Ontologia, modelos e metamodelos

Um problema que me ocupa há anos sem que eu consiga chegar em uma resolução satisfatória é a relação entre ciência, metafísica e ontologia. É perfeitamente possível passar uma vida inteira estudando as sutilezas argumentativas de cada escola sem conseguir traduzir essas teses em respostas claras para os que estão fora do clube.

Porém, como vocês sabem, eu gosto de pensar por escrito e vou encarar essa impossibilidade. Tentarei expor rapidamente como penso sobre esse problema não-resolvido (e talvez não-resolvível). Aviso apenas que, como naqueles filmes de espionagem antigos, esse ensaio deveria se auto-destruir ao final da leitura.

Parece haver dois exageros complementares: achar que a ciência é suficiente e achar que ela deve ser subordinada a uma estrutura de pensamento supra-científica. Parece-me que tem que haver algum caminho do meio entre esses dois pólos.

O primeiro desafio, claro, é encontrar uma bom definição de ciência — sem torná-la vaga demais, idealista demais, excludente demais. Acho que essa aqui funciona: ciência é o processo elaboração e testagem de modelos explicativos de aspectos de partes da realidade.

O termo "processo", nessa definição, é importante. A ciência nunca termina: ela simplesmente cria mais e mais modelos. Eventualmente, alguns modelos se provam claramente superiores aos modelos anteriores; mas é também comum haver modelos paralelos em disputa; também é sempre possível que um novo modelo apareça e engula todos os modelos atuais — até ser ele mesmo engolido por um novo modelo ou contestado por novos dados. Percebam também que essa definição recusa qualquer dimensão normativa (o que me parece ser uma invasão da ideologia no campo da ciência), assim como é neutra em relação ao modo de elaboração e teste dos modelos (os quais me parecem estar igualmente sujeitos a esse contínuo processo de auto-correção).

Porém, embora esse processo me pareça claramente uma das grandes conquistas da sociedade humana, estou menos convicto de que ele possa ser considerado realmente autônomo. Afinal, cada vez que criamos um modelo, estamos também — mesmo que de modo pouco consciente — partindo de uma espécie de "meta-modelo": de um esquema geral de como o mundo funciona e de como podemos avançar na investigação de determinada área do conhecimento. É impossível começar qualquer investigação realmente ex nihilo, como se cada pesquisa fosse uma tabula rasa. Sempre temos um conjunto de pressupostos, uma série de tendências e até mesmo impressões imaginativas e emocionais que guiam nosso raciocínio por determinados caminhos. Obviamente, faz parte do próprio método científico se precaver contra essa constante tentação de invasão do irracional — mas, como se tornou consagrado pela noção kuhniana de paradigma, essas precauções podem se tornar elas mesmas uma distorção de segunda ordem, impedindo que novos insights legítimos sejam incorporados ao corpo de conhecimentos válidos.

Por isso, me parece que uma parte fundamental do treino intelectual e da pesquisa científica está no desenvolvimento dessa "sensibilidade extra-científica" (que não é anti-científica) e que deveria constituir o centro da formação filosófica. Nós encontramos essa sensibilidade claramente entre os grandes filósofos clássicos, em alguns dos iluministas e em algumas escolas contemporâneas. Esses autores jamais se insurgem contra a ciência, mas tentar fundamentá-la, ampliá-la, contextualizá-la. Não é um processo em defesa do obscurantismo, mas uma espécie de reconhecimento da complexidade do processo pelo qual a inteligência apreende a realidade.

Há, portanto, várias questões que não cabem dentro do processo de pesquisa científica, mas que afetam enormemente o trabalho científico, e que são exploradas por diversos autores. Questões como a natureza dos dados, a definição de evidência, o funcionamento das conexões lógicas, os limites da racionalidade, a descrição dos nossos processos cognitivos, a relação entre modelo e realidade e inúmeras outras questões que poderiam ser classificadas como epistemológicas, metafísicas e até mesmo existenciais. A etapa racional e técnica de elaboração de modelos surge, afinal, dentro da consciência da pessoa humana, onde o senso comum é a primeira fronteira de aquisição e elaboração de dados.

