Por que ler Thomas Mann
Neste texto apresento algumas impressões e associações que me ocorreram ao ler A morte em Veneza, de Thomas Mann, cuja leitura recomendo.

Consegui ler Thomas Mann!
Há mais ou menos um ano, comecei a ler A morte em Veneza, de Thomas Mann, e não consegui chegar ao terceiro capítulo, pois as palavras me exigiam uma atenção diferente daquela que me exigiam os livros que eu estava habituado a ler (e, não, estes não eram literatura contemporânea para consumo rápido e rápido esquecimento). Eu não me sentia capaz de compreender tudo o que estava escrito naquela novela. Mas se o clássico é, como diz Italo Calvino (Por que ler os clássicos), o livro que sempre relemos porque sempre parece haver um sentido que apenas as releituras podem revelar, devemos fazer as pazes com nossas limitações de compreensão e esperar que compreendamos melhor este ou aquele livro nas próximas leituras.
Ocorre que A morte em Veneza, de Thomas Mann, assim como, por exemplo, Os Inocentes, de Hermann Broch, está repleta de passagens reflexivas, em que o narrador não se limita a narrar as ações e pensamentos dos personagens, mas também filosofa sobre a arte, o tempo, algum aspecto da realidade. Estas passagens não são o que a curiosidade do leitor médio espera, e por isso mesmo estes livros nos formam como bons leitores, como leitores maduros, como diria Umberto Eco (Seis passeios pelos bosques da ficção), que realizam o pacto ficcional e obedecem as regras impostas pelo texto. E estes textos querem mais que um leitor curioso: querem um leitor que reflita sobre aqueles problemas propostos pelo narrador sábio.
Depois de saber que o crítico literário Rodrigo Gurgel gosta muito do Thomas Mann, e de me lembrar das palavras do Affonso Romano de Sant’Anna sobre a oficina de trabalho que um texto muitas vezes apresenta onde o leitor esperava encontrar um parque de diversões (Ler o Mundo), decidi que leria A morte em Veneza até o fim. Pois li e não mais vi a chatice que vira outrora. Onde vira divagações chatas eu via agora ensinamentos, via passagens que naquele momento pareceram ter sido escritas para mim. Encontrei, de certa forma, palavras de consolo e incentivo, pois recentemente abandonei as redes sociais e decidi viver uma vida menos faustosa:
“Unicamente os eternos boêmios se aborrecerão e gostarão de zombar cada vez que um grande talento, abandonando o libertino estado de crisálide, se habituar a conservar imponentemente a dignidade do intelecto e a assumir a etiqueta de um isolamento incialmente desamparado, cheio de duros sofrimentos e solitários combates, e que todavia o conduziu ao poder e a uma posição de destaque entre os homens” (Mann, 1970, p. 67–68).
Estas palavras do narrador de A morte em Veneza soam quase como uma promessa e um aviso: não haverá sucesso sem que se vençam os combates solitários, mas vença-os e alcançará o sucesso. Mas quem são estes eternos boêmios? Na minha realidade eles são uma espécie de máfia, constituída por professores universitários e colegas, constantemente empenhados em constranger aqueles que se recusam a abraçar suas causas e a se deixarem absorver, em detrimento da personalidade, por uma massa amorfa e autoritária. São estes que, na realidade do estudante brasileiro, zombarão quando ele escolher não fazer parte do grupo dos boêmios eternos, mas conservar sua dignidade, sua personalidade.
A obra sublime
A Morte em Veneza é a história de um escritor de sucesso, Gustav von Aschenbach, que viaja para Veneza, para passar férias, e lá passa a observar obsessivamente o jovem polonês Tadzio, que é lindo. Passa mesmo a perseguir, a certa distância, os passos a família polaca. O jovenzinho lindo percebe que tem um admirador maníaco, mas, além de não o delatar à família, passa a contar com a sua presença sorrateira. No final, no dia da volta da família de Tadzio à Polônia, depois de o contemplar pela última vez, o escritor morre — ele tinha comido uns morangos passados e a cidade estava infestada com cólera.
O protagonista é um artista — não um pequeno artista de qualidade duvidosa, mas um grande artista, reconhecido pelo mundo e pelo narrador — e o drama é esse artista sendo completamente subjugado pela beleza: ele não saberia como viver depois que Tadzio fosse embora. Então a narrativa está repleta de reflexões, ora do herói, ora do narrador, sobre a arte e a beleza.
“Pois a beleza, meu caro Fedro, só ela é ao mesmo tempo adorável e visível. Porque, repara, é a única forma do espiritual que podemos conceber e suportar com os nossos sentidos. Que seria de nós se a esfera divina, a razão, a virtude, a verdade se manifestassem a nós através dos sentidos? Não pereceríamos, não nos consumiríamos de amor, como se deu com Semele diante de Zeus? Assim, a beleza é o caminho que conduz o homem sensível até o espírito” (Mann, 1970, p. 109).
Aschenbach, contudo, se consumiu de amor diante da beleza. Sobre a obra de arte, há passagens muito felizes que nos mostram a sensibilidade e a habilidade de Thomas Mann.
“A felicidade do escritor reside no pensamento que se possa converter, inteiramente, em sentimento e no sentir capaz de se tornar, inteiramente, pensar” (Mann, 1970, p. 109).
