O corpo feminino e o corpo masculino, um reflexo da alma humana.

A tensão corpo e alma já é caduca, os anos se tomam a responsabilidade de discuti-la. A distinção entre o ideal e o material, com este apontando àquele, faz parte dessa questão. Assim como Deus criou-nos, os homens foram dispostos duma capacidade similar: a criação artística. É uma mimese alegórica à Criação; ao passo que Ele formou-nos homens, os homens puderam esculpir seus lampejos criadores — que remetem à gênese primeva — para dar fluxo à sua essência divina.

Usarei de um exemplo. Um cachorro tem uma certa estranheza perante seu rabo, ele o olha de vez em quando, sem reconhecê-lo como parte de si próprio, não o reconhecendo, persegue-o indefinidamente, mas nunca alcança seu objetivo: eliminar o corpo estranho. Numa situação similar estamos nós, os Homens, o mais superior dos animais. Temos uma certa estranheza para conosco, um paradoxo andante, a carne fundida à alma, a alma fundida à carne.

Às vezes procuramos a ascese espiritual, tentando saciar nossos movimentos espirituais, noutras vezes procuramos amolecer nossa carne no prazer, amaciá-la e regá-la em doses e mais doses, embebedando-a na fugaz doçura do deleite. E quando damo-nos conta disso, perseguimos. Numa vez o rabo à cabeça, noutra vez a cabeça ao rabo. Esta é a contínua luta do homem, como um cachorro ao seu rabo, é o homem a si próprio, seu pés direcionam-se ao mundo, seus olhos miram o céu.

Com isso explicado, dou início ao que quero falar: os corpos masculinos e femininos como espelho da alma. Começarei traçando as peculiaridades de cada: a mulher é símbolo de doçura, de abrigo, de serenidade, de recepção, de leveza, de suavidade e maciez — uma lista infindável poderia ser feita, mas posso resumi-la da seguinte maneira: o mais doce dos alimentos é mais amargo que o menos doce de seus olhares; o mais macio dos tecidos é mais áspero que o seu mais brusco toque. Todas essas qualidades se expressam também no seu corpo idealizado. Silhueta de fartos seios e quadril eminente, suave, seguindo o ritmo da pronúncia: su-a-ve. Inicia “Su” em lábios fechados, o belo preludio de sua face e cabelos. Abrindo a boca pra pronunciar o “A”, a sua caixa torácica tímida, mas de evidente fartura maternal. Finalizando por um sutil selar de lábios, em “V”, representando sua cintura formosa em contraste com o seu quadril, o lar das vidas, clamado pelo harmonioso “E”, pronunciado em discreta abertura.

Disposta de pele macia, gordura bem distribuída e acumulada em seus belos cumes, de corpo receptivo, como a porta da casa das avós, sempre pronta para receber novas vidas e acolhê-las em seu ventre, sempre pronta para receber seus filhos e acolhê-los em seu lar. A mulher, através de seu corpo, modos, compostura, condutas e costumes comunica sua feminilidade, comunica a sanidade de sua alma. Se ela fomenta valências físicas e de caráter deslocadas, está exteriorizando o conteúdo de sua alma, que também está fora do lugar. Toda sua feminilidade e toda sua alma estarão expressas nas formas que eu disse acima, primeiramente pelo seu rosto e olhos, onde se encontra o centro do indivíduo, após em seu corpo e modos, pelos quais reflete seus movimentos interiores.

Os homens, por sua vez, têm suas singularidades: a fortaleza, a muscularidade, a dureza, a proteção, a guarda e o guia. Seu corpo é disposto de maneira distinta, seus ombros são largos em relação à sua cintura, e esse é o principal movimento de seu corpo. Tendo sua parceira como receptiva, ele quem desfruta da receptividade, seus corpos opostos, quando unidos, soam como as mais belas harmonias já entoadas, e a mais bela das notas, quando alcançada, estremece, originando uma vida. Ele é a proteção de sua família, dos mais fracos e oprimidos, seu corpo rígido e murado é reflexo disso. O trabalho pela subsistência familiar forja-o em solidez, o labor de sua alma pela manutenção, salvação e condução de sua família delineia sua santidade.

Um homem, para amar sua mulher, deve amá-la de fato, abrangendo toda sua feminilidade. Nisso se inclui a sanidade do contato corpóreo. A objetificação da mulher torna-a numa simples fêmea, não mais dotada de feminilidade apaixonante. Amar sua bunda não é amá-la, desejar sua umidade não é desejá-la. A preocupação moderna (das mulheres querendo obtê-lo e dos homens querendo usá-las) com um corpo não feminino, um corpo masculinizado ou disforme é um exemplo claro da objetificação, da anulação do feminino e do masculino em troca da pura carne. Um glúteo musculoso, uma perna cavalar e ombros largos não são atributos femininos, tanto em proporções quanto em disposição: a muscularidade feminina é baixa justamente pelo seu caráter receptivo, ela se encontra num limiar sublime, deixando-a formosa como uma poesia.

O mesmo se faz realidade na direção oposta, sendo um pouco mais raro. Deve-se amar indivíduos, e não carnes; deve-se amar com toda alma, amar toda a poesia do Outro, seja ela triste ou feliz. Se tudo se encerrasse em felicidade, não se saberia felicidade; se tudo se encerrasse tristeza, não se saberia tristeza; nós só saboreamos porque temos o contraste, e assim devemos bem saborear o que é o verdadeiro amar.