Da Criminalidade Velada e do Bom Homem — Um dia ordinário no Brasil.

Sol escaldante, suor enxugado pelo vento, uma moto em velocidade. À frente, minhas pernas apertam levemente o seco quadril do parceiro que pilota, me dando algum equilíbrio a mais. Como é bom esse ventinho do litoral! Chega a hora, parou de flozô! Vamos entrar no bairro, precisamos de dinheiro, não queremos mais gente batendo à meia noite na porta de casa.

Mirei uma vítima — o corpo inteiro aprumou-se como o sorriso de quem está prestes a atuar. Digo ao meu parceiro: “ei boe, olhe ali, é uma boezinha nova, tá sozinha, tá de fone e tudo! ”. Numa prontidão certeira, o piloto mira o guidão e reduz a velocidade aos poucos. A cena era contemplada vulgarmente, palpitavam ambos os corações pelo fugaz instante.

Parando ao lado dela, levanto a camisa. A moça, numa espreitada envergonhada, vê, reluzindo o sol n’arma, a escuridão conhecida por atormentar o homem. Gélido torna-se o dia escaldante, os segundos sentem em harmonia com o coração, dançando lentamente numa melodia assombrosa. Enxerga, de relance, um homem cruzando a rua. Sem hesitação, clama por ajuda: “Meu Deus! ”. Nojenta… com a mão direita levantando a camisa, levo a arma em direção à sua cabeça com a esquerda, puxo o gatilho e exclamo: “Bora, bora! ”.

Caiu de joelhos, tomada pelos pensamentos amigos dos que têm os pés a fraquejar no mais misterioso dos precipícios. No instante seguinte, de bruços, o paralelepípedo abrasava seu rosto. Pensar já não era possível. Os segundos finais foram de calor, ninguém merece uma morte fria!

Soa o sino da igreja, acalentado por um martelo bem forjado, mãos propositadas o tinham. Pobre menina, quem há de conter tamanha violência?

João, de justificativa tomado, afirma para si próprio: “mas como eu gosto desta moça…”. Rita, saudando-o, diz: “Já vou indo, João, fica bem.”. Decidido, põe-se ligeiro em frente à porta, impedindo-a de sair. Imbuída em estranheza, passa as mãos por baixo de seus braços, tentando alcançar a maçaneta. João fecha o braço, prendendo o ousado gesto, e murmura: “Tenha calma, Ritinha.”. Ela, com estranheza maturada em protesto, começa a usar força, tapeando-o e tentando tirá-lo do caminho: “Sai, João! ”. Gemidos agoniados eram sinfonia nessa manhã com cheiro de torrada. Como se esperando por essa justificativa, segura-a bem e leva-a até o sofá, em tom doce falando: “Que é isso, Ritinha…”. Incansável, forçava contra os braços de João, tentando exercer sua autonomia. Recebeu, em contrapartida, uma dose ainda maior de resistência, que acabou por conduzi-la à desistência. João, vendo-a desabrochar, fez-lhe um carinho, passeou a mão pelo seu formoso corpo receptivo, abriu a braguilha, levantou o vestido… Entrou João.

Soa o sino da igreja, acalentado por um martelo bem forjado, mãos escusas o tinham. Desafortunada Rita, um grande canhoto não tem sempre as melhores intenções?

A cólera é cativante, ajunta mais e mais, como se fosse fogo em gasolina. Os dois moleques que haviam assassinado a moça horas atrás foram pegos, que azar. Presos por cordas improvisadas, já ia numeroso os que ali deixavam dissipar o ímpeto violento. Pedras, chutes, ganchos de rede, tudo ali era tentativa de imprimir a indignação sobre a impunidade. Diferentemente da moça que mataram, o constante relembrar da carne — na faceta dolorosa da agressão — dificultava os rapazes no transcender dos pensamentos, a constância dos amassos era um convite a não reflexão. A mais virginal das mortes é a que não acompanha uma vida em retrospecção.

O sino deixa de soar. O martelo encerrava-se opressor, em essência fundava-se suíço — neutro –, como toda boa matéria-prima. Seria assim a essência do Homem, explicada por Rousseau? Velado em maldade, mas modestamente sacro por detrás?

Talvez descubra pelas mãos de quem apunha o martelo — que estranhamente deixou de bater no sino eclesiástico no último ocorrido, provavelmente tendo afeição pelos pobres criminosos –, gélidas e suadas, como de quem faz o mal com o pudor pesando em sua carne — e consciência.

Teria a sua criação, como com Laio e Jocasta, ido visitá-lo na igreja, como bom Édipo, interrompendo o último soar com o último acalentar do coração?

Teria o Homus Economicus forjado, em tão má disposição, tão inocente matéria-prima? Se foi ele, nada mais justo que seu fim.