Maus, autobiografia intensa

O primeiro quadrinho vencedor do Pulitzer é uma obra de realismo bruto, que comove pelo retrato autobiográfico

Sempre que alguém procurar sobre Maus vai encontrar pelo menos uma destas palavras-chave: holocausto, nazismo, judeus, autobiografia. Obviamente, há a necessidade de resumir, a breve explanação, o caráter mais chamativo. A obra é muito mais que isso, naturalmente. Além do drama do holocausto, a graphic novel é o retrato sincero de um filho lidando com o pai idoso. Um projeto íntimo e muito pessoal, uma extensão explícita do seu autor.

O primeiro quadrinho a vencer o Prêmio Pulitzer narra duas histórias paralelas. Temos Art Spiegelman, o autor-personagem, um quadrinista que se desafia a escrever a biografia do pai, Vladek. Em segundo plano, tomando maior parte da obra, o idoso assume a narração e o leitor é levado para a Polônia, em 1939, quando a segunda grande guerra eclodiu.

Os judeus retratados como ratos

Na obra, o autor utiliza animais para simbolizar os personagens. Os judeus são ratos; os alemães, gatos; americanos, cães; poloneses, porcos; os franceses são sapos. A história é contada de maneira tão natural que não há estranhamento nem um tom peculiar, típico de narrativa fantástica. Há o realismo bruto. A crueza não é só visível nos desenhos minimalistas e pequenos, no preto e branco claustrofóbico, mas nos traços mínimos de reações nos rostos dos “animais”. Não há espaço para que leitor suponha estar em um mundo mágico onde ratos usam ternos. Spiegelman é certeiro quanto a isso: eles são pessoas, são os seus.

O senso comum ainda relaciona os quadrinhos à literatura infantil, como se não houvesse seriedade no gênero. Maus é a prova do contrário. Como Persépolis, de Marjane Satrapi, e as reportagens de Joe Sacco, o quadrinho de Spiegelman assume a responsabilidade de narrar um grande evento histórico.

Os narradores não assumem um tom professoral, estão longe do didatismo pedante ou da dramaticidade exacerbada de muitos relatos do tipo. Tudo é pessoal. A introdução do primeiro volume é um flashback. Art Spiegelman é um garoto. Ele volta para a casa chorando, o pai o questiona e ele diz que chora porque se machucou e foi abandonado pelos amigos do bairro. Então Vladek diz “amigos? Seus amigos? Se você se trancar num quarto sem comida por uma semana aí você verá o que são amigos.” Essa cena sintetiza o modo como a história é abordada.

No entanto, a perseguição aos judeus não é o centro da obra. Em certo ponto, percebe-se que as rememorações de Vladek são pretexto para uma possível aproximação dos dois. Ambos, pai e filho, não se entendem bem. Maus, como dito pelo Art personagem-autor, é uma vingança. Pois Vladek não é tratado de forma uniliteral. Ele não é apenas o velho que sobreviveu ao holocausto e tem muita história pra contar. Ele é complexo. Até nas cenas passadas em 39, Art esboça o pai como um homem machista, sovina e racista. Ao mesmo tempo, ele foi vítima de atrocidades, viu familiares sendo mortos por alemães em Auschwitz, passou semanas sem comer, esteve à beira da loucura.

Essa dualidade é explícita. Não só através da fala do Art-personagem, mas a própria construção narrativa e a disposição dos quadros mostram as inquietações do autor. Há o quadrinho dentro do quadrinho, Prisioneiro do Planeta Inferno, escrito por Spiegelman após o suicídio da mãe. Com traços mais dramáticos, em duas páginas, o autor apresenta um dos momentos mais impactantes de toda a obra. Parece que não há distância entre a interioridade do autor e o leitor.

Art Spiegelman em 1972

Não me proponho a falar muito sobre a fábula, nem revelar tópicos mais detalhados com spoilers. Apresento minhas impressões e o que vejo como sendo o mais forte em Maus. A mente de Art Spiegelman, um judeu que escreve sobre a figura tão complexa do seu pai, se mostra tão interessante pelo modo como é revelada.

Capa da edição brasileira de 2005, que reúne os dois volumes da obra, publicados entre 1986 e 1991

De um lado temos a inquietude de um homem que precisa escrever sobre o pai já falecido. De outro, há a crueldade dos nazistas e todo o impacto do massacre na vida dos judeus. De repente, uma família judia de posses é desestabilizada e enviada para os guetos. E mesmo assim, vemos vários tipos judeus, situações de poder entre prisioneiros, a resistência, o amor sobrevivendo nos espaços mais mortais.

Maus é uma experiência intensa. Isso é fato. Ler o quadrinho de Art Spiegelman é, sem sombra de dúvidas, assinar um pacto com o autor (afinal, é o que acontece com qualquer obra). No entanto, aqui é muito claro. A obra é complexa e pode ser analisada sob vários aspectos temáticos e ideológicos. Nessa primeira leitura o que ficou mais forte foi o caráter individual e psicológico. Com certeza, ao revisitar a obra, outras coisas ficarão mais claras. Definitivamente, é um livro a ser relido inúmeras vezes.

Maus — A História de um Sobrevivente
Roteiro e ilustrações: Art Spiegelman
Tradução: Antonio de Macedo Soares