Algumas reminiscências da minha perdida juventude ou como conheci Olavo de Carvalho

Em meados de 2013, quando acabava de ingressar no Curso de Direito, me vi quase que impelido a me tornar um “cidadão consciente”. Não sabia muito bem do que se tratava, mas sabia que deveria estudar para isso. Como sou um puto preguiçoso, é claro que me contentei somente com as aulinhas do primeiro período de Direito — Sociologia, do direito; Filosofia, do direito; História… do direito — todas esvaziadas de conteúdo significativo para minha vida intelectual, mas recheadas de marxismo cultural.

É claro que àquela altura eu não me dava conta dos vícios que ali estavam contidos, mas estudava e me inspirava a cada dia com a esperança de me tornar um “cidadão consciente”. Tão logo eu terminei minhas últimas provas daquele primeiro período, surgiram nas ruas de São Paulo as violentas manifestações de junho de 2013, e eu, enfurnado em meu quarto assistindo à vídeos dos mais variados, desde cultura e política até os temas mais improfícuos, fui atraído para aquela oportunidade de exercer meu papel social, afinal, o Brasil é o país do futuro. Foi nesse ensejo que alguns amigos do Ensino Médio me convidaram a participar da próxima manifestação que ocorreria em Goiânia, minha cidade, e eu, como potencial “cidadão consciente”, não podia me desincumbir dessa tarefa de mudar o Brasil — mesmo que com a força da violência.

Tão logo decidi me manifestar, veio-me um vídeo de um “youtuber” qualquer que, de forma grotesca e atrativa ao desavisado, convocou todos os seus inscritos a participarem daquela Revolução. Ora! Me prontifiquei de imediato, comuniquei os meus pais e eis a primeira contenda: minha família não concordava com minha participação. É claro que eu, como bom advogado que seria, argumentei e expus todos os meus pontos. Briguei. Gritei. E fui despedindo-me com a face franzida de raiva. Típico do “imbecil juvenil”. O último aviso foi que aquilo, as manifestações, de nada valeriam.

Ao chegar nas principais avenidas da cidade e me deparar com o que de fato era uma manifestação — a minha primeira — eu, cristão de família, assustei-me com tamanha indiferença dos jovens com os problemas que realmente assolavam o Brasil e sua prontidão para lutar pelos mais fúteis motivos, como aborto e a legalização da maconha, enquanto acendiam o seu beque e hasteavam a bandeira do anarquismo. É claro que me assustei, é claro que me indignei. Mas como um bom gado obedeci a tessitura social na qual estava envolto, a juventude que se diz contra a corrente, mas que não percebe, na verdade, que pertence à corrente principal, ao poder onipresente e invisível do marxismo cultural tão sonhado por Antônio Gramsci, teórico comunista italiano.

É claro que naquele momento eu não sabia sobre Gramsci ou sobre marxismo cultural, ou sequer sobre quem estava por trás das manifestações: eu só queria exercer o meu papel social de ativista revolucionário, eu só queria ser o “cidadão consciente” do qual meus professores do Ensino Fundamental II tanto me falavam. Vã pretensão. Mas isso estava prestes a mudar.

Voltei para casa, naquele dia, ruminando em meu interior qual a importância daquilo que eu havia feito. Meu espírito, muito conservador e apegado aos princípios cristãos basilares aos quais devo minha criação, gritava contidamente em minha mente que não era aquele o caminho para minha sincera pretensão, enquanto malignamente ecoava, diretamente do meu ventre, os berros da minha alma que alçavam o meu ego fazendo-me crer que eu era o principal agente da história do meu país.

Lembra-te também do teu Criador nos dias da tua mocidade, antes que venham os maus dias, e cheguem os anos em que dirás: Não tenho prazer neles”, disse um velho sábio. Maldito o jovem que dá ouvidos à sua alma.

Retornando às memórias, lembro-me que cheguei em casa e, fugindo durante algum tempo de encarar os meus pais — não fisicamente, mas internamente: uma luta constante entre minha decisão e o aviso que me deram — fui estudar o que diziam os “especialistas” sobre as manifestações, as notícias, os jornais, as entrevistas, na ânsia de descobrir que aquilo realmente valeu a pena, que as coisas estavam mudando, que eu estava, por fim, certo.

