Mens sana in corpore sano, Decimus Iunius Iuvenalis.

Mente sã, corpo são.

Como antigo praticante de fisiculturismo, cultivava um amor desmedido à muscularidade, desprezando todas as outras valências físicas que seriam responsáveis por um bem estabelecido equilíbrio. Dotado de bem desenvolvidos músculos, força e peso, peguei-me preso a uma amarga angústia: fui socorrer uma moça que se afogava, mas não consegui tirá-la sozinho, eu era muito pouco ágil e veloz para resgatá-la com sucesso, só era suficientemente para salvar a mim próprio, o que aconteceu devido à tentativa de ajudá-la — toda pessoa que se afoga e se depara com alguém por perto, agarra-se de imediato, procurando puxar o máximo de ar possível antes de submergir, fazendo a outra afundar mais rápido.

Experiência de quase-morte que veio trazendo boas novas: eu estava no caminho errado, cultivando as virtudes e as valências de maneira desproporcionada. Uma virtude — ou valência física — se dispõe em três facetas, como disse Aristóteles: excesso, carência e meio-termo. A coragem, por exemplo, é uma virtude, o homem que a possui é corajoso; tal homem, perante um covarde — o carente de coragem -, pelo contraste, é tido como virtuoso; tal homem, perante o temerário — o imprudente, excessivo em coragem — também é tido como virtuoso. Tanto este que excede na medida, mal-tempera e mal-dosa seus níveis de sabor, quanto aquele que carece na medida, que encerra uma incômoda sensação de ausência, cometem erros. Uma comida por demais salgada não nos é saborosa, tão quanto uma comida por demais insossa não nos é saborosa. Uma suprime todo os outros sabores, dominando toda percepção sensível, tudo é sal, não há gradações agradáveis e também importantes que possam ser saboreadas; a outra se suprime, deixando dominar todos os outros, esquecendo que é ela quem dá cor ao mundo. É o sal, em justa medida, que realça o sabor: seu excesso borra o gosto, sua falta deixa-o sem contorno.

A fórmula da sanidade também é explicada pela Santa Igreja, quando concebe o mais pacífico dos homens e o mais valente dos guerreiros: os monges e os cruzados; quando os relata, evidencia-os maculados pelo Pecado Original e, logo após, estende a mão e oferece a Graça, pedindo em troca nada mais que viver a Fé Cristã; quando os mostra miseráveis pelo primevo desafio a Deus — o fruto mal versado -, e depois [Ele] vem e permite-se morrer pela salvação da Sua própria Criação. Alguns dizem que a Igreja erra por permitir os extremos, sendo desequilibrada. Mas, na verdade, Ela é o único equilíbrio, pois abrange as diversas virtudes: enquanto ela fomenta a serenidade, abençoa a bravura dos cruzados que combatem a desmedida bravura, tornada em carnal agressividade, que fora expressada pelos muçulmanos na Europa. As ideias terrenas só abarcam uma ou outra virtude, normalmente excluindo suas irmãs, que podem parecer opostas, mas são complementares, como a flexibilidade e a rigidez.

Notável torna-se que, em matéria de virtudes e valências, o equilíbrio deve não somente ser conhecido, como buscado. Só se descobre o que está salgado ou insosso ao fazer, tentar e provar. Poupando-nos muito trabalho, nossas vovozinhas, em seus vistosos cadernos de receitas, já descobriram tais coisas e tomaram notas por nós, dando-nos a resposta sem a necessidade da repetidas tentativas e falhas. Do mesmo modo se dá o manual da vida, muitos viveram antes de nós, e é na literatura, na cultura oral, nas histórias das vidas dos grandes homens e dos homens ordinários que se encontrarão as melhores proporções para bem temperar nossas ações. Tentar descobrir a temperança por si próprio é tarefa hercúlea, seria similar a queimar todos os livros de culinária e redescobrir todas as receitas, em suas proporções e temperos: é tarefa demasiado difícil para uma só vida.

Do contrário, provaremos das piores excentricidades culinárias em vida. Do contrário, em manco andar irá nossa vida, tateando em busca do ponderado, arriscando submergir-se e afogar-se devido ao peso do que está desmedido, devido à falta de leveza, da qual é digna a ave, que se dirige ao céu.