A literatura, a elite e a bestialização da cultura.

Não há proibições em ser um homem local, muito menos um homem grosseiro — no sentido do que capta poucas sutilezas –, porém, se uma cultura intenta forjar uma boa elite, a proibição primeira é ser regional, pois o papel apaziguador demanda universalidade, demanda o conhecimento das possibilidades, dos microcosmos nos quais as outras culturas estão circunscritas, sem o qual cria-se a sensação minguante traduzida em: “ele não nos compreende, deixemo-lo de lado, temos cá um rude”. Um largo passo em direção ao desentendimento, o antepasso à discórdia.

A literatura, nesse processo, é a maior ferramenta de expansão da compreensão humana, partindo da mais primeva expressão linguística, a poesia, até seus enredados mais distantes, abrangendo as diversas possibilidades vitais que compõem uma cultura. Como disse T. S. Eliot: “ A poesia tem uma característica que a distingue de qualquer outra atividade: as primeiras manifestações, em cada língua, são poéticas, exprimindo aquilo que, de tão íntimo em cada povo, chega a ser intraduzível: o sentimento e a emoção. O poeta, ao possibilitar que outras pessoas digam aquilo que sentem, mas não conseguem exprimir, altera a ordem social e a torna mais consciente de si.”

Esse caráter da literatura — o contar duma história –, disse Fausto Zamboni, “é a elaboração simbólica mais próxima da experiência direta e, portanto, é o primeiro passo na tentativa de captar a forma inteligível dos acontecimentos.” Quando compreendemos um fato em particular, temos uma narrativa; quando apreendemos uma lei comum aos fatos particulares, temos uma teoria, um regimento das ações humanas. Isso explicado, notamos que o homem que da literatura é conhecedor tem seus “horizontes expandidos”, o seu rol de potenciais de vida humana é de envergadura pujante, pois permeia culturas diversas, conhece emoções várias — ou em nuances, intensidades diferentemente expressas e sentidas -, conhece as expectativas e agonias que roçam a epiderme das mais díspares culturas.

“As mudanças e os desdobramentos da sensibilidade que afloram de início em alguns começarão a insinuar-se gradualmente na língua, através de sua influência sobre outros. “ (T. S. Eliot).

O papel do poeta, a base de toda literatura, é desenvolver uma linguagem pessoal para dizer o que ainda não foi dito — simplesmente sentido e abafado na inexpressabilidade, a agonia dos mudos. Tal feito consumado, dar-se-á, posteriormente, a apropriação dele pelo homem comum, ampliando sua esfera de exteriorização. “A poesia exprime a tensão entre a personalidade fechada e o cosmo aberto: cada indivíduo, fechado no seu mundo subjetivo, não pode comunicar sua vivência interior — o reflexo do mundo na alma — senão pela linguagem. […] Fazer poesia, isto significa transformar em luz própria a sombra que o mundo exterior deita na alma do poeta.” (Otto Maria Carpeaux).

Quando uma cultura deixa de conceber grandes literatos, as capacidades expressiva e sensitiva são envilecidas, não se sente senão o grosso das sensações, não se expressa senão as necessidades mais básicas. Normalmente esse momento se dá quando o que se fala mais oculta do que evidencia, um feitio cunhado em políticos, em escusos colubrinos — aqueles dotados de velozes línguas que cospem discursos escorregadios e traiçoeiros.

Julían Marías, sobre a literatura: “[…] a construção dos edifícios mentais em que se realizam a filosofia, a teologia, as ciências da natureza, as humanidades, a indagação da realidade inteira e do que se descobre como possível, desejável ou temível. A literatura é o mais formidável instrumento de dilatação da vida humana.”

Sem uma literatura, não há expressão das possibilidades mais altas da existência; sem essa expressão, o homem está preso no bestial, tanto em sua essência, quanto em sua cultura, duas forças puxando-o vigorosamente para a devassidão. É precisamente aqui onde o Brasil encontra-se.