REFORMA AGRÁRIA

A LUTA CONTINUA

70 anos após a criação das ligas camponesas, o sonho da reforma agrária ainda não é realidade.

Anacleto Julião, filho de um dos grandes articuladores e provedores das ligas camponesas enquanto movimento organizado, fala um pouco da realidade da luta pela reforma agrária no ano do centenário de seu pai : Francisco Julião.

· Mesmo muito jovem e, por vezes, distante das articulações geridas por seu pai à frente das ligas camponesas, você acompanhou o surgimento e o crescimento do movimento em busca do direito a terra. Qual era a sua percepção da ideologia e da luta travada pelo movimento?

Na verdade meu pai dedicava muito tempo a luta pela reforma agrária e minha mãe, Alexina, além de participar das Ligas, do Mov. Revolucionário Tira Dentes e de movimentos feministas; ensinava-nos a como nos proteger de donos de terra e seus capangas. Assim ao mesmo tempo formava nossa ideologia e caráter. Disse ‘”caso chegue alguém que não conheça diga que seu pai não está e me chame e principalmente se é um homem vestido de palito branco e está acompanhado” (era como costumava vestir o dono de terra). Cedíamos nossas camas a camponeses ou companheiros que pernoitavam lá em casa. Minhas irmãs eram “secretárias do meu pai anotando as demandas de centenas de camponeses que queriam falar com o deputado Julião”. Vivíamos o dia a dia vendo as aqueles seres humanos sendo tratados como animais e pedindo socorro a nossa família. Fomos varias vezes à Galileia, berço das Ligas, ver discursos de Julião e outros líderes. Recebíamos na nossa casa (alugada ao Senhor Brasileiro) os líderes daquela época: Prestes, Brizola, Josué de Castro, Cid Sampaio, e muitos outros… Minhas irmãs atuavam no movimento estudantil e nos levava a manifestações contra o aumento de passagens estudantil de ônibus e sentados ao lado delas e dos estudantes, na Avenida Conde da Boa Vista parávamos o trânsito e elas nos explicavam o porquê de estarmos ali. Nossa casa era vigiada por policias vestidos à paisana e nós passávamos por eles com um sorriso disfarçado para que eles soubessem que nós sabíamos que eram policias. Sofremos um ou outro atentado em casa quando tivemos um tiroteio entre capangas que feriram um amigo acreditando eles que era Julião e nossa avó que cuidava da casa. O nosso amigo ficou ferido com uma facada e nossa avó feriu de bala um dos bandidos. Como não estar consciente da luta por reforma agrária, ainda que criança?

· Hoje, o MST consegue representar bem o movimento originário da luta pela reforma agrária?

Sim. Não só o MST, mas também a CPT, Movimento dos Pequenos Agricultores, Liga dos Camponeses Pobres, Sindicatos, milhares de cooperativas, associações, Levante Popular da Juventude e muitos outros que representam a continuidade da luta pela reforma agrária, tão necessária ao Brasil. Esses movimentos surgiram a partir das Ligas (durante e depois do surgimento delas). Porém, como sua pergunta é específica sobre o MST devo relatar que o coordenador nacional do MST João Pedro Stédille tem afirmado e relatado em várias ocasiões que durante sua juventude teve a oportunidade de estudar no México, onde Julião estava exilado. Stedille procurou Julião e perguntou a ele o que havia dado certo e errado com as Ligas Camponesas e Julião falou por horas sobre esse tema (tudo publicado no livro escrito por Julião “Cambão a face oculta do Brasil”). Quando voltou ao Brasil lá pelos anos 1976, foi organizar o que em 1983 se concretizou como o Primeiro Congresso de Fundação do MST. Eles têm metodologias iguais ás das Ligas, mesmos objetivos e princípios. Porem com a atualização dos dias de hoje. Julião andava de carro e de cavalo para encontrar os companheiros e escrevia cartas arrasadoras contra os latifundiários, a igreja reacionária da época e acreditava numa revolução armada. Vivemos outra etapa da nossa História com a globalização etc., porém é necessário avançarmos mais e a defesa da Democracia, ainda que fajuta, se faz necessária.

· Você atua como presidente de honra na instituição Mirim Brasil, que trabalha pela garantia e reconhecimento dos direitos de crianças e jovens. Tem percebido alguma aceitação ou recusa por parte dessa futura geração quando o assunto é a reforma agrária?

Atualmente faço parte da ONG Mirim Brasil que junto a outros companheiros fundamos há 25 anos, também fui presidente da Executiva Nacional do PDT como Presidente Nacional da Juventude Socialista como um dos seus fundadores, atuei como Presidente da OSCIP IATEC que neste ano encerrou os seus trabalhos, faço parte da APAPE (Associação Pernambucana de ex-presos e exilados políticos), faço parte da Executiva do CMVJPE (Movimento da Memória Verdade e Justiça de Pernambuco). Claro que com quem convivo a aceitação e compreensão da necessidade de uma reforma agrária no Brasil é unanime! Porém existem forças reacionárias que acreditam no agronegócio que exporta bilhões e que tem uma bancada forte no Congresso Nacional. O agronegócio una muito veneno para produzir, nós não queremos envenenar as gerações futuras. Eles querem dinheiro, nós queremos alimentos saudáveis para todos. Eles não acreditam na produção de pequenos produtores e nós acreditamos que “se o campo não planta, a cidade não janta”! É como sempre, uma contradição de classes sociais e de interesses que se chocam. As novas gerações estão entendendo muito melhor do que a nossa que não basta comer, mas sim comer de forma saudável. Temos os movimentos ecológicos que devem contribuir muito para o futuro da Humanidade. Quem sabe os ricos poderão num futuro viver em outro planeta, mas os pobres perecerão na Terra devastada por esses ricos. Quem quer isso para os nossos bis, tataranetos, gerações futuras? Esse tema também deve estar presente no assunto Reforma Agrária a que significa dizer que qualquer ser humano deveria ser a favor do cuidado com o nosso planeta terra.

