O meu diário desencontro

I’m sorry. I’ve tried.

Eu sei, ódio é um sentimento péssimo, mas juro, não sinto por mais ninguém além de mim.

Eu odeio falar de mim, mesmo que a maior parte dos textos que escrevi por aqui sejam falando sobre este insignificante ser. Prefiro bilhões de vezes ouvir e falar com as pessoas sobre elas ou quaisquer outras coisas do que falar de mim mesmo. Por diversos motivos, seja porque não enxergo nada interessante que eu possa partilhar, seja porque acho egocêntrico demais falar sobre mim, seja porque acredito que usar a minha vida como parâmetro para outras pessoas é cruel e egoísta, seja porque eu realmente não gosto de falar sobre mim. Eu prometi que não falaria mais de mim, seja aqui, seja em qualquer outra plataforma digital, seja pessoalmente. 
Não deu. E mais uma vez estou exercendo algo que eu disse que jamais faria. Me desculpem, esse é mais um texto pessoal.

É engraçado, porque, quando criei a conta na Medium postei um texto dizendo que meus finais de ano são sempre alegres, esperançosos e que diferente dos outros meses do ano eu não estou enregue à tristeza. Eu não menti, juro, mas a vida me pregou uma peça e eu estou hoje escrevendo um texto de como estou me sentindo um merda em pleno novembro. A vida cobra, amigos.

Eu odeio falar de mim, assim como me odeio. Antes eu achava que toda essa repulsa com meu próprio existir fosse coisa de drama queen, que eu exagerava ou que tentava chamar a atenção inconscientemente. Mas não, eu realmente não encontro prazer no meu existir, pelo menos por ora. Tenho muita dificuldade em lidar com o que sinto de ruim, os sentimentos bons são sempre canalizados e mais fáceis de encarar. Os ruins não, é um beco sem saída, uma prisão. Sempre duvidei de tudo que sinto quanto a mim, mesmo o sentimento de ódio, eu sempre fui incrédulo, pensava que poderia ser apenas uma fase, dias ruins que não consigo lidar ou alguma reação interna quando algo não caminhava do jeito que eu planejei. Duvidei até mesmo da minha sanidade mental, já que a sanidade e loucura são uma linha tênue e eu achava que poderia estar louco (sim), e na real, se eu pensar muito sobre isso eu ainda continuarei duvidando. Melhor não pensar nisso, então. Vai que fico louco mesmo, caso não seja. Usei todos os artifícios possíveis para deslegitimar esse sentimento. Coisa feia.

Eu não acredito em destino, nem nos astros e nem em divindade, eu acredito que nós e somente nós somos capazes de alterar os rumos, seja pra pior ou para melhor. E eu tenho a capacidade de sempre guiar minha própria história pelo pior caminho possível. 
Em contrapartida eu gosto muito de imaginar que a vida nos reserva coisas boas, é contraditório, mas é confortante. Principalmente nos momentos de inquietação da alma. Principalmente nos momentos de desesperança. Eu sou contraditório. Eu sou uma avalanche.

Eu nunca tive amor próprio, essa é a verdade. Desde bem cedo eu já era muito insatisfeito com algo em mim, quando pré-adolescente até a adolescência eu comecei a odiar meu corpo, sentindo repulsa até de me ver nu quando tomava banho. Isso não durou muito tempo, mas aconteceu. Quando mais velho, a partir dos 17, eu ignorei um pouco o corpo e o aceitei do jeito que era, mas comecei a odiar meu intelecto. Passei a me achar burro demais, insignificante demais e leigo demais, principalmente depois da época de vestibulares, quando eu não passei em nenhuma faculdade que pretendia. E eu reconheço que a culpa de tudo isso é minha, nunca fiz dieta e nunca estudei o suficiente. Hoje corro atrás de tudo isso, faço uma dieta rigorosa que me custou 11kg e estudo e leio o máximo que posso, mas ainda sim não me amo. Parece que é mais fundo que eu imaginava.

Erasmo de Roterdã fala sobre amor próprio em Elogio da Loucura, uma passagem que me deixou curioso e pensativo quanto ao que demonstro ser:

Dizei-me por obséquio: um homem que odeia a si mesmo poderá, acaso, amar alguém? Um homem que discorda de si mesmo poderá, acaso, concordar com outro? Será capaz de inspirar alegria aos outros quem tem em si mesmo a aflição e o tédio? Só um louco, mais louco ainda do que a própria Loucura, admitireis que possa sustentar a afirmativa de tal opinião.

