A construção subjetiva de Nós

Quando você escolheu ser quem é?
Em mundo onde é complicado dizer que somos dependentes dos outros, eu respondo com receio, que escolhi ser quem sou quando te conheci. Não precisei abandonar muito do que eu era. Só precisei escolher em mim coisas que precisava amadurecer, para combinar com você. As músicas que precisava ouvir, os livros que teria que ler e as roupas que deveria usar. Até matemática eu estudei.
No primeiro ano a gente se deu muito bem. Eu gostava do que tinha me tornado. Entender a sua sensibilidade me apresentou um mundo novo, macio e quente.
O complicado foi perceber que a vida muda, que nada fica estático naquele momento onde tudo permanece bem. A vida acontece, e você mudou. Eu era saudosista e insistia em ser aquele que eu fui no ano anterior. Mas, não bastava. Demorei um pouco mais que você para entender que eu precisava mudar também. Aceitei a distância, aceitei suas experiências novas. E aprendi a ficar feliz com isso.
Olhei para o meu horizonte, mas confesso que te vigiava de longe, e de repente entendi que não poderia me tornar você, gostando das mesmas coisas e pensando da mesma forma. Precisava ser o contraponto. Não um que te incomodasse, mas um contraponto que te fizesse admirar, que te fizesse pensar diferente e ir além. Para tudo isso acontecer, até eu me tornar um contraponto que te surpreendesse, demorou uns 7 anos. E foi tudo tão sutil…
Porém, todos esses anos em que a distância reinou entre a gente, você se tornou dura. Receosa e incrivelmente livre. E livre eu não poderia ser, porque imediatamente isso me libertava de você. Precisei fingir liberdade, para lhe dar liberdade. O resultado foi que endureci também e aprendi a discursar sobre o que é estar junto e ser livre. Foi nesse momento que você se prendeu a mim. Foi tudo tão bom e bonito como no primeiro ano. O engraçado, é que a vida prega mesmo peças e no ano seguinte, quem mudou fui eu.
Tantas eram nossas conversas sobre liberdade, que ela virou tatuagem em mim. Apego, carinho, sentimento, eram importantes, contanto que tudo isso não ferisse a nossa liberdade. Não a de conhecer pessoas novas, mas a liberdade de ser e de se planejar independente do outro.
A distância veio outra vez e ironicamente não soubemos lidar com os dias sem o outro. A liberdade era pauta maior quando as circunstâncias nos permitiam estar juntos, presos num cotidiano comum. Quando distantes e por assim dizer, livres, a relação perdeu o ritmo. A liberdade só nos fez efeito enquanto nos manteve presos um ao outro.
Mas hoje, anos depois, longe de você e vacilante entre liberdade e solidão, percebo que a minha subjetividade ainda é em parte você. Contudo, me despeço desse lado que é seu e com frio na barriga, olho para alguém que de longe acena dizendo: Vem, do jeito que é. Pois me permito também ser, o que você é, se você quiser de mim o que posso oferecer.
