UM MÊS É UM COELHO

para carol rodrigues

achei um pedaço de giz e desenhei a primeira pata. a parede é branca como o giz e a pata é só uma coisinha transparente. não queria que fosse assim porque preciso marcar o tempo

e o coelho será o sol

no meio dessa cela fria. aqui tudo é tão frio. a luz que chega vem da lâmpada do corredor, um amarelado de foto velha, amarelo-lama. sempre essa cor, eles nunca apagam as luzes e não dá pra saber quando é dia quando é fim de tarde, não dá.

por isso o coelho será o sol e as estrelas também.

inauguro uma constelação.

desenho o começo da outra pata no meio de um declive. com as minhas unhas porque o giz acabou. pelo menos minhas unhas são pretas e o filete de sangue.

a parede toda branca toda incerta pra mim, mas sei que esse branco é novo, coisa de meses. dá pra ver que pintaram há pouco tempo quando tomaram o lugar, quando tiraram o nome da doutora e o brasão do estado da faixada.

forço a vista, quero o que se esconde por trás do cal. paus e elefantes e unicórnios e paraninfos e tabuada de nove que é mais fácil.

tento descansar mas vejo um calo, as unhas já estão vermelhas e a pata do coelho ainda se formando. todos os outros desenhos que não vejo foram feitos aos risos quando a parede era metade azul metade branca com chicletes mastigados e azulejos nas quinas. até isso tiraram. não tem nada além do branco mal feito.

um mês é um coelho e assim será a marcação do meu tempo. minhas outras tentativas parecem cicatrizes na parede, já basta o meu corpo. é um branco ruidoso, o da parede. não é como eu imaginava quando cruzei o corredor no dia que me trouxeram. não vi direito, o sangue seco nos olhos, mas nunca pensei que a parede falasse tanto. ela grita o passado. riscar todas as salas com os nossos nomes porque somos namoradinhos, porque regras não valem, inventar símbolos de torcidas, xingar a mãe no paulo, desenhar a mãe do paulo com o pai da amandinha. a pesca da prova.

e se eu tirasse todo o cal e depois todos os coelhos e elefantes e corações e depois os azulejos e encontrasse vidro? não quero uma arma, um espelho é mais perigoso. veria coelhos à minha volta e o quanto os meus olhos estão inchados. veria dentro dos meus olhos todo o resto.

mas gosto da ideia do espelho. faria então dois coelhos, tudo duplicado tudo ao oposto, as patas as cicatrizes. quem sabe o avesso restaurasse tudo, fizesse de uma escola uma escola e não uma prisão. e parasse de retroceder o tempo.

mas parece que não há volta, que não há mais tempo e já nasci assim com barba rala e nenhuma força. sugaram tudo de mim, tudo. até o mínimo que é a noção do tempo. sei onde estou, sei muito bem, mas não sei quando. por isso um mês será um coelho, bicho que se reproduz rápido mas espero que aqui não se vingue. outros vingaram, eu vejo uma mancha na parte mais branca da parede, não sou o primeiro. quantos coelhos estiveram aqui? penso no próximo passo do desenho, sigo a geografia ou pulo pros dois olhos grandes? precisa ter olhos? melhor que nasça cego pra não ter que ver isso aqui, os meus novos cabelos brancos e os dentes podres, que não precise ver minha carne viva.

o coelho ficará de costas porque não quer me ver e grita aos elefantes e paraninfos aos unicórnios e leões, nas outras prisões todos sabem. eu sei de todos os outros porque somos a mesma coisa.

amanhã desenho a orelha esquerda.