cheiro de adeus

Não sei como ocorre com você, mas eu sinto o cheiro de finais quando estão prestes a chegar. Parece que tudo muda de cheiro quando desastres estão proximos. O perfume começa a ter cheiro de saudades, o suor que seca na cama tem um odor de despedida e até o abraço muda de cheiro. O abraço tem cheiro de solidão na hora do adeus.
Toda vez que sinto cheiro de despedidas, eu tento ficar gripado. É minha forma de fugir de algo inevitavel, de tentar enganar minha mente em relação a algo doloroso. Toda vez que esse terrivel cheiro aparece, eu procuro a camisa mais antiga, mais cheia de morfo para atiçar minha rinite. O espirro me salva de tomar badogadas da saudade antes do tempo.
Você sabe mas não sabe que a saudade é menina sapeca. Ela fica brincando de atirar pedrinhas no coração e é dela que vem o cheiro de despedidas. Parece que aquilo é perfume que essa menina se encharca. É certo, você sente o cheiro de adeus e ai ja vem a saudade, depois de algum tempo, brincar de tiro ao alvo com seu negocio de pulsar sangue. Por isso, a corrida para entupir o nariz. Eu não gosto de imaginar tamanho, tipo e forma da pedra que ela vai badogar em mim. Prefiro só sentir a pedrada na hora que a saudade bater na porta. Tem gente que prefere se preparar, eu prefiro me abster o maximo possivel.
Mas as vezes é dificil. Um dia mesmo, uma moça que dormia aqui 24 horas por dia, 7 vezes na semana, deu a entender que ia embora. A saudade começou a lançar o seu perfume na casa e eu não consegui ficar entupido. As coisas aconteceram muito rápido, em um momento, ela estava lá, no outro teve que ir. A casa tava limpa de poeira e por isso o cheiro ficou mais forte. A minha cama exalava adeus, meu travesseiro fedia a despedida e a casa estava completamente submersa num odor de nostalgia. A moça foi embora, trouxe o cheiro da saudade e eu não tive outra saida se não imaginar todas as vezes que recebi badogadas. Eu sofria com antecedência, sentia as pedradas que estavam por vir e tinha medo. Medo porque não sabia se sobreviver eu iria.
A saudade por fim veio e trouxe o seu badogue na mão. Ela mirou, mas eu já imaginava o que estava por vir. Eu não estava surpreso por vê-la ali. Ela deu um tiro certeiro, a pedra perfurou o coração e doeu mais que eu esperava. Eu não entendi. Achei que ao exalar o perfume já estava preparado para aquilo. Pensei que depois de tantas badogadas, eu estava finalmente com um coração duro, mais duro do que aquela pedra. Eu não poderia estar mais errado. Fui jogado para trás, a dor só fazia aumentar e eu me encontrei em posição fetal para tentar segurar tudo aquilo que vinha com força. Meus olhos mergulharam num mar salgo pela dor e eu tentava compreender o que me acontecia. O fato é que a gente nunca está preparado para as badogadas da saudade. Ou pelo menos, parece assim.

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