GREEN BOOK — Written by Gilberto Freyre

Como o Melhor Filme do Ano reflete a verdadeira face da maior premiação do indústria cinematográfica

escrito ao som de Don Shirley e When I Get Home, da Solange

1

A plateia quieta enquanto os dedos negros pincelam um Steinley.

A plateia atenta. A plateia branca.

Que não aceita jantar ao lado das mãos pretas empunhando garfos de prata,

as mesmas mãos que dedilham as teclas do piano.

A plateia quieta enquanto preenche fichas de votação para o prêmio de Best Picture.

A plateia quieta vendo a multidão branca que levanta, vai até o palco do Teatro Dolby e recebe a estatueta.

2

Tony Lip (Viggo Mortensen) vive de bicos e trabalhos nebulosos dentro do universo dos clubes e demais estabelecimentos dos mafiosos italianos, na Nova York dos anos 60. Esposa e dois filhos, carro, cabelo sedoso, racismo na veia. Aluguel atrasado, surge um emprego. Ser motorista (e guarda-costas) do pianista de música clássica e jazz, Don Shirley (Mahershala Ali), durante uma turnê pelo sul dos Estados Unidos. Pianista negro, turnê no sul, motorista racista. Aos poucos, entre discussões, prisões e lições de música, os dois vão criando um vínculo de amizade. Uma história de superação. A superação mágica do racismo do homem branco e do elitismo cultural do negro-exceção, do negro rico e letrado.

A hierarquia do filme

3

O discurso de mudança dentro da Academia é falso. O resultado da 91° premiação do Oscar revela que o conservadorismo nunca saiu do centro das engrenagens do prêmio máximo da indústria cinematográfica — o que existe é um jeitinho, tipo fazer um puxadinho, um migué. Isso não chega a ser surpreendente, é decepcionante sim, mas são os Estados Unidos da América. O país da KKK, do Partido Republicano (e democrata), das dezenas de golpes de estado na América latina, da little boy e fat man. Também é o país de Rosa Parks, Malcolm X e Martin Luther King; da Angela Davis, Frederick Douglass e Nina Simone; de Huey P. Newton e os Black Panthers.

Nos Estados Unidos, as dualidades das questões raciais são explicitamente tensionadas até o seu limite e no cinema não é diferente. Vemos isso não apenas nas camadas mais superficiais de Green Book (2018), sua temática e discurso mais direto/apelativo, mas em todo o extra-filme, dos comentários de atores e membros da produção até o resultado das premiações mais relevantes, principalmente o Oscar. É óbvio que os problemas não estão apenas no extra-filme (senão esse texto não teria sentido). A dialética é transportada para a película junto com todos os seus problemas estruturais, explícitos no seu discurso temático que prega um moralismo datado e carregado de práticas conservadoras.

Green Book é mais um queridinho de Hollywood construído em cima de um falso engajamento progressista. É como em La La Land (2017), a obra encharcada de nostalgia na forma não apresenta nada fresco, pelo contrário: torna-se refém da old school — o bom e velho migué de lançar um filme temperado pelos anos de ouro de Hollywood e pelas babas dos votantes velhos. Se não bastasse a nostalgia na forma, esses filmes também herdam todo o discurso racista que centraliza a figura do homem branco como o grande salvador seja qual for o cenário: salvar o jazz da ameaça do pop ou apresentar a música popular negra para um pianista negro!

“Sou mais negro que você”????

O longa dirigido por Peter Farrelly é vendido como uma história que se propõe a trazer uma reflexão leve e tocante, mas ao mesmo tempo crítica sobre o racismo no país. Se propõe a ser sensível ao ponto de transitar entre essas abordagens díspares.

No entanto, o filme se agarra à visão conservadora do protagonista. É óbvio que isso não é um problema, Lolita e Dom Casmurro são apenas dois grandes exemplos da literatura mundial. O narrador/protagonista não confiável, escorregadio, incoerente, é talvez o mais interessante — lembremos de Odisseu. Mas aqui a temática assume o alter ego de Tony Lip, quase como se o longa fosse uma autobiografia. De certa forma é. O filho de Lip, Nick Vallelonga, foi um dos roteiristas. Segundo Farrelly, o roteiro foi baseado numa pesquisa extensa e cuidadosa, que contou com relatos de Nick e demais familiares, além de entrevistas gravadas do próprio Lip. O resultado é um filme realizado por brancos e para brancos (que não entendem o mínimo sobre racismo).

