Opinião: Sobre a Nova Era e os Alimentos

Lucas Souza
Jul 25, 2017 · 4 min read

A Nova Era é, grosso modo, uma mixórdia de crenças baseadas em algum tipo de espiritualismo onde cada pessoa escolhe a seu gosto, para não dizer à sua imagem e semelhança, as crenças que melhor se identifique.

O espiritualismo é a simples crença dualista de que há duas propriedades formativas da realidade como um todo: matéria e espírito. No entanto, esse espiritualismo é identificável e, provavelmente, tem raiz em crenças como o orfismo, o platonismo, maniqueísmo, gnosticismo, catarismo e mais tarde algumas crenças de denominações protestantes, o espiritismo e a teosofia. Todas elas, cada uma à sua maneira, acreditam que o espírito possui uma oposição radical e total com a matéria, diferentemente da crença católica que reconhece a soberania do espírito sobre a matéria, e não uma oposição que as torne completamente sem relação uma com a outra.

Tendo a Nova Era uma raiz em enxergar essa oposição, outra premissa sobre a sua concepção de cosmologia é necessária antes de chegarmos à dedução que eles fazem para uma dieta necessária: acreditar que dessa oposição, o espírito é um ente puro, bom e livre, estando aprisionado nos grilhões acachapantes da matéria intrinsecamente má. Oposição que tem fundamento em experiências como a limitação da vontade humana e a revolta em querer agir, ou, o horror da realidade e uma vontade de evadir-se de tudo isso, alcançando uma condição mais satisfatória e menos terrível de existência.

Portanto, crendo nessa diferença total de espírito e matéria, esta má e aquela boa, a conclusão para a ação moral dessa concepção cosmológica é de que se deve buscar o espírito livrando-se completamente da matéria, numa evolução pessoal, onde cada um dentro dessa busca faz nada mais nada menos que uma limpeza gradual dos grilhões da matéria.

Assim, as pessoas passam a julgar os alimentos estabelecendo hierarquia naqueles que são "mais materiais" e outros que são "menos materiais". A carne e as bebidas alcóolicas são comumente os mais grosseiramente materiais. Depois os alimentos de origem animal, como laticínios e ovos. Posteriormente os grãos e hortaliças até chegarmos às doutrinas mais ousadas como alimentar-se tão somente de luz.

Existem outras opções no cardápio ascético e místico da Nova Era, como os brotos de leguminosas, recheadas de uma energia vital muito recente, já que o que se pode chamar de certo "espírito das plantas" está ali presente ainda sem maior contato com a matéria. Existem alternativas como a busca do alimento mais natural possível, preferindo-se os alimentos integrais, ou distantes da temível ação humana por defensivos agrícolas. Ó, Perdão! Quis dizer agrotóxicos: que não fazem mais do que inserir cada vez mais a enigmática matéria no espírito original das plantas. O selo de qualidade, nesse caso, não é mais avalizado por agrônomos por meio da técnica adequada, mas pelas singelas marcas das criaturinhas que antes competiam pelo alimento conosco como os insetos e os caracóis que esse profissional teve a crueldade de extirpar. Da mesma maneira existem outras vertentes que incentivam incluir-se na dieta a ingestão de urina, como alternativa para cura de doenças e benefícios cosméticos, sendo preferencial a urina infantil, com o mesmo argumento dos brotos: esses espíritos ainda estão muito recentes na matéria.

De toda a mixórdia da Nova Era, as opções alimentícias também são tão inúmeras quanto aos vários sistemas de crenças. Todas elas demonstram que a matéria precisa de ser um mero veículo de um conteúdo mais ou menos espiritual, a depender do alimento escolhido e dentro da capacidade individual de cada fiel. O resultado disso é considerar que a matéria como um todo, assim como nossos corpos individuais, carregam um espírito ali encalacrado. É esta a base com que se crê na Mãe Terra, o espírito do mundo, e nossa possível união e integração com essa "mãe bondosa" aviltada pela mão cruel do homem como meio de ascese e comunhão universal com todos os seres viventes sobre a Terra. O que também fundamenta, digamos enfim, espiritualmente, um tipo de agenda verde global, não obstante os abusos reais ao meio ambiente.

Termina-se assim que a preocupação alimentícia é de suma importância para esse sistema de crenças, além deste ser usualmente o primeiro contato que os possíveis fiéis e futuros neófitos costumam ter com ela, pois a alimentação é uma preocupação comum e eficaz ao bem-estar e à saúde, escondendo assim dentro desse primeiro contato sem prévio aviso toda uma concepção cosmológica, antropológica e moral.

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