Meu rasgar de papéis.

Eu sou homem. Hoje uma amiga me contou uma história de abuso que ela sofreu. Uma tentativa de estupro. Ela corria culpa nos olhos. Eu não entendia de onde vinha aquela culpa. A situação claramente não era culpa dela. Nada foi. Mas eu sou homem. Hoje uma amiga me contou que foi chamada pra uma entrevista de emprego numa grande empresa. Uma reunião especial com o CEO. Fora do horário comercial. Ela deu pulinhos de alegria. Lá ela foi abusada. Tentativa de estupro. Tem mais de ano isso. Ela só me contou hoje. Com culpa escrita a ferro na pele. Eu sou homem. Eu não tenho a mínima ideia do que é ser um pedaço de carne no mercado de trabalho. De saber que, no meu tempo de vida, apesar de qualquer esforço e mérito meu, eu nunca vou ser levado a sério por isso. Eu vou ser levado a sério pelo meu corpo. Digo ~a sério. Porque eu sou levado a sério. Todos os meus méritos são aclamados. As pessoas costumam me chamar de inteligente. Eu sou um produto no mercado. Não sou um bem de consumo. Eu não fazia ideia do porque ela estava se sentindo culpada. Se fosse eu, homem, teria tomado uma atitude. Ia processar o desgraçado. Acabar com a vida dele. Manchetes, célebres manchetes. Purpurina para os media. Fogos de artifício. Minha palavra seria claramente publicada. Seria questão de fato. A minha amiga não fez nada. Ninguém ia acreditar nela. Ela não tem como se fazer acreditar. Ela estava sozinha. Foi fora do horário comercial. Não tinha ninguém mais no prédio. Ela é gostosa. Ela tava de legging. Sério mesmo. Quem ela pensa que é? Ela é mulher. Eu sou homem. Ela é negra. Eu sou branco. A minha palavra vale Ouro. Vale capa de jornal. Vale processos. Vale prova incontestável. A dela Vale deboche. Ela se sentir culpada acabou comigo. Aquilo me fez um mal inacreditável. Ela disse ter consciência plena de que ela não tem culpa alguma. Mas o corpo dela sente culpa. Ela trocou o guarda roupa. Fugiu de olhares. Tropeçou da solidão que tanto prezava. Ela se desencontrou. Se moldou de novo. Se refez do barro. Se fez refém. De novo. Ela é negra. Eu sou branco. Ela é mulher. Eu sou homem. Toda aquela culpa que corria dos olhos dela quando ela me abraçou e contou o que tinha acontecido tá na minha conta. No meu sangue. Tá escrito em outdoor na minha pele. No meu corpo. Ela é mulher. Eu sou homem.

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