E falar de racismo sob a ótica do opressor é uma decisão arriscada para os dias de hoje, chega a ser corajosa, de certa forma. De uma maneira que mostrasse as complexidades da estrutura racista, tão difícil de ser percebida por alguns, tão visível para outros. No seu último filme, A Mula (2018), Clint Eastwood mais uma vez na frente do espelho, se coloca dentro de uma obra que se compromete em expor suas fragilidades e seu discurso conservador, numa direção consciente de tudo. Já o vencedor da estatueta de Melhor Filme vai por outro lado, beira ao didatismo barato.

E isso ocorre não apenas pela convenção de estabelecer uma verossimilhança no discurso do seu personagem principal, mas pela visão deturpada que os homens brancos têm sobre os conflitos raciais. Embora o racismo entranhado no discurso do filme seja sutil, a forma com que Farrelly expõe os preconceitos dos seus personagens é bastante imatura. Quando Lip joga os copos de vidro usados pelos entregadores negros sinto logo a áurea do branco satisfeito com uma cena de autocrítica vazia. Um momento interessante no filme acontece um pouco mais para frente, quando Don Shirley é impedido de usar o banheiro principal de um casarão onde se apresenta com o seu Trio. A tensão nesse momento funciona e podemos sentir um pouco da inquietação do pianista na atuação que rendeu o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante para Ali.

É um dos poucos momentos em que se percebe uma tensão no espaço claustrofóbico (sempre assim para o homem negro). Tirando isso, o filme é um road movie de um casal interracial pelo Sul. Assume uma irresponsabilidade histórica mesmo sendo um filme, mesmo não tendo obrigação nenhuma. Ele é rasteiro porque o tempo todo exibe nas entrelinhas o sorriso de canto do rosto do branco que diz “é uma pena, é uma pena…” enquanto toma uma dose de whisky e dá tapinha nas costas do garçom.

Sorriso amarelado no rosto do diretor. Farrelly comanda o filme com preguiça, no piloto automático. Não existe indício de marca autoral, o diretor não tem voz. Sequer foi indicado, o que não significa muita coisa para um filme qualquer, mas estamos falando do grande vencedor da noite. Como é possível que o melhor filme tenha uma direção tão fraca que chega a ser esquecida na própria premiação? Esses esquemas são raros, mas às vezes acontecem. As maquinações e cálculos esquisitíssimos do Oscar que culminam na mediocridade consagrada na madrugada de domingo.

A preguiça da direção nas cenas musicais

O diretor sequer explora o jeito que Shirley toca. Porque não se trata apenas (como os brancos devem ver, com sua visão unilateral e egoísta) de virtuosismo. O pianista negro toca cheio de raiva, amargura, nas teclas do piano a black experience. Por parte deles, nenhuma percepção de negritude. E não basta ser negro para sentir isso, basta ter olhos atentos. Nem a ostentação é minimamente problematizada, um disco dos Migos é mais complexo (ice).

O pianista negro, por mais excêntrico que fosse, nunca iria zombar a sua ex-mulher por conta de preconceito linguístico. O comentário que ele faz no carro é totalmente irreal e só reforça a tese de que os brancos que escreveram o filme apenas conhecem os nossos estereótipos, só veem a superfície que eles mesmos criaram.

Farrelly é explícito, não cru. O que ele mostra é uma encenação barata do racismo do protagonista no início do filme, com tentativas de autocrítica. Depois, os exageros de Shirley, o intelectual distante, o negro com mordomo indiano. Não é porque o filme assume a perspectiva quase colada no homem branco que os roteiristas estão certos em ignorar completamente o background do pianista. Aqui, Shirley não é apenas o homem solitário, divorciado, rico e deslocado da comunidade afro-americana. O personagem é um protótipo, um coadjuvante que serve apenas para desconstruir o racismo do branco. E desconstrói tanto que no meio do filme, dentro do carro, Lyp é quem dá lições. Não existe uma troca mútua, no sentido heróico o filme é unilateral, o branco é o grande herói. Mais uma vez Hollywood lança um filme com base no complexo do White Savior.

