envelhecer é ter a ternura de um dia branco.

Parado em minha cadeira de balanço, observo o movimento ágil e desengonçado das crianças. Hoje, como nunca, noto as minhas rugas tão novas e tão antigas. Sentado na cadeira de balanço, me comparo àquelas crianças que um dia eu fora, por elas eu tenho os olhos da nostalgia. Observo como se eu fosse elas no futuro. Formo as minhas lembranças suas daquele momento de peraltagem e me conforto com isso. A velhice me ensinou que com o tempo a gente só leva a saudade nas costas e isso é bastante peso para nos deixar meio corcundas. Eu começo a imaginar aquelas crianças ficando corcundas de tanto carregar a saudade nos ombros e dou uma risada frívola. Talvez a idade esteja me dando um beliscão na bunda nesse momento. Oh, velhice sua safada…
Já é final de tarde e as crianças começam a se retirar da rua. Os cachorros começam a latir, algumas muriçocas vêm ao meu pé para me dar um calombo e uma coceira. Isso é sinal de que são seis horas. Alguém me chama lá de dentro da casa e eu vou buscar a minha sopa. É sopa de abóbora, isso vai esquentar minha noite já que ultimamente eu tenho sentido mais frio. Tomo minha sopa colher por colher, sem pressa, saboreio cada colherada como se fosse a ultima refeição. Nessa minha idade, ela pode até ser. Meus netos me olham como se eu fosse ou estivesse em outro mundo. Minha filha me olha com o pesar que os filhos têm ao verem seus pais se esvaírem. Eu me sinto meio como a agua que é esquentada da panela e se evapora de pouco em pouco, mas ficando cada vez mais rápido.
Termino minha sopa e pego uma xícara qualquer. Meus netos estão vendo televisão, minha filha está orando para que eu sobreviva mais um dia e um calafrio corre pelo o meu corpo. Sinto que é hoje. Preencho minha xícara com o café que irá preencher o meu peito durante essa noite fria e sigo para a varanda. Sento novamente na minha cadeira de balanço, me envolvo num cobertor pequeno, seguro meu café e volto a observar a rua. Olho para ela como se estivesse dando adeus. Um adeus depois de tantos anos de vigília. Minha filha chega, me dá um beijo na testa e diz boa noite. Digo-lhe que a amo e ela me dá um abraço reconfortante. Olho para aquela mulher que veio do meu esperma e ainda conserva o seu olhar de menina. Ainda consigo ver ela como uma bebé dizendo “papai”. É hoje.
Estou sozinho na varanda e meu café está no fim. Tiro do meu bolso um pedaço de papel que carrego comigo há bastante tempo. Eu o retirei de um livro numa certa vez para que eu pudesse o olhar todos os dias do resto da minha velhice. Os dias são longos para alguém tão calejado e sempre há tempo para olhar para um pedaço de papel. No fim dos meus tempos, olho para esse papel que não tem nada escrito ou desenhado: é branco como o fim. Era a ultima pagina de meu primeiro livro. Nela, não se encontrava nenhuma palavra, era como se fosse aquele final dramático de um livro, era como se ali estivesse escrito o silencio do ponto final. Descanso na cadeira de balanço com aquela folha tão velha, tão minha, tão branca entre meus dedos. Fecho os olhos, me enrolo para dormir naquela varanda. Sentado. Em vigília final. Durmo e ao invés do negro das costas da pálpebra, me encontro com o branco, o clarão do papel. Ai está a poesia.

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