Eu discordo dessa afirmação, mas ela me foi muito útil. Eu, odiando-me, conseguirei amar outra pessoa e demonstrar afeto à outrem enquanto mantenho desafeto próprio? Pensei muito sobre isso depois que li, refleti muito para tentar ao menos entender o que eu passo para as pessoas e qual o sentimento que eu demonstro para com as outras pessoas. Sou narcisista a tal ponto? 
A resposta que tive foi: sim, é possível odiar-se e ainda sim demonstrar afeto e amor aos demais, bem como concordar com eles. Falo por mim, claro, mas por muito tempo eu tenho colocado minha vida em segundo plano para ouvir mais os outros e ajudar mais os outros. Eu prefiro, eu gosto de trocar de lugar e sentir a dor alheia. Eu gosto de tentar sentir o que sentem para assim tentar ajuda-los. Depois eu me ajudo, sempre penso assim. 
Eu reconheço o quão prejudicial isso é, claro que é prejudicial, mas o faço por simplesmente não ter interesse em me deixar em primeiro plano. Sempre enxergo meus problemas como fracos, desprezíveis de atenção, então busco ajudar outras pessoas. Empatia demais machuca, é verdade.

É automático a maneira como me coloco pra baixo, por vezes nem percebo, mas acontece. Eu sou incapaz de enxergar beleza nos meus atos, nas minhas conquistas, sou incapaz de enxergar uma pessoa boa em mim, enquanto também sou incapaz de achar minhas dores merecedoras de atenção, importantes ao ponto de pedir ajuda ou de colocar minha atenção nelas mais do que coloco na dor dos outros, principalmente os que estão em minha volta. É também um mecanismo de defesa, pois sempre penso que ao abrir minhas feridas eu estou exposto ao julgamento, e eu não sei lidar com julgamentos.

Antes você do que eu. No bom sentido, nesse caso.

Eu só queria uma máquina do tempo, mesmo sendo cientificamente impossível -tem um lance do campo gravitacional da terra não permitir essa viagem e o tempo só correr pra frente-, isso resolveria todos os meus problemas, seria o suficiente para a mudança que tanto anseio, uma simples viagem me proporcionaria o poder de mudar todo meu destino, de dar um tapa na minha cara -se isso não me matasse- e dizer que ta tudo cagado, to fazendo só merda e que as coisas não devem ser assim, que posso pensar melhor e dar meu melhor. Mas reconheço que seria um ato imaturo, talvez, porque voltar ao passado seria não aceitar o meu destino e não me abrir para aprender com os próprios erros. Bom, pelo menos eu nunca neguei que sou imaturo.

Um tempo atrás escrevi um poema sobre viagem no tempo e como eu desejo muito que isso fosse possível e disponível para todos -certeza que o sistema só deixaria que os mais ricos usufruíssem, mas deixa isso pra outra discussão-.

Buraco de minhoca
O que você está fazendo da sua vida?
Seu destino está perdido
Fiz essa viagem pra te dizer que não tem mais saída
Nada no seu futuro faz mais sentido
E não ouse me pedir explicações
Você é muito menos do que se mostra em suas canções
Pare de chorar e se conserte
Suas lágrimas se tornarão frequentes
Sua sina é sofrer em desespero
E não pense que terás momentos de deleite
É real o inferno criado na sua mente
Eu te conheço
Eu sei o que passou
Pretensioso, eu sei
Mas você merece sofrer
E só essa conversa foi o suficiente
Pro seu fim
Lamentos de uma vida passada

Eu sou assim, esse diário desencontro. Enquanto ando, me perco. Quando tento me achar, me perco mais. E eu odeio quem fez com que eu me perdesse.

Antes de me despedir, uma música que me define

Cause I’m a loser, I’m a loser!

Eu procurei, jurei que não iria mais falar de mim
Porque eu achei que eu tinha outras histórias pra contar.

Eu só queria sentir o doce da vida de novo.

Like what you read? Give Lucas Oliveira a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.