O Morro

Lucas Cioni
Apr 11, 2018 · 2 min read

Quando eu pedia para ela me dar caixas, na intenção de cortá-las, minha mãe me dava a mesma resposta: “é só papelão”. Era outono ou primavera, não tenho certeza, mas me recordo do vento e dos dias não serem tão quentes. Uma criança da rua aparecia durante o ano, com pipas ou figurinhas da Copa do Mundo, e de repente todos repetiam, começando o que, se bem me recordo, chamávamos de “época”.

Aquela era a “época de escorregar”, o que significava que o morro do outro lado da avenida pra além do fundo da minha casa estava cheio de pais e filhos, carregando pedaços de papelão. Lá em cima, onde a grama verde jazia falhada em diversos pontos, sentávamos nas partes cortadas das caixas e nos impulsionávamos pra frente. A descida parecia infinita.

Eu sempre estava com meu vizinho naqueles dias. Descobri depois de crescer que, na realidade, ele era o que hoje — de forma muito mais complexa e desnecessária — eu chamaria de melhor amigo. Era quase noite quando voltamos do morro, escorregando grama abaixo com os pés sujos de terra e o corpo pinicando em todos os lugares possíveis. Sentamos na calçada em frente a casa dele. Eu gritei, com todo o exagero ainda adorável de meus poucos anos de vida, avisando minha mãe que já estava ali, por perto, enfim protegido do resto do mundo. Meu melhor amigo me encarou e sorriu, e mais uma vez só entendi depois que aquele era um dos momentos espontâneos da vida, parecidos com quando não programamos beijar alguém, fazer carinho num animal de estimação ou pegar mais um punhado de pipoca do pacote comprado no cinema. Ele me contou que iria embora. Sendo criança, segui o padrão que minha cabeça permitiu, perguntando pra onde, dizendo que poderíamos brincar outro dia e, por último, dando tchau.

Parece banal, é verdade, mas não creio que tenha sido. Quando assisto a certos filmes, ouço música e leio livros, a cena volta, guardada comigo por alguma razão. Há quinze anos não vejo meu primeiro melhor amigo e há quinze anos não recorto uma caixa de papelão pra descer de um morro coberto por grama, sentindo o vento acertar meu rosto durante a descida. Aquela foi a última vez.

Momentos infinitos fazem falta.

    Lucas Cioni

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    Se eu soubesse o que escrever aqui provavelmente não teria tanta coisa pra resolver.