Viagens Brasil adentro: cultura e harmonia

Lucas Maia Maciel
Jul 10, 2017 · 4 min read

Viajar. O simples ato de mover-se de um lugar para o outro encerra um tecido de significados sutilmente acinzentado pela repetição impensada.

Perfurando as camadas externas, temos as vísceras: todo viajar significa ir de um lugar a outro, e, característico dos lugares, é seu caráter peculiar. As formações geográficas, a incidência solar, o clima, os recursos que lá abundam, as histórias do povo que ali habitou, todos esses fatores apontam para uma conjuntura única, para a impressão digital daquela localidade.

A cultura, construto humano, é hormônio secretado por esse complexo sistema de singularidades materiais e patriótica alma que se alimenta do existir de seu povo. Por ele secretado e que a ele vitaliza, como a uma pessoa quando de equilíbrio hormonal bem estabelecido; para bom funcionamento, nem resistência, nem sensibilidade, o ajuste fino é que guiará reações proporcionadas aos estímulos do corpo.

Assim posto, personifiquemos os aspectos materiais da localidade como um ser, e os aspectos culturais circunscritos por aqueles, outro. O primeiro é altamente mutável, o segundo, por sua vez, é relativamente perene; o primeiro parece ser amorfo — ou multiforme — e tem aí seu magnânimo deleite nuclear, o segundo é uma moça virgem: pode trocar de roupas, mas continua a mesma, carrega consigo aquele significativo semblante do intocado.

Tal monstruosidade disforme dança harmoniosamente com a virgem e, conforme a dança, ela troca de roupas e ele, de forma; assim continuam eles, dançando de olhos fechados e enganando aos olhos supérfluos que,desavisados, deixam escapar o principal: no âmago de cada um cintila a chama da familiaridade.

Agora darei outro passo: não mais dois seres, mas toda uma cidade e sua cultura. Uma cultura, para ser construída, requer muito mais esforço do que para ser destruída. Os anarquistas, enquanto baderneiros revoltados, nada mais são do que contraventores preguiçosos: reconhecendo que o trabalho de edificar uma identidade comum é mais difícil que sabotá-la e, ao mesmo tempo proclamar sua identidade individual como absoluta, optam, covardemente, pela segunda opção.

A arquitetura, o urbanismo, as cerimônias, a compostura, a modéstia, a civilidade, etc. Várias são as formas que a identidade cultural encarna, e elas podem estar em bom funcionamento ou em deficiência, tal qual os homens. O decoro na arquitetura é como a beleza humilde que se restringe para conduzir os olhos a uma beleza maior, o ápice daquele local: uma igreja, um templo, ou uma região com caráter sagrado, duma inviolabilidade acordada entre os que lá pertencem. Caminhar por Tiradentes, em Minas Gerais, aparenta como se as ruas estivessem te seduzindo a desvendá-las, como fugidia mulher com segredos a revelar, até a chegada do clímax: o momento em que nos deparamos com algo que unifica e contém os arredores, damo-nos de face à síntese de um povo.

O urbanismo, por sua vez, dispõe-se na noção de público, o momento de comunhão onde, em uníssono, convergem e divergem o conterrâneos sobre o porvir. A esse respeito também há formas apropriadas e singulares, como a praça, na qual se delineiam os limites da esfera privada e pública daquele povo. Nesse caso as ruas, a iluminação, o posicionamento dos monumentos, todos se constrangem em algum nível, conservando uma beleza condensada, sublimando um ar, a alma da cidade, que passeia por entre as passagens.

No que concerne aos que lá pisam, o decoro, a compostura, a modéstia, o pudor, uma refinada lista de virtudes que devem ser buscadas, restritivas tão somente no sentido da restrição que sofrem as impurezas no processo de apuração, visando a sã vivência em público e consequente ordenação da vida privada. Estive num cemitério, em São João del-Rei, e, como todo cemitério, ele invocava sobriedade e constrição; sua sacralidade pairava contida pelas pontudas lanças que o enclausuravam.

Lá estava uma moça que, como dizem na expressão comum, expunha a “polpa da bunda” e pernas desnudas, com carnalidade reforçada pelo vulgar sufocamento da silhueta. Ótimo exemplo de egocentrismo, com esse ato, ela procurava — consciente ou inconscientemente — , ser centro das atenções — olhares que mais vêem carnes do que sujeitos são seu alimento — , desvirtuando todo o respeito requerido pelo local e menosprezando a seletividade da visão ao adicionar mais elementos secundários e obstruir o principal: faz-se como instaurar a busca pelo ouro e mascará-lo com falsas preciosidades douradas ao seu redor.

A vestimenta, no caso humano, é de suma importância. A imodéstia, mostrar o que se deveria esconder, escarnecer do resguardar que convida a um olhar altivo, que procura uma alma num corpo, e não um objeto para satisfação, é evidentemente problemática. Mas, risonha e silenciosamente, o ridículo da propaganda se entranha nos hábitos do vestir. Jovens, adultos, toda sorte de pessoa pavoneia suas marcas, seu time, seu sistema de ideias e crenças estampados em suas vestes, parecendo mais propagandas ambulantes do que pessoas sóbrias e comedidas — esse ato também chama atenção e suja o ambiente com informação visual inútil e desnecessária.

Abarquei, até aqui, três pontos nos quais a cultura se exprime. Toda cultura encerra um conjunto de singularidades que pode desviar ou se alinhar com a retidão que rege a direção de seus passos. Seu segredo está em saber usar seus recursos para o preparo das melhores receitas; cada região tem sua culinária, mas o reconhecimento do insosso e do demasiado salgado, do deveras doce e do brando em doçura são universais ao paladar humano. A boa cultura combina seus ímpares recursos nas mais harmoniosas formas, dando bom sabor ao prato final e liberando, com certa restrição, cada ingrediente para exprimir seu teor.

E cá está o viajar, permitir-se provar dos diversos pratos que podem ser servidos.

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