Nessa toada, vi uma sugestão de vídeo no Youtube em que o cantor e músico Lobão falava sobre as manifestações de junho / julho daquele ano. Era um vídeo curto: tratava-se de um trecho de uma conversa entre ele, Lobão, e o Filósofo e professor Olavo de Carvalho, até então um desconhecido. É claro que eu procurei a entrevista completa, afinal, seria o xeque mate no duelo que se travava dentro de mim e, com o apoio de um músico renomado e “famoso” eu poderia convencer com muito mais propriedade os meus pais e conhecidos que a causa — esquerdista — pela qual eu achava que lutava era boa, voltada para um futuro melhor.

Para meu espanto, ambos eram contrários à manifestação. Ouvi de relance o professor falar que se tratava de algo orquestrado, pensado, maquinado dentro das universidades por professores esquerdistas associados a partidos políticos de extrema esquerda como PCdoB, PSOL, PSTU e PT, para dar descrédito ao Governo tucano em São Paulo ou até mesmo derrubá-lo, mas que em razão da insatisfação total da população com o Governo Federal levou o povo às ruas, os que não tinham bandeira ou partido, de forma que a orquestra saiu do controle do maestro e acabou por acordar o gigante.

Nesse momento, ao ouvir o falar tão original e próprio do professor Olavo de Carvalho, resolvi procurar seus textos e artigos. Li vários. Assisti palestras, entrevistas. Por fim, comprei o seu recém-lançado livro “O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota”. Nesse momento minha alma, aquela mesma que berrava para o meu ego, estava aos prantos, derrotada. Meu espírito conservador, pautado nos princípios elementares legados pelos meus pais — estes, por sua vez, pautados pelo exemplo do próprio Cristo — se reacendeu! Forte e impávido colosso para, como me disse depois o professor Olavo de Carvalho, buscar a minha inteligência.

O livro é uma reunião de artigos do professor Olavo, em vários periódicos, ao longo de mais de 10 anos, salvo engano, dividido em temas e subtemas, organizado e idealizado pelo seu aluno Felipe Moura Brasil, que hoje, graças ao sucesso do livro, é colunista no site de VEJA.

Releia minhas reminiscências anteriores, este trajeto exterior e interior que percorri, e o cume ao qual cheguei, o ego que me foi inflado pelos professores em toda minha carreira estudantil que diziam que “a juventude é o futuro do Brasil”, “as mudanças dependem de você”, “os jovens precisam se conscientizar”, “você precisa ser um ‘cidadão consciente’” e tantos outros chavões que insuflam o ego da juventude brasileira há anos e que destroem qualquer humildade necessária à busca da Verdade e do Conhecimento. Os mesmos professores que nos negam as leituras de William Shakespeare e Sófocles, mas nos introduzem, diretamente nas veias do pouco entendimento que temos, toda a doutrinação esquerdista maculada por Paulo Freire, o grande patrono da educação brasileira.

Após chegar nesse ápice do ego juvenil, quando prestes a completar 20 anos de vida nessa terra, eis que me deparo com o primeiro texto do livro de Olavo de Carvalho intitulado, pasmem, “O IMBECIL JUVENIL”. Sim, caro leitor, não foi um tapa na minha cara, foi uma voadeira, um golpe mortal no ego que ascendia e, como o Anjo de Luz, caiu por terra.

Todos os jovens deveriam ler este texto. É um santo remédio para o câncer que é a educação brasileira. Imagino os alunos saindo do ensino médio e lendo este texto e, de cara, partindo para a leitura de Sócrates e não para a faculdade. Que bem faria ao nosso país.

Não vou colocar todo o texto aqui pois acredito que você já percebeu a importância de busca-lo na internet, facilmente encontrável e, ainda assim, tão pouco notado pelo brasileiro. Mas faço questão de colacionar um trecho que me marcou, que me mudou, e todos que me conhecem de fato podem atestar essa mudança:

Todas as mutações se dão na penumbra, na zona indistinta entre o ser e o não-ser: o jovem, em trânsito entre o que já não é e o que não é ainda, é, por fatalidade, inconsciente de si, de sua situação, das autorias e das culpas de quanto se passa dentro e em torno dele. Seus julgamentos são quase sempre a inversão completa da realidade. Eis o motivo pelo qual a juventude, desde que a covardia dos adultos lhe deu autoridade para mandar e desmandar, esteve sempre na vanguarda de todos os erros e perversidade do século: nazismo, fascismo, comunismo, seitas pseudo-religiosas, consumo de drogas.
São sempre os jovens que estão um passo à frente na direção do pior.
 Um mundo que confia seu futuro ao discernimento dos jovens é um mundo velho e cansado, que já não tem futuro algum.

