E o beijo vai para quem?

Eu estava escrevendo agradecimentos em um projeto que estou concluindo. E do nada lembrei de algo que eu não lembrava há muito tempo. Em outro contexto a lembrança seria irrelevante, mas para o propósito destas linhas é perfeita.

Você lembra do Show da Xuxa? As crianças que participavam das brincadeiras respondiam a mesma pergunta do mesmo jeito: Xuxa perguntava para quem iria o beijo, e as crianças respondiam: “Pro meu pai, pra minha mãe e pra você!”

Provavelmente alguma criança inventou essa resposta, lá no início do programa, e desde então ela foi sendo repetida. Como consequência, esperávamos, em frente à TV, alguém ser criativo e falar alguma coisa diferente. Quando ocorria alguma alteração significativa no discurso, chamava a atenção do telespectador, e a Xuxa fazia algum comentário a respeito das respostas diferentes. A eventual criatividade das respostas acabou se tornando parte da atração.

Fenômeno semelhante ocorre hoje, entre os adultos que, nos anos 80, sentavam em frente ao televisor arcaico. Repetimos o que alguém, algum dia, inventou. Não sei se é por preguiça, falta de criatividade, ou se fomos condicionados a agir assim.

Basta analisar o resultado do que criamos: os produtos são todos parecidos. Os serviços se assemelham na variabilidade absurda: não posso dizer que são parecidos, pois não existe um padrão da prestação. Depende do humor do profissional, ou do problema que o cliente trouxer. Ao consumidor, resta comparar preços, e ouvir o que outros clientes comentam: pois ouvir quem vende é ouvir o mesmo discurso repetitivo. “Aqui tem qualidade, preço baixo, bom atendimento, condições facilitadas, o cliente em primeiro lugar, satisfação garantida, atender todas as necessidades.” O blablablá de sempre, que passa despercebido, pois não significa nada.

Num contexto de amadorismo e de promessas não cumpridas, esperamos alguém que fale um pouquinho diferente. Alguém sincero que não repita clichês. Acho que este é o ponto mais surpreendente: ser diferente e falar diferente, hoje em dia, é ser humano, honesto, sincero. Esse discurso inventado não é a nossa essência. Ou será que é? Se sim, estamos perdidos.

Mas eu tenho esperança: será que não vai ser você que vai falar o que pensa, o que sente? É o que precisamos ouvir.

)

    Written by

    www.lucasmiguel.com

    Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
    Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
    Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade