Mudança

Olho para a estante e lá estão eles, imóveis, suspensos no éter das prateleiras como se aguardando olhos para existir. Colegas,confessores, companheiros.

Intimidado, me sinto néscio sob sua sombra. O que é só um jeito inseguro de dizer como me sinto burro. Talvez uma frase em latim me faça parecer mais inteligente.

Omnia mutantur, nihil interil. Tudo muda, mas nada é perdido de fato.

Roubei essa do Neil Gaiman. Grandes artistas roubam.

(Roubei essa do Steve Jobs).

De caixas a postos, estou pronto para a mudança. E, veja só, até agora Heráclito nenhum apareceu para falar de rios.

Transmito a notícia aos presentes, me sentindo um louco de Itaguaí.

Kafka não se incomoda. Claustrofobia nunca foi um problema para ele.

Faulkner balbucia umas coisas, mas eu não entendo nada.

As surradas escrituras vão ali com os poemas. Sempre achei que Fernando Pessoa e Salomão adorariam bater um papo cabeça. Esses putos me deram o que pensar.

São Tomás repreende meu palavrão. Moralista demais para um filósofo? Coloco-o bem embaixo de Nietzche, só para provocar, antes de lacrar a caixa. Hehe.

Os Karas, já esquecidos atrás de uns dicionários, preparam-se para uma aventura.

Enquanto isso, os super-heróis se agitam com uma certa inquietação em seus maxilares geométricos. São seres do status quo, para eles não há mudança perene. Penso em todas aquelas cores encerradas no escuro.

Morpheus, de seus grandes volumes em couro, nada diz. Mas eu sei que, em seu silencio noturno, ele compreende, mesmo que relutante, a inevitabilidade da mudança.

Dali, dali da lombada das 1001 obras para ver antes de morrer, me olha espantado. Da lista, eu não vi nem 50. Schopenhauer condenaria “veementemente” minhas aliterações da sentença anterior. Caixa.

Werther respeita. Ele testemunhou minhas desgraças tanto quanto eu as dele. Guarda meus segredos em silêncio.

Carlos, delicado como o corte de uma navalha, é sincero: diz que sou homem partido. Com razão.

Um a um, eles vão se acomodando nos cubos de papelão, alheios ao quanto estão em mim em prosa, verso, balões, notas, cores.

Um dia, novas prateleiras sustentarão seu eterno aguardar de olhos. Talvez eu os revisite com afinco. Talvez dê apenas um oi enquanto tiro o pó.

Eles sobreviverão.

Mas uma parte de mim teme que, talvez, apenas talvez, não me reconheçam da próxima vez que nos vermos.

Mudança.