Imagine o rebuliço dentro de mim ao terminar a leitura do texto. Imagine a alegria exultante que me encheu ao saber que eu era um completo imbecil. Sim, alegria por saber que sou um imbecil. Todos devemos saber disso ou nunca avançaremos na busca da Verdade e do conhecimento genuíno. Não é o que nos disse o filósofo há muito tempo? “Só sei que nada sei”. É a consciência contrária ao que tanto se ensina nas escolas: privando o aluno da busca do conhecimento ao lhe dizer que já está pronto para ser um agente social, um agente revolucionário. Mao Tsé Tung e Stalin iriam amar os professores brasileiros e dariam tudo para ter a influência e o domínio que se exerce sobre as crianças nas escolas, como temos hoje.

A alegria que me preencheu foi tão grande que eu fui imediatamente até a sala onde meus pais se encontravam para fazer a leitura do texto: pedi licença, li todo ele, gaguejando pela emoção que transbordava. Eles não devem se lembrar disso, e não os culpo. Mas eu me lembro, tão marcante foi aquele momento.

Nos anos seguintes eu fui em busca dos outros livros do professor Olavo. Ainda não li todos. A razão? A cada leitura que eu fazia dos textos do professor ele me indicava outros vários autores, cada texto recheado de citações diretas e indiretas que impossibilitam o leitor de continuar sem fazer o link com a indicação. Por isso busquei esses outros autores, lendo livros sobre os mais diversos temas: política, cultura, religião, movimentos revolucionários, economia, liberalismo, conservadorismo, armas, liberdade, quase que seguindo as divisões que muito eficazmente o Felipe Moura Brasil fez em “O mínimo…”.

Hoje ainda minha humilde biblioteca possui livros que ainda não foram lidos. Um deles, o que estou lendo agora e que me levou a escrever estas memórias, trata justamente das manifestações de 2013, trata-se de “Por trás da máscara”, do Flavio Morgerstern, outro que me deu um tapa na cara ao esclarecer, didaticamente e com um humor certeiro, a natureza daquelas manifestações que vão ficar para sempre na história do país e, muito especialmente, na minha história. Ao menos uma coisa boa aconteceu naquele ano. Ao menos uma fogueira se acendeu e espero alimentá-la com a lenha dos grandes clássicos para mantê-la acesa por muito tempo.

Essas reminiscências precisavam ser registradas e a leitura do Flavio me incentivou a isso. São importantes. São, ao mesmo tempo, um pedido de desculpas e um convite aos que desconhecem o que hoje, mesmo que em reflexos, eu conheço.

Durante muito tempo, com amigos e família, fiquei com medo de falar muito de Olavo de Carvalho, com receio de que isso desse uma falsa impressão sobre “o mestre de todos nós”, como o qualificou o Jurista Ives Gandra Martins. E durante algum tempo isso pode ter acontecido, o que me levou ao silêncio irrestrito sobre o assunto. Mas esse breve relato tem o escopo de me livrar disso, de amarrar as pontas soltas, não para mim, mas para quem viu de fora toda essa transformação, permitindo-me abrir as portas para outros que desejam buscar a sua inteligência.

A Filosofia de Olavo de Carvalho atravessa os seus artigos e suas opiniões, funcionando como uma cebola que deve ser descascada leitura após leitura. A teoria dos quatro discursos, as doze camadas da personalidade, a soberania da personalidade individual, da inteligência, da busca pelo método e não pelo falatório superficial, isso sim pode ser o cerne de sua filosofia.

Esse relato não se trata somente de como conheci Olavo de Carvalho mas de como minha mente se abriu para a alta cultura, para a busca do conhecimento e da verdade sem as amarras da academia e da ideologia que tanto oprimem os alunos sinceros nas universidades e escolas brasileiras. Que a alta cultura possa ser resgatada em nosso país e que, quando resgatada, possamos nos lembrar dos que iniciaram o trabalho de reconstrução do Brasil, tijolo a tijolo, com persistência e suor. Um salve a todos os que ainda lutam, com amor, por um Brasil sonhado por seus fundadores. A eles eu dedico este texto. Aos meus pais e amigos, estes últimos os quais não preciso nomear pois sabem que falo deles. A Deus que continua por iluminar o meu caminho sem que eu tenha tempo sequer de agradecer.

Uma coisa digo: estou em busca da minha inteligência e sei que um dia hei encontra-la.