Os diálogos sobre música popular são ridículos. Ainda mais porque se trata de Don Shirley, pianista clássico que absorve a música pop e grava uma série de discos com suas interpretações de canções consagradas. Em Green Book, a narrativa nos leva a entender que esse movimento de descer do pedestal e voltar os olhos para as origens musicais negras partiu de inquietações de Lip. Os dois grandes momentos “revolucionários” de Shirley partem do motorista branco. Pelo visto, em prol da construção do herói branco, os produtores não percebem o quão grave é essa escolha narrativa.

Primeiro, a história do “sou mais negro que você” que termina em Shirley tocando blues no barzinho negro, fruto da segregação e da resistência da comunidade negra local. Antes disso, a cena em que o pianista desiste de tocar em mais um local racista. Ao ser proibido de jantar no restaurante do hotel, ao lado de todos os brancos que estão esperando a sua apresentação, ele é “contaminado” pela revolta do homem branco…

Nos aspectos formais da narrativa o filme erra: quando busca uma leveza natalina, beira ao inverossímil. Indo pro extra-filme só piora. A família de Shirley reclamou, Ali pediu desculpas e as máscaras brancas caíram: o filme é uma verdadeira fake news em prol do branco, parece o governo federal, taokei? O final típico de filme baseado em fatos reais, com uma frasezinha dizendo que os dois permaneceram amigos até a morte e fotos separadas dos dois ilustrando a mentira, diz tudo. Uma montagem. A distorção da história ao ponto de transformar um homem negro ativo no movimento antirracista, amigo de Luther King, em um Tony Stark da música clássica.

4

Bom…

O discurso de mudança dentro da Academia é como o mito da democracia racial, difundido no Brasil por Gilberto Freyre. Não passa de uma utopia que só serve para encobrir os problemas reais e passar pano pra gente branca racista. A miscigenação ainda é louvada, o nosso país como essa mistura de raças tão bonita. Mal sabem, ou escondem, que miscigenação, historicamente, é sinônimo de racismo e estupro. Mas o discurso hegemônico é o oba oba da sessão da tarde, é o filme natalino escrito por Gilberto Freyre. Black is beautiful, Wakanda forever.

Em Green Book, o racismo à brasileira. A mão que esmaga a cabeça do homem negro é invisível, como a outra que eles tanto gostam. Aqui no Brasil, a mentira que disfarça o branqueamento da população negra. Porque esses tempos de conciliação já se foram. Essa conversa claramente conservadora disfarçada de discurso progressista deve ser desmascarada. O filme sussurra “o racismo é horrível e ainda existe em pleno século XXI, precisamos vencer esse fantasma do passado” e só. Não há nenhuma atitude antirracista. É isca pra branco que tem “racista reverso” no vocabulário.

Em 2019, a perspectiva do branco não é regra, pode ser uma escolha. Não estamos mais nos anos 50, passamos pela blaxpoitation, Faça a coisa certa (1989), o rap e o trap, eles tiveram até um negro como presidente (aqui continua sendo uma imagem estereotipada tirada das páginas de Monteiro Lobato). Filmes como Green Book vão ser questionados, obviamente. Nesse caso, fica mais fácil malhar o vencedor do ano, que peca formal e tematicamente. Um filme esquecível que será lembrado apenas como um dos piores Best Picture da década.

Referências, recomendações, etc.

O cinema é ideológico? de Arthur Tuoto

Trailer de A Mula (2018, dir. Clint Eastwood)

Georgia on Mind, música de Ray Charles interpretada por Don Shirley

Blues in B Flat, por Don Shirley

Tony Lip em Os Sopranos

Bad and Boujee, Migos

Florestan Fernandes: mito da democracia racial, raça e classe

O que é racismo estrutural, por Silvio Almeida

White Savior: The Movie Trailer