Samba na casa da família ‘Pé de Varsa’

A casa do presidente se faz de palco pra o ensaio da bateria. Fotos: Heitor Facini

Com união de profissionalismo e irreverência, Bloco Pé de Varsa é o atual campeão do carnaval de Bauru. Esse ano faz resgate histórico das marchinhas


* Publicado originalmente no Portal Participi, em 10/02/2015

O bairro da Vila Falcão em Bauru é considerado por alguns como o “berço do samba” na cidade, pois possui três agremiações — uma escola e dois blocos carnavalescos. Um desses blocos é o tradicional “Pé de Varsa”, grupo que faz questão de manter uma relação quase que familiar entre seus componentes.

Chegando na rua Albuquerque Lins, quase não se nota a grande movimentação que acontece nos dias de ensaio do bloco. À medida que aproxima-se do local de ensaio, o som característico da bateria se faz presente, e quem passa por ali nessa hora pensa: “é aqui mesmo!”.

A bateria do Pé de Varsa ensaia na casa de seu atual presidente e fundador do bloco, Expedito Pires dos Santos, o que reforça a ideia de que tudo ali é algo familiar e pessoal. A casa de Expedito — um sobrado com direito a piscina, fica completamente tomada, dando a impressão de que é apertada, apesar de seu espaço generoso.

O presidente deposto e o presidente carnavalesco

‘É tudo família’, diz o presidente

“Carnaval vai chegando e aqui vai ficando apertado, o nervoso vai chegando, é meio difícil, mas aqui é tudo família”, relata o presidente do bloco. Desde a fundação do bloco, em 1993, Expedito passou a liderança para outras pessoas, reassumindo a presidência quatro anos atrás.

Grande fã dos saudosos carnavais de clube, Expedito é nascido e criado em Bauru. Por morar na Vila Falcão, ajudava o pessoal da Mocidade Independente, a Escola de Samba do bairro. Aos poucos foi pegando gosto pela coisa do desfile no sambódromo.

Corria o ano de 1993. Um tempo antes, Expedito tinha sido mandado embora de seu antigo emprego, funcionário público federal de carreira na ferrovia. “Fui mandado embora por causa do Collor”, lamenta Expedito. Sem emprego e sem perspectiva, resolveu abrir um bar, e batizou-o de “Pé de Varsa”.

Bateria que comporta gerações de sambistas

Com o tempo e as amizades que surgiram, montaram um bloco de carnaval. O bloco, como não poderia ser diferente, é o Pé de Varsa. Por uma daquelas ironias da vida, o bloco que é o atual campeão do carnaval de Bauru não existiria se não fosse pelo presidente Collor e pelas demissões causadas na época. Presidente deposto e presidente carnavalesco estabeleceram uma relação ao acaso.

“É verdade, apesar de todo o transtorno, tenho que agradecer a ele por isso”, reconhece o presidente carnavalesco, com uma larga risada em seguida.

A “profissionalização da irreverência”

O “Pé de Varsa” é um bloco tradicional, mas nem por isso menos irreverente. “A irreverência é a marca desse bloco, e não pode ser esquecida”, analisa o carnavalesco Jorge Santtanna, responsável pelo desfile do Pé de Varsa.

Abram alas que o Pé de Varsa vai passar
“Este ano temos um enredo que é absolutamente incomum para as características do bloco, e ao longo do tempo temos transformado a característica do bloco de uma coisa irreverente para uma mais clássica, sem perder a irreverência, o que é importante”, diz Santtanna.

Com um enredo chamado “Oh abram alas que eu quero passar, sou Pé de Varsa não posso negar!!”, o bloco faz uma homenagem às marchinhas e aos antigos carnavais.

Mas não só isso. O samba enredo é uma referência direta à primeira marchinha de carnaval da nossa história. Chiquinha Gonzaga, compositora erudita, fez em 1889 a canção “Oh abram alas”, uma composição simples e popular, que se tornou a primeira marchinha.

Essa é a temática do desfile de 2015 do bloco, uma homenagem aos antigos carnavais, tendo em vista os mais jovens, que pouco ou nada puderam aproveitar dos carnavais de rua, de clube e das próprias marchinhas.

De outros carnavais

Jorge Santtanna sabe de sua posição no carnaval, por isso se orgulha da história da festa. “Estou há 35 anos no carnaval”, afirma. “Como carnavalesco esse é o meu vigésimo sexto desfile”.

O ‘maestro’ dos bastidores do carnaval, Jorge Santanna

Começou cedo no carnaval. Aos 17 anos participava da Mocidade Independente da Vila Falcão, onde ficou por 5 anos. Passou pela Coroa Imperial, Azulão do Morro, Águia de Ouro e há 3 anos é exclusividade do pé de Varsa.

No Pé de Varsa ele é responsável por figurino e enredo, e nos dias de ensaio é possível encontrá-lo numa espécie de barracão nos fundos da casa do presidente do bloco, ao lado da bateria que ensaia seus tambores com toda vontade.

Nesse espaço está ele e sua equipe, de não mais que dez pessoas. “De agremiação em agremiação essa equipe me acompanha, porque conhecem minha técnica e meu estilo de trabalho”. Jorge trabalhou três anos no carnaval de São Paulo, e se encantou com o profissionalismo encontrado por lá. Por isso, tenta emplacar a mesma mentalidade no carnaval de Bauru.

Essa tentativa passa pela sua formação. Jorge é formado em publicidade e tem bacharel em direito. “Eu utilizo da publicidade dentro do carnaval, isso aqui exige criatividade, o enredo nada mais é do que uma campanha publicitária e talvez o direito tenha me contribuído com a lógica do desfile, o pensamento rápido”.

Sobre o carnaval bauruense, tem um lamento, pois é ciente da grandiosidade dessa festa no centro oeste paulista: “Aqui em Bauru o carnaval deveria ser algo muito maior. O nosso sambódromo é o segundo do país, atrás apenas da Marquês de Sapucaí, no rio de Janeiro”, diz ele, orgulhoso das origens.

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