Lucas Maia Maciel
Nov 6 · 2 min read

Seus olhos, de súbito, se alumiam, como de labaredas iluminados.

Quietamente vai se apercebendo onde está. Num demorado olhar de cima a baixo, observa a gradação dos diversos males: um arco íris de sangue diluído vai se adensando e tornando-se sangue ardente.

Acha, em seu centro, Lúcifer, que fita seu novo hóspede e para ele sorri maliciosamente. Aqui não há sorriso de verdadeiro júbilo, é a alegria da dor que se regozija no sofrimento alheio – sofrendo em conjunto, sofre-se melhor, não porque a dor se divide, senão porque a possibilidade de estar melhor foi vetada ao outro, não contrastando a sua desgraça.

Na escuridão, a dúvida se lhe palpitava cardiacamente, como quem espera o que há de ser bebendo das gotas travosas da angústia.

A enxergar, a feição endurecida se instalava, o ódio convulsionava-se em seu coração, envolto numa solução de miríades de paixões inomináveis; cai de joelhos, então, impotente, e seu olhar – todo desespero – entrevê o suplício eterno da sua alma imortal, ainda mais odioso por tê-lo feito em escolha própria, enquanto soterrava todas as graças recebidas para afagar-se por mais alguns segundos em gozos da carne, gozos tão ricos e cheios que o inflavam e lhe instalavam uma atômica plenitude – que dava lugar à indiferença, sua gêmea bastarda, e à dor, sua irmã siamesa.

Sente uma gota maternal cair do céu sobre si, refrescando-o, doce como uma tecla do piano. Ele chora – descobriu que desperdiçara sua única chance.

Lucas Maia Maciel

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Católico.