Páscoa

Lucas Cioni
Apr 6, 2018 · 2 min read

Há mais de dez anos, talvez em 2001, Ulisses viveu o pior feriado de sua vida.

Ele acordou cedo demais. Os parentes, na cozinha, falavam alto, crianças faziam barulho e os adultos, aparentemente, haviam esquecido que tinham filhos. Ele puxou o cobertor sobre a cabeça e continuou escondido no quarto tanto quanto pôde, mas sua mãe bateu na porta e tirou-o de lá, dizendo que deveria passar um tempo com os presentes, afinal, pessoas que moravam longe e raramente apareciam eram muito, muito importantes.

No almoço, por melhor que a comida estivesse, Ulisses não comeu com gosto. Revirou o arroz, o feijão e o bacalhau dentro do prato, deu algumas garfadas e acabou desistindo. Empurrou o que conseguiu com refrigerante e, depois de fingir achar graça das piadas de um tio que via duas vezes ao ano, quando muito, pediu licença e se retirou, desejando silêncio. Escondeu-se no quarto outra vez, e outra vez foi retirado de lá, agora pelo pai. Foi à varanda, cantou parabéns para alguém e sentou-se numa cadeira, esperando. O fim da tarde pareceu demorar anos pra chegar, mas acabou vindo. Todos foram embora. Deixaram sujeira pra ele, o pai e a mãe limparem. Antes de tomar banho e se deitar, ele comeu de verdade, agora com vontade, sentindo a maravilha do tempero da comida que só mães sabem fazer.

***

Há mais de dez anos, talvez em 2001, Ulisses viveu o melhor feriado de sua vida.

Ele acordou após o meio dia, com dores de cabeça e os olhos sofrendo com a claridade. Seu estômago doía e as têmporas latejavam ao brandir dos menores barulhos. Ulisses tentou se levantar, mas não conseguiu, via o quarto girando e sentia as pernas bambas. Vômito subiu do estômago e passou pela garganta, jorrando boca a fora em um jato amarelado. Os cobertores ficaram sujos, o quarto passou a feder e, mesmo com pouco equilíbrio, ele se levantou e jogou-se no sofá da sala. Estava claro e a dor de cabeça continuava. Ele não tinha remédios, mas não fazia lá muita diferença, o silêncio machucava mais que a ressaca: já há muito tempo não passava por um feriado com a família e há mais tempo ainda havia perdido o contato, até mesmo com sua mãe. Era culpa dele, ela havia tentado sem parar, mas agora outro filho lhe dera um neto e, aos poucos, por mais que ainda existissem, os laços entre eles se afrouxaram.

Enquanto pensava na mãe, decidiu que deveria ligar pra ela, perguntar sobre o pai e saber como andavam o irmão e, agora, o sobrinho. Mas ainda meio bêbado por conta da noite anterior, Ulisses adormeceu outra vez.

Ninguém o acordou.

    Lucas Cioni

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    Se eu soubesse o que escrever aqui provavelmente não teria tanta coisa pra resolver.