O Escritor de Mil Faces.

Era um herói clássico. Tinha bom porte físico, armadura e habilidade em manejar diversas armas. Montava um cavalo de pelagem negra, forte e pronto para guerra.

No começo negaria a proposta de salvar o mundo, pois queria apenas continuar como carpinteiro na sua cidadezinha. Mas aí o autor destruiria o vilarejo, mataria sua mulher, sequestraria seu filho e inauguraria uma era de medo e escuridão. Nosso herói, claro, não poderia negar o chamado e nem a fúria que corria como um rio truculento nas suas veias. Partiria. E o escritor colocaria nos pés do herói toda a jornada descrita por Joseph Campbell.

Em seguida o autor tropeçaria em alguns vídeos no YouTube e descobriria que muito do que ele queria contar poderia ser um clichê segundo esses tantos autores experientes de vinte e três anos e dois livros publicados, que dizem também com certa frequência: você não é J.K Rowling, não é Tolkien e muito menos o cara do Game of Thrones, e nem poderia ser. Que teria que ser um gênio — que você não é — para ser publicado sem ao menos ter um canal de vídeos ou uma conta bem popular no Twitter. Iria entender que hoje em dia Editoras estão mais interessadas em saber quem são as pessoas que escrevem do que quais histórias elas querem contar.

O herói entretanto, com uma força e determinação comum aos guerreiros lendários, se esforçaria, cruzaria a primeira colina desafiante, derrotaria as primeiras feras de um mundo mágico e misterioso. Olharia para o horizonte e desejaria — com sangue nas mãos e na espada — arrancar a cabeça do algoz que selou seu destino.

O escritor por sua vez beberia café como nunca, se animaria com as flechas disparadas, com os diálogos, se irritaria com aquele personagem tão legal, mas que já não faz mais sentido na história. Tiraria o mar, colocaria desertos e montanhas geladas sobre cavernas com tumbas milenares. Porém, se preocupava que no fim ninguém leria sua história. O trabalho na empresa apertaria, a família pediria atenção, o cachorro teria que passear, os finais de semana se tornariam cansativos e a rotina drenaria toda sua energia.

O herói então, quase se apaixonou por uma mulher forte e aventureira, quase teve seus feitos e de seus companheiros cantados em histórias de bardos por tavernas em todo o mundo, quase derrotou um gigante e quase reencontrou seu filho.

O que faltou ao herói? Um escritor corajoso.