
O conto do criado mudo
Desafiar a lâmina
É tropeçar de São.
Duvidar de seu toque
É duvidar da vida.
Se extinguir é uma
Necessidade.
É raridade querer viver
O mundo é cheio dessas armadilhas.
Dessas fortalezas.
Tão sutil. Tão hábil. Tão vil.
O mundo é uma criança mimada
Com fama de rei.
O mundo quebra a gente
Rabisca direitinho nossos papéis
O mundo é quem nos tropeça.
Talvez eu seja mesmo um fraco
Talvez eu flerte, Desumano e
transviado, com o diabo
Sim. Certamente.
Mas meus transpiros me desenham
Me ditam por extenso.
Querer morrer é viver demais
Pra vida.
Talvez eu seja mesmo um fraco
A lâmina, o frasco, o monóxido de carbono.
O gás da cozinha, o cavalgar dos antidepressivos
Os tarja preta, o revólver na gaveta do criado mudo
Que joguem meu jogo.
Que me trempem na dança
Você já ouvir a orquestra tocar?
Fluido silêncio.
Batem os tambores.
BUM BUM BUM BUM BUM BUM BUM
Gritam os violinos!
Rangem as cordas todas
Se deliciam, os metais
As madeiras contornam,
Abrem caminho,
Pro fagote passar.
Tropeça o maestro,
Quebra o compasso
É o mundo que grita
Falham os pulmões
Choram os cardíacos
Bate o coração, desengonçado
Arrítmico.
E, com o tocar das mãos
o gozar da orquestra
Acaba a peça.