Ambulantes dos vagões, ilegalidade e a sala punitiva

Comerciantes colocam em jogo integridade física e moral ao venderem mercadorias nos trens; CPTM diz prezar por respeito e dignidade humana

Foto: Glauber Ribeiro/FLICKR

Começo de manhã e Nicolas Henrique, 18, busca mercadoria para mais um dia de trabalho nos vagões do Metrô e CPTM. Às sete horas da manhã, ele compra os produtos e pega a linha amarela do metrô. Às 10h, começa a vender. É assim todos os dias. O expediente é das 10 às 14h. Costuma vender tudo que pega. “No metrô, trabalho há pouco tempo. Estou há mais tempo nos trens da CPTM. Vendo as coisas no expresso de Guaianazes”, comenta o jovem. “É bom começar na metade da manhã, porque os vagões têm mais espaço para circulação”, completa.

Faltando aproximadamente uma hora para acabar seu dia de trabalho, Nicolas faz uma espécie de promoção. “Melhor vender barato do que cair nos zoião do guarda. Você compra um pen-drive por R$10 e leva outro de brinde”, anuncia o comerciante. Para, faz um descanso e uma resenha com colegas na estação Jd. São Paulo, na linha azul. “Trabalho desde pequeno nos trens. Quando era moleque, eu pedia dinheiro. Já entreguei papelzinho, que nem esses que se pintam de cinza, mas não me pintava, não. Fiquei grande e não dá pra ficar só pedindo né, tive que vender”, ressalta o ambulante.

De volta ao trabalho, Nicolas entra no trem, ainda vazio, senta e só se levanta na estação Santana, para anunciar seus produtos. Sempre de olho entre as estações, para o caso dos guardas aparecerem. “Eu não costumo perder minhas mercadorias, porque eu tenho um ‘mula’, que fica segurando minhas coisas. É uma espécie de assistente”, diz o vendedor, apontando para um garoto, do outro lado da plataforma. “Mesmo assim, já fui pego várias vezes. Têm uns que te abordam tranquilo, é o trabalho deles, a gente sabe. Mas têm outros que já vem agredindo, gostam de oprimir. Os caras pensam que são polícia”, revolta-se. “Na CPTM, já fui agredido. E se os passageiros flagram, ficam do nosso lado”, ressalta.

Nicolas diz conhecer todos ambulantes que circulam entre os vagões. “Está tudo integrado, é como se fosse uma rede”, explica. “Acredito que todos já sofreram agressões, não só físicas, opressão também. E se você for muito ‘rabugento’, eles te levam para uma salinha e te quebram lá dentro”, complementa. O trem chega à estação Armênia, e lá, a casa cai. Três guardas já esperavam Nicolas na plataforma. Raramente acontece, mas um rapaz resolveu alertar os seguranças sobre o vendedor. Os guardas abordam o comerciante, que levanta o braço. Um segurança puxa o ambulante e o retira do vagão de forma truculenta, deixando-o no canto da plataforma. “Calma, calma, olha como você está me pegando”, reclama Nicolas.

“Este é o tipo de pessoa que você não tem que conversar”, diz o soldado Andrade, um dos que abordaram Nicolas. “O material que ele está vendendo é de procedência duvidosa. E mais, temos muitas queixas de roubo de celular por parte de pessoas como ele. Eu sei que tem gente que vende para sustentar a família. Ele, não”, complementa, enquanto os outros dois soldados levavam o ambulante para fazer o registro.

Durante a abordagem, o soldado pede para ver a bolsa do repórter. “Ele estava de ‘buchicho’ com o ambulante, vê se não tem coisa na bolsa dele”, diz o rapaz que denunciou e não quis ser identificado. “É por essas e outras que nosso país está nessa situação”, completa. “Mesmo que você só compre, eu posso te levar para delegacia. Toda mercadoria que apreendemos, encaminhamos para a Prefeitura”, explica Andrade.

