O silêncio, o lacre e o mito:

Porque é sempre bom ter sempre um pé atrás

A internet despertou um processo interessante no que tange aos discursos. Não sei se alguma coisa no meio do caminho entre o mundo material e esse cosmos no qual este texto é publicado explica, ou se já é carta velha na academia. Mas achei curioso.

O roteiro é sempre parecido: primeiro acontece alguma coisa. Um objeto quiçá semiológico de algo repentino e problemático. A maioria, porém, mal mal repara no problema – ou suposto problema. Há um certo nível de silêncio, as pessoas simplesmente consumem sem muito debate o tal acontecimento.

Daí nasce o alarde: expira uma bomba de percepções que se encadeiam hora pra cá, hora pra lá. Alguém sempre, em extensos textos, dá o furo de reportagem de algum absurdo acoplado ao acontecimento. Uns se surpreendem, outros se ofendem, alguns até ficam viajando entre esses dois estados. Mas é aí que nasce ele, o LACRE. Numa condição quase que de apontar verdades que estariam em baixo das pedras. Num terreno geralmente esquisito, truncado e, acima de tudo, raso e precipitado.

Foi lacre de menina branca com câncer em cima de moças negras que se sentiram ofendidas. Foi lacre de gente achando lindo a conversa de Reinaldo Azevedo divulgada. Foi lacre do Bolsonaro falando que não estupraria uma colega apenas ‘por que você não merece’. Vale lembrar que nem só na esquerda vive o lacre – é que na direita o chamam de ‘mito’ ou qualquer coisa assim. Não tô muito atualizado no léxico do lado de lá da linha política.

Por fim, depois da celeuma toda, os discursos começam a se amontoar. Quem é de lá fica de lá, quem é de cá fica de cá. Na somatória, parece que as opiniões se formam de forma conjunta. Sobra aquele que LACROU – ou MITOU – e os que odeiam quem o fez.

A questão toda disso é uma certa lógica – meio agressiva e completamente rasa – de se tratar de temas sérios. Como se o troféu pela primeiridade do apontamento fosse mais importante do que a discussão em si. Ou algo assim. Me parece que, em alguma instância, lacrar é como o jornalista que, mesmo com dados incompletos ou imprecisos, lança a matéria pra não perder o furo. Tudo numa questão de ego de quem vai ser inteligente primeiro.

Enfim, queria só dizer que não tem problema nenhum parar pra pensar um pouco, se afastar das coisas até que se tenha algo com substância pra ser dito. Ou simplesmente não dizer nada quando o assunto não te inclui. Opinião não é sempre moeda de troca, não é troféu e, principalmente, não é mídia pra ter que competir com o relógio. Pelo menos não pra ter que ganhar dele.

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