Parasita (2019) — Crítica

Lucas Lopes
Nov 5 · 3 min read

O diretor Bong Joon Ho é um velho conhecido por suas críticas consistentes do capitalismo. Em qualquer entrevista ele não esconde seu descontentamento com os processos produtivos atuais e os esvaziamentos sociais.

Se O Expresso do amanhã (2013) foi uma metáfora cheia de ação e violenta sobre a luta de classes em uma sociedade estratificada, e Okja (2017) foi uma crítica à forma instrumentalizada que o capitalismo trabalha com a natureza e suas vidas, Parasita (2019) é um brilhante e interessante estudo de caso.

Belo bem da experiência do filme, que busca causar uma sucessão de acontecimentos que não sabe onde vai terminar, evitarei o máximo falar sobre qualquer coisa da história, além da sinopse óbvia.

Acompanhamos a dinâmica da família Kim, uma família de classe baixa que vive em um porão na Coréia do Sul. Observamos ao longo do filme sua aproximação cada vez maior com a família Park, seu perfeito contraponto, uma família rica que habita uma mansão. Acompanhar as relações que se constroem entre as famílias e seus membros é ao mesmo tempo instigante e angustiante.

As diferenças entres esses mundos são gritantes e bem exploradas no filme, seja tanto nos ambientes que cada um ocupa, quanto em suas próprias propensões e receios. Os personagens são em geral bem interessantes, conflituosos o suficiente para entendermos que há uma profundidade para além de um estereótipo como por exemplo do rico alienado.

Um especial destaque é a atuação forte de Kang-ho Song, que interpreta o pai da família vigarista e Jeong-eun Lee que interpreta a mãe. Ambos, com destaque a Kang que tem mais tempo de tela, capturam a essência de pessoas quebradas pelos desencantos da vida, mas que aspiram e buscam um raio de luz em um céu nublado.

Assim como fez em O Hospedeiro (2006), onde brincou com o gênero de filmes de monstro, não há uma definição clara de gênero. Parasita é uma junção de gêneros em essência, retratando cenas tão insólitas quanto plausíveis. Você se vê rindo, tenso e reflexivo em questões de simples minutos de cenas distintas. Classificá-lo como comédia é simplificar ou mesmo sublimar a angústia da existência de cada um daqueles personagens. Classificá-lo como drama é correr o risco de fechar-se a comicidade extravagante de suas situações impressionantes.

Equilibrar a diversidade de emoções que o filme traz é um mérito da edição concisa do filme e da bela fotografia, expondo as diferenças sociais pelos ângulos que usa. A mansão possui uma iluminação impecável e takes abertos mostrando a fartura do ambiente, enquanto no porão improvisado dos Kim tudo é escuro, sujo e levemente claustrofóbico.

O ritmo do filme é inconstante, e raramente ele te permite relaxar em uma situação sem logo apresentar alguma variável que muda tudo. Como consequência há momentos específicos que se arrastam mais, normal em um filme de mais de 2 horas.

Parasita pode muito bem ser o melhor trabalho de Boon, que apresenta um filme com todos os ingredientes que podem agradar os expectadores de diferentes gêneros, bem como uma camada a mais para quem quiser ver. Como diria o filho mais velho da família vigarista, tudo “isso é metafórico!”.

Ganhador aclamado da Palma de Ouro 2019, esperança da Coréia do Sul no Oscar de Filme Estrangeiro, Parasita é uma exposição forte, cômica e intensa das discrepâncias sociais e estruturas que se criam e da relações que construímos.

Final: 5/5

Parasita estreia dia 7/11, nessa quinta, em cinemas brasileiros.

Agradeço à Assessoria Sinny pelo acesso antecipado.

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