Da Modernidade e da Beleza

Hoje, pela primeira vez até então, saí da academia antes de finalizar um treino, acometido por um desgosto sobre todo ambiente que me circundava. Estamos em quaresma, e eu estou jejuando parcialmente por vários dias — prossigo assim por conta do hedonismo que a atividade física costuma trazer consigo — visando decair meu físico — o aporte proteico e calórico da dieta é reduzido, causando perda de massa magra e peso.

Frente ao declínio do corpo, vivencio sua pequenez e, incessante, procuro a ascensão da alma, da inteligência, dos aspectos que não concernem, diretamente, à carne. Mais novo, pesar-me-ia amargamente ver-me em declínio físico — que, no longo prazo, é o que nos espera, a decadência da matéria; hoje, graças às noções católicas em mim impressas, apraze-me o fato de tal vaidade ter-me escapado às duras, conquanto, escapado.

Ainda assim, esse é só o prelúdio dessa conversa. Hoje exclamei-me tal frase: “A modernidade e seu característico cheiro de velocidade. “. É aqui que a reflexão deixa de engatinhar e dá seus primeiros passos. Desse modo exprimi-me ao sentir o cheiro dum desodorante que acabara de usar. Prendi a inspiração porvir, recuei alguns passos, permiti-me um sútil inalar — infelizmente, estava desodorante.

Desodorizar, um ente que odor retira; assim emanou ansiosa a modernidade naquele instante, competindo com alguns móveis de madeira velhos que, quando não inibidos, exalavam seu lígneo aroma.

Seria a modernidade um eterno retirar? Com tal pensamento saí de casa. Olhei as ruas, as casas, as igrejas, olhei e olhares memorei, na academia já estava. Um funk alto tocava, as vestes mais vulgares do século passado ali seriam modestas, um largo quadrado nos revestia, a forte luz branca — e seu inquisidor aspecto luminoso… repentino tocou-me um incômodo que poucas vezes me visitara, fui resfolegar-me contemplando a rua — tão desacertado quanto abrir o nariz na hora errada, acabei por mirar meus olhos ao lugar errado –, a feiura ali era de pai único, parecia ser do único homem da cidade, pois todos seus filhos eram iguais.

Impossível não notar, nossa arquitetura atual é absurdamente desagradável — ao ponto de poucos maldizerem-na, como ao horrendo, reconhecê-lo abominável é ofensa, e não constatação de fato –, ela relembra-me uma analogia que uso com árvores e ramos, oportuna será agora.

A árvore encerra uma beleza de completude, de maturidade, de função. Ela está lá, estática, impositiva e responsável, com seus frutos, seu tronco, suas raízes e sua história. O ramo é uma parte — logo, não é o todo — da planta que pode dar origem à outra estrutura completa se bem tratada.

O conservadorismo da técnica arquitetônica clássica tem, como prima ratio, a beleza, a agradabilidade estética, diferentemente da arquitetura moderna, que tatuou em sua testa, num ato de revolta típico juvenil: “função antes de forma”.

A primeira representa a árvore, madura e completa, delineando exuberante beleza, a segunda, por sua vez, é o mau ramo, o ramo infértil que se recusa a crescer, a completar o potencial de sua vida, por saber, a fase arbórea. O mau ramo é como o mau adulto, aquele que não quer tomar as responsabilidades da fase, aquele que, com jovialidade em forma e senilidade em essência, mal adequa-se à fôrma, bolo não se faz em copo — esse é o bolo da solidão.

Assim posto, a arquitetura moderna carece do florescer, carece do pessoal, carece do seu aspecto firmado, da família que se estabelece, marca seu território e arruma seu local à sua moda. Faltosa em alma, aos prantos entrega-se às vulgaridades, todos lá habitam, habitar é seu prostituir. Qual a maneira de esconder as olheiras, a agonia, o vazio dum mundo onde não se é por ninguém, sendo por e para todo mundo, acabando por ser tão somente por si própria?

À maneira das moças de bordel. Mostra-se a carne, passa-se a maquilagem e padroniza-se o visual de acordo com o interesse sexual vigente. A construção moderna mostra-se em estrutura nua, colore-se ao tom mais impessoal e padroniza-se de acordo com o interesse residencial vigente, suas formas acompanham seus senhores, sua alma está oprimida pelo seu corpo.

A arquitetura desvela-se como reflexo da sociedade moderna: o adulto que não quer ser adulto, pois requer firmeza e responsabilidade per annus, pelos anos, perene; o ramo que não quer ser árvore, pois requer um local para estabelecer-se e desenvolver raízes, ela apraz-se com sua proto-forma, com sua mobilidade e velocidade.

Alguém precisa alertá-lo, ramo que não cresce, morre.