fica na região central de São Paulo, próximo ao Minhocão, abrigou por muito tempo a família César Reis, dona do cinema Broadway, que fazia sucesso na época entre a elite paulistana. Em meados dos anos 30, um triplo homicídio dizimou a família e a construção ganhou fama de mal-assombrada.

Quando abandonado, o castelinho serviu justamente de abrigo para moradores de rua. A própria Maria Eulina dormiu lá e anos depois conseguiu ver e participou ativamente para o prédio ser reestruturado. O fim das obras aconteceu no final do ano passado.

Inauguração do novo Castelinho da Rua Apa — Foto: Tiago Queiroz para o Estadão

Maria, na verdade, tinha conseguido a concessão do prédio em 1996. Porém, por questões burocráticas e financeiras, o local não pôde ser usado de pronto. O que Maria Eulina fez foi, com a ajuda de voluntários, construir um prédio anexo ao castelinho. Depois de tantos anos, enfim, o famoso Castelinho da Rua Apa voltou a ter brilho.

Vídeo publicado pelo Estadão explica reforma do Castelinho

Migrantes chegam na cidade grande e vão em direção às trevas

Não é só Maria Eulina que tentou encarar a vida na cidade grande, por dizer melhor, em São Paulo, e foi parar nas ruas. Segundo pesquisa realizada pela Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social (SMADS) de São Paulo, divulgada em abril de 2016, 73,4% dos moradores de rua na cidade são migrantes. Naquele ano foram registradas 15.905 pessoas em situação de rua, sendo que 13.046 são homens e 2.326 são mulheres. A maioria deles se encontram na região central, principalmente na Praça da Sé, Praça da República e o bairro de Santa Cecília.

A pesquisa aponta ainda que a maioria dos migrantes são do interior do estado, sendo que o segundo lugar fica justamente com os nordestinos.

Segundo Maria Eulina, O Clube de Mães do Brasil já atendeu, desde a sua criação, em 1993, mais de 70 mil pessoas.

    Lucas Lima Oliveira

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    Redator e Fotógrafo no Blog Eufonia Brasileira. Trabalha como estagiário na Tratore, maior distribuidora independente do Brasil

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