Clube da Escrita #1 — Retrato do Passado

A luz do Sol entra pelas minha pálpebras me lembrando de acordar. Não quero.
Estou cansado ainda, descansei bem pouco e conforme a idade aumenta, reduz meu sossego ao deitar. Ouvia muitos barulhos e tinha que ficar esperto.
A luz ficou mais forte, o que quer dizer que o tempo passou, embora não faça ideia de quanto. Está ficando difícil manter os olhos fechados, o Sol está direto na minha cara. Abro os olhos devagar e a imagem nublada do meu arredor surge. Levo alguns segundos e algumas piscadas para recuperar o foco e entender o local onde estou.
Reconheço as árvores velhas, grandes e firmes ao meu lado. A floresta densa ao redor e a grama desgastada da clareira que escolhi para dormir.
Começa então uma das piores partes do meu dia, levantar. Por si só já fica mais difícil se levantar a cada dia que se passa mas o meu físico em nada ajuda. Rolo o meu corpanzil para o lado direito para que meu pé encontre o chão. Com meu pé direito fixo no chão eu abaixo minha cabeça em direção ao chão, encosto no solo e empurro meu corpo para o lado esquerdo, permitindo impulso suficiente para meu pé esquerdo alcançar o chão. Meus braços ajudam como podem e são surpreendente fortes para seus tamanhos. Assim, aos poucos consigo levantar por inteiro, mais um dia. 
Uma vez totalmente acordado sinto a força de uma fome feroz. A necessidade de comer algo me domina e vira meu único objetivo nesse momento. Nada mais passa pela minha cabeça.
Saio do abrigo da minha clareira e vou em busca de comida.
Não demora para encontrar um cheiro atraente. Sigo o cheiro até meus olhos enfim encontrarem a presa em potencial, distraída e entretida pela grama alta. É pequena, mas seria o suficiente para silenciar por algumas horas a minha fome. Coberto pelas sombras das árvores perto, espreito esperando um momento bom.
O sono acumulado e o cansaço da idade começam a me minar. Sinto meu grande peso começar a pender pra frente e dou uma passada a mais para me manter de pé. É o suficiente para eu pisar em um galho seco e estalar um som forte pela clareira. 
É o tempo da presa levantar os olhos em direção ao som e por-se a correr para longe. A fome ainda me guia e arrisco uma corrida em campo aberto. Corro com o maximo que posso, sentindo o cansaço aumentar em cada passo na grama alta. 
Quase já não vejo mais a presa, que continua no embalo cada vez mais pra frente. O Sol parece mais forte, a distancia maior, e o esforço impossivel. Sinto que estou perto de apagar, então reduzo as passadas até parar.
Estou ofegante, com fome, e longe do lugar que eu conheço. Não tem sido uma bom momento para ser um Rei. Especialmente um Tirano do meu tamanho.
Já vivi épocas melhores, cheia de fartura e energia da juventude. Agora o clima parece mudar, ventos estranhos passam, e plantas diferentes surgem aqui e ali. Não sei quanto tempo de vida eu tenho, mas sei que é muito, mais do que eu poderia contar com meus dedos (o que não é dizer muito).
Voltando devagar e perdido, tenho um medo de eu mesmo ser o almoço de mais alguém. E olhando e volta eu sinto um cheiro familiar e forte. Alguém próximo a mim, alguém que seria familiar.
Sigo o cheiro cauteloso e encontro ela. É uma fêmea, forte e vigorosa, debruçada sobre um grande almoço que ela mesmocaçou. Em tempos diferentes poderíamos brigar ali mesmo, encontrar alguém igual não era garantia de segurança. Nunca fomos de ter famílias nem andar juntos.
Mas os tempos eram outros e eu estava faminto. Decidi arriscar e me aproximo devagar olhando direto para ela. Ela se levanta e eu tinha medo de ter receio. Ela é muito maior que eu, como as fêmeas em geral são, e poderia me estraçalhar sem muito esforço. Eu estava fraco, velho e ela apesar de mostrar marcas de idade, ainda estava forte.
Abaixei a cabeça e andei mais dois passos em direção a ela. Ela virou a cabeça tentando entender melhor aquela cena e deu uma passo para trás. Um convite mais claro que esse eu jamais recebi. Dei mais dois passo e me juntei a ela na carcaça. Ela me olhava com curiosidade genuina e um leve receio, normal a todos nós.
Não fiz muita cortesia e somente me lancei em direção ao corpo morto à frente, arrancando nacos de carne. Estava enfim saciando a fome que me consumia o dia inteiro. Enquanto o sangue escorria pelos locos de meus dentes afiados, eu me sentia vivo novamente. Olhei em direção a ela e agradeci de minha forma. Seu silencio era a resposta apropriada.
Talvez os tempos fossem realmente diferentes, e especialmente cruéis para um predador do meu porte, mas talvez eu só precisasse me adaptar. Uma mudança aqui, outra ali, e eu poderia sobreviver. Ainda seria um rei, ainda seria um Tyranus, mas não precisaria estar sozinho.

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