Em geral, essa admissão da importância do pré-científico tem se limitado à reconhecer a importância da epistemologia — que aparece, em alguns momentos, reduzida a uma justificação técnica da própria ciência. Porém, acho que o pulo do gato é reconhecer que a metafísica também permanece invisivelmente relevante: enquanto pessoas humanas, enquanto indivíduos concretos, nós nos aproximamos dos modelos científicos com um meta-modelo em mente. Esse meta-modelo traz uma hierarquia entre modelos (estabelece como uma teoria se relaciona com as outras dentro de uma ciência maior; indica também diversas ciências se relacionam entre si) e também uma linguagem dos modelos (todo modelo precisa de uma definição de quais são os objetivos válidos e como esses objetos podem interagir entre si — tempos, portanto, uma série de verbos e nomes embutidos em cada modelo). É como se toda ciência fosse envolvida "por cima" por uma metafísica (pelo meta-modelo) e "por baixo" por uma ontologia (pelos elementos que irão compor cada modelo). Há simplesmente uma dose inevitável de carga filosófica em todo processo de investigação racional.

Onde me afasto da metafísica tradicional — e onde partilho de parte dos instintos neopositivistas do nosso tempo (embora me parece que eles não reconheceriam que se tratam justamente de "instintos" ou "sensibilidade" e não de provas e teorias, mas isso é outra história) — , é que não me parece ser possível saltar do reconhecimento da persistência dos problemas metafísicos para uma teoria unificada que organizaria a ciência de cima para baixo. Essa pretensão me parece particularmente equivocada posto que qualquer teoria metafísica será apenas um modelo sobre modelos, replicando todas as dificuldades que temos de chegar a um modelo final nessa segunda ordem de discussão. Se a própria ciência é um processo inacabado, caracterizado por um auto-aperfeiçoamento dialético contínuo, então a própria metafísica deve ser também caracterizada de modo semelhante: o constante aperfeiçoamento dos nossos meta-modelos e esclarecimento dos elementos que compõem esses grandes esquemas.

Embora o exagero contra o qual me insurjo no parágrafo anterior seja frequentemente justificado com base em Platão e Aristóteles, creio que os mesmos autores podem ser interpretados com um viés diferente. Vemos em suas obras, afinal, uma evolução em como eles pensam sobre esses princípios que hoje chamaríamos de metafísicos e ontológicos, isto é, suas noções sobre verdade, teoria, substância, ideias também estavam sujeitas ao exame dialético — e à concomitante transformação — que aplicavam sobre todas as opiniões. Ora, sendo esse o caso, não me parece necessário imitar o conteúdo das suas doutrinas sobre essas questões, sendo seria preferível imitar esse espírito dialético, essa capacidade de comparar, contrastar e modificar as teorias em vários níveis de realidade.

Embora tudo isso talvez pareça complicado, creio que a lição implícita nesse ensaio é relativamente simples e sempre esteve implícita na prática dos grandes estudiosos: uma pesquisa avança tanto por meio de pequenos passos (ajustes nos modelos, mais dados) como por passos enormes (um novo tipo de dados, um novo modo de enquadrar diversos modelos). O grande salto, o insight, o pulo da inteligência pode vir de diversos lugares: de uma mudança no eixo da atenção, da percepção de que impressões vagas e imprecisas escondiam dados importantíssimos, de um novo modo de re-organizar dados já previamente coletado existentes. Não é uma questão de pensar mais, mas de pensar de diversos modos. E, em linhas gerais, essa flexibilidade cognitiva — essa capacidade de pular da definição para a imagem, da imagem para a memória, da memória para a sensação — já estava prefigurada mesmo nas descrições da prática da dialética platônica.

Obviamente, a maioria de nós não terá esses insights revolucionários que mudarão os rumos de uma disciplina. Porém, o processo de aprender uma disciplina não é muito diferente do processo de inventá-la — em certo sentido, afinal, estamos inventando-a para nós mesmo enquanto aprendemos. Portanto, a mesma capacidade de realizar essas diversas operações — de enxergar o todo, de repensar os princípios, de projetar as consequências — faz parte também do próprio processo de aprendizagem. Como já comentei em outros lugares, o dia-a-dia de muitos cursos de pós-graduação em países desenvolvidos se parecem mais com aulas de dialética que apenas toma o assunto oficial como pretexto para transmitir essas habilidades cognitivas (estou exagerando, claro… mas não muito).

Por fim, essa habilidade dialética não é, de modo algum, uma habilidade restrita ao contexto acadêmico. Pelo contrário: eu diria que ela faz parte da categoria mais ampla de "resolução de quebra-cabeça" — algo extremamente útil em diversos momentos da vida prática e que muitas vezes os próprios acadêmicos perdem de vista, contando-se em repetir rotinas menos ousadas. Os grandes insights da vida não se restringem à determinadas áreas, profissões ou disciplinas — eles são frutos de uma pessoa humana tentando entender uma situação concreta, fazendo uso de todos os instrumentos disponíveis apropriados ao momento.

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