Em certa passagem Mann parece brincar, mas seriamente, com o leitor:
“Era bom, sem dúvida alguma, que o mundo conhecesse apenas ao obra sublime e não suas origens, nem as circunstâncias de sua criação, uma vez que a noção das fontes nas quais se inspirava o artista muitas vezes nos deixaria confusos ou apavorados e assim anularia o efeito de obras magníficas. Que horas esquisitas! Que labuta singularmente exaustiva! Essa cópula estranhamente produtiva do espírito com um corpo! Ao guardar o resultado de seu esforço, antes de abandonar a praia, Aschenbach sentia-se esgotado e como que moído. Então tinha a impressão de ser exprobado pela sua consciência, como depois de uma orgia” (Mann, 1970, p. 110).
É que em A Morte em Veneza temos um grande escritor, mas não se nos revela sequer uma linha de um livro seu, não temos uma palavra da sua “obra sublime”. Temos, contudo, muitas “horas esquisitas”, vemos o criador diante da sua estranha fonte. E a história certamente tem o poder de nos causar essa confusão da qual fala o narrador. Se o narrador fosse outro mas os fatos os mesmos, se, por exemplo, tivéssemos um narrador jornalístico que apenas nos descreve os movimentos dos personagens pelos espaços, então facilmente pensaríamos que Aschenbach é um louco. E na verdade ele ultrapassa mesmo os limites da decência quando começa a perseguir a família polonesa. E o trabalho do leitor é decifrar o que esta história, estes fatos extremados, querem dizer. Há sempre níveis de leitura, e a camada superior do texto, os meros acontecimentos narrados, esconde sentidos que uma leitura desatenta ou curiosa pode deixar passar.
A feiura
Antes de Aschenbach chegar a Veneza, ele testemunha uma feiura e uma indignidade monstruosas mas banais (talvez nós possamos buscar em nossa memória casos semelhantes):
“Um dos passageiros, que trajava uma fatiota de verão amarelo-clara, de corte ultramoderno, gravata vermelha e chapéu de palha, com a aba arrojadamente virara para cima, salientava-se entre os outros, gritando alegremente com a voz esganiçada. Mas apenas Aschenbach o olhara melhor, percebeu com uma espécie de horror que o jovem era falsificado. Tratava-se de um velho, sem dúvida alguma! Rugas lhe circundavam os olhos e a boca. O suave carmesim das faces era arrebique; a cabeleira castanha, sob o panamá de fita multicolor, uma peruca; o pescoço, flácido, macilento. O bigodinho como que colado e a mosca no queixo estavam pintados. A dentadura amarelada, completa, que ele exiba quando dava risadas, não passava de uma prótese barata, e as mãos, com anéis-sinete em ambos os indicadores, traíam o ancião. Arrepiado de espanto, Aschenbach analisava a ele e seus amigos. Não sabiam, não notavam os rapazes que o companheiro era velho, que usava impropriamente as mesmas roupas ajanotadas, de cores berrantes, que eles mesmos usavam, e que não tinha o direito de passar por um de seu grupo?” (Mann, 1970, p. 73–4).
Pouco antes do desembarque, o velho peralta, bêbado, insiste em despedir-se jocosamente de Aschenbach:
“ — Desejamos-lhe uma estada feliz — falava ele, fazendo mesuras grotescas. — Recomendamo-nos à sua condescendente lembrança. Au revoir, excusez e bon jour, Excelência!
“Babava-se, pestanejava, lambia as comissuras da boca, enquanto no queixo de ancião se eriçava a mosca pintada.
“ — Nossos cumprimentos! — balbuciou, metendo entre os lábios as pontas de dois dedo. — Nossos cumprimentos à sua queridinha, à sua encantadora, formosíssima queridinha…
“E subitamente lhe caiu a prótese superior sobre o lábio inferior. Foi quando Aschenbach conseguiu escapulir.
“ — À queridinha, à bela queridinha… — ouvia ainda àquela voz cava, tartamuda, que nas suas costas continuava a arrulhar” (Mann, 1970, p. 78).
Devemos ler Thomas Mann!
Grandes escritores às vezes têm o poder transformar obviedades em descobertas comoventes. Chesterton tem um livro que é basicamente isto: Tremendas trivialidades. Assim também é Thomas Mann. Imediatamente após terminar a leitura de A morte em Veneza, comecei a ler A Montanha Mágica, cuja prosa é mais narrativa e as reflexões ficam mais dissolvidas no texto, que tem quase mil páginas. Talvez não seja, contudo, possível rastrear objetivamente os elementos que façam com que Thomas Mann seja um clássico da literatura do século XX. E ele mesmo nos explica, numa obviedade maravilhosa e necessária:
“Os homens ignoram a razão por que cingem de glória determinada obra de arte. Longe de serem peritos, creem descobrir nela um sem-número de qualidades suscetíveis de justificarem tamanhos elogios. Mas o verdadeiro motivo de seus aplausos é algo incomensurável, é a simpatia” (Mann, 1970, p. 64).
Edição utilizada:
MANN, Thomas. A morte em Veneza. Tristão. Gladius Dei. Rio de Janeiro: Editora Opera Mundi, 1970.
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