Desânimo

A forma truculenta dos guardas, muitas vezes, faz com que os comerciantes desistam da vida nos trens. Foi o caso de William Camargo, de apenas 18 anos. Agora em busca de emprego, William passava dificuldades em casa quando decidiu trabalhar como ambulante. “Eu vi minha necessidade, minha condição, a realidade dentro de casa. Encarei tudo isso. Decidi, de verdade, depois que faltou mistura do almoço e janta, aí comecei a vender”, comenta.

Foram três meses de trabalho nos vagões do Metrô. A desistência veio por causa das agressões. “Sem mesmo responder , eles me agrediram. Foram quatro guardas. Em público, eles pegaram minhas mercadorias. Depois, me arrastaram para uma sala e me bateram lá. É a forma que eles usam para punir. É comum com quem responde, ou tenta fugir. Eu não reagi, só entreguei minhas coisas. Foi o cúmulo, não dava mais. Vi que precisava arrumar um emprego que garanta minha segurança.”, relata William.

Durante o tempo que William Camargo trabalhou no Metrô, vendeu apenas amendoim e água. Por dia, conseguia tirar em torno de R$ 100,00. “Até que dá um dinheirinho bom, mas, você estar lá trabalhando e do nada apanhar, é complicado”, finaliza William.

Apreensões

Nos oito primeiros meses de 2016, o Metrô registrou um aumento de 69% nas apreensões de produtos em comparação com o mesmo período do ano anterior. Na CPTM, o aumento foi de 45%. O número de denúncias por SMS também cresceu. O Metrô registrou crescimento de 170%. “Eu não vejo porque denunciar. Eles estão trabalhando, não roubando. De vez em quando até compro uma coisa ou outra. Às vezes você está com uma fome e aparece alguém vendendo algum doce. Nunca me fez mal. Acho que os seguranças deveriam dar atenção para outras coisas”, comenta a secretária e usuária do Metrô Elisângela Gouveia, 38.

E se no Metrô a regra é um ambulante só por vagão, nos trens da CPTM é diferente. Até quatro ambulantes chegam a frequentar o mesmo vagão ao mesmo tempo. E o sistema para escapar dos guardas é na base do cooperativismo. Por celular, colegas em outros vagões avisam se os seguranças passaram por lá ou estão a caminho. E se estiverem, o jeito é migrar para outro vagão. “Não tem jeito, de vez em quando temos que correr”, comenta o ambulante João Carlos.

“Quando você sofre agressão, até tem como processar ou algo do tipo, mas não dá em nada. Eles já vêm falando que você tá ilegal e que até por isso não podem fazer nada. Eu sei que eu estou errado. Mas eles também estão, agindo desta forma”, ressalta Nicolas. Em nota, a CPTM diz que tem em seu contingente cerca de 1,3 mil agentes, próprios e terceirizados, e que todos passam por um treinamento rígido. Ainda segundo a companhia, as rondas nos vagões têm “objetivos principais de prevenir a ocorrência de crimes e infrações no interior do sistema, bem como criar um ambiente de tranquilidade, respeito e confiança para o usuário, além de favorecer as condições de regularidade, confiabilidade e segurança operacional do transporte sobre trilhos paulista.”

A CPTM ainda enfatiza: “Os integrantes do Corpo de Segurança Operacional passam regularmente por programas de capacitação e atualização, ocasião em que temas como atendimento, direitos humanos, com foco na proteção dos grupos mais vulneráveis, técnicas de imobilização, condução de ocorrências, primeiros socorros, cortesia, acessibilidade, transparência das ações e respeito integral a dignidade humana são debatidos e vivenciados pelos empregados, visando a excelência na prestação do serviço, objetivando a conquista da confiança e o estabelecimento de parcerias com os usuários do sistema”.

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Lucas Lima Oliveira

Written by

Redator e Fotógrafo no Blog Eufonia Brasileira. Trabalha como estagiário na Tratore, maior distribuidora independente do Brasil

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