· O Brasil sempre teve “amarras” muito fortes com o setor do agronegócio e com os demais setores que exploram a terra e garantem a procriação Latifundiária. Qual a sua avaliação do governo Dilma e da atuação do poder legislativo na demarcação e na garantia de terra para a população?

Somos críticos ao governo por sua lentidão no processo de reforma agrária e legalização de terras para aqueles que produzem: quilombolas, índios e outros grupos sociais que podem preservar o meio ambiente. Porém, é necessário manter a democracia para poder avançar nessas conquistas obtidas até agora, sem recuar das nossas exigências. Militei, atuei politicamente com Dilma durante alguns anos e sei da sua integridade e luta em favor do povo brasileiro, igual ao Julião, Brizola, Darcy e tantos outros. O poder legislativo é composto, na sua grande maioria, por compradores de votos e reacionários que, burros, cegos, não pensam no futuro e só no desfrute do presente.

· A PL 215/00 e a PL 1610/96 estão em tramitação na Câmara Federal e, respectivamente, atribuem aos parlamentares a responsabilidade de demarcar as terras indígenas e permite a exploração mineral das mesmas. Qual o tipo de perigo ou retrocesso que elas representam?

A fé dessa gente é comprar Deus para entrar no céu! Não existe garantia nenhuma de terra para a população! Nós temos é que conquistar a terra e é isso que os movimentos sociais estamos fazendo. Daí os conflitos que existem. As terras indígenas são dos índios e por tanto não cabe a Câmara demarcar, fazer ou não fazer nada. A Câmara Federal não representa a vontade do nosso povo, e ,sim, seus interesses eleitoreiros e pessoais. Cabe ao Legislativo controlar a exploração dessas riquezas que são dos índios e do território brasileiro; e muito cuidado com ONG’s estrangeiras que ajudando índios roubam essas maravilhas do ecossistema.

· Segundo dados do conselho indigenista missionário (CIMI), os casos de violência contra indígenas na luta pela demarcação de terras aumentaram 131 % se comparados aos números do ano de 2013. Para você, a que se deve esse aumento?

Deve-se à possibilidade que temos hoje de lutar pelo que acreditamos e quereremos. Nada conquistaremos por via pacífica. Temos que lutar. O povo fará as mudanças ou nada será mudado. Temos, pelo menos, a garantia de um governo que investiga e quer que a população interaja e apoie as medidas tomadas contra a repressão à nossa luta. É o que determina a constituição de 1988, onde está escrito que o Brasil é uma república democrática representativa e participativa.

· O país revela certa simpatia com setores mais conservadores e passa por um momento de intensos debates e conflitos ideológicos. Há quem diga que o Movimento dos Sem Terra tem perdido o prestígio diante da sociedade e que se equívoca no campo ideológico. Isso realmente tem acontecido?

Quem disse que “o país revela certa simpatia…”? A rede Globo? Não acredito nisso. A Classe média que sempre quer mais e mais e se equilibra na corda bamba entre ricos e pobres. Está, uma vez mais, nesse jogo; O povão está quieto e sabe o que faz. No campo ideológico estamos no lugar que sempre estivemos, os sem terras e os movimentos sociais do qual fazemos parte. Não estamos preocupados com prestigio e sim justiça que como disse Julião “justiça é terra, é pão, é escola,…” “Reforma agrária é paz no campo”.

· Falta organização e união para que os movimentos de esquerda, entre eles o MST, garantam a conservação e a disseminação de seus ideais?

Sim! Estive em vários eventos como os da Galileia pelo centenário de Julião e 60 anos de fundação das Ligas Camponesas, dos 90 anos de Elizabhet Teixeira na Paraíba, no Primeiro Congresso dos Pequenos Agricultores com Lula e Dilma, e em todos eles chamei à unidade de grandes e pequenos movimentos sociais para que possamos fortalecer a governabilidade e fortalecimento das instituições democráticas no nosso País. Temos várias etapas a serem superadas até termos uma sociedade igualitária e de liberdade plena para todos e todas, e a primeira etapa é a democracia para passarmos à socialdemocracia, ao socialismo democrático e depois à nossa utopia do socialismo que nada tem a ver com utopia e sim com a verdadeira sociedade do bem estar social. Não luto por mim hoje e sim pelo povo futuro que nem vai saber quem fomos nós, mas que vão ser mais felizes que nós fomos.

· Qual a saída para enfrentar essa onda de intolerância e conservadorismo que parte da população brasileira vem apresentando?

Debate com respeito, ideias cristãs, nada a ver com bancada evangélica de lavagem cerebral, mobilização popular, apoiar as reivindicações dos grupos chamados de minoritários que não são minoritários; reuniões, congressos, debates, esclarecimentos, responder a perguntas como as suas para mim, tudo dentro da democracia. Porém, caso for necessário, vamos às ruas demonstrar, gritar, exigir; e caso não formos ouvidos, vamos além. Ninguém é burro de carga pra continuar andando sem dar coice. Respondam às provocações nas redes sociais, sem baixarias. Acredito na juventude brasileira e temos que conversar com ela. Vamos formar quadros políticos jovens, lideranças jovens, que substituam essa velharia de mentalidade retrógada, que não conseguem aceitar o mundo de hoje. Não temos nada a perder porque não temos nada, só nossa dignidade e isso não perderão porque ninguém pode nos tirar. É só lutar e a conservaremos para orgulho dos jovens do futuro.

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