Sobre narcisismo e egos inflados

Um breve pensamento sobre a superioridade que mata

É que Narciso acha feio o que não é espelho, disse Caetano Veloso em sua belíssima canção ‘Sampa’. 
Ouvi essa canção só por causa deste trecho, na terça, logo após minha prova da auto-escola. Fiquei abismado porque todos ali só sabiam falar de si, sem prestar apoio àqueles que foram reprovados e pouco se importando com o que sentiam àqueles que já estavam na segunda, terceira ou até quarta vez que faziam aquela prova.

“Não passou? Putz. Eu passei, fiquei nervoso mas passei”
“Você não conseguiu? Nossa, eu consegui, foi tão fácil, to muito feliz por mim. Meu pai vai se orgulhar”

De onde vêm isso? Como funciona o cérebro dessas pessoas? Por que fazem isso?

Eles são narcisistas.

O narcisismo por vezes advém de um transtorno de personalidade, o momento em que vêem a si mesmo muito maior do que realmente é, um transtorno que os faz sentir que merecem atenção a todo o tempo e deixa com que a empatia seja só mais uma palavra no dicionário que eles não entendem bem o significado.
Torna-se natural que um narcisista se compare com todos que estão à sua volta, colocando-se como superior e acreditando fielmente que isso é verdade. A superioridade é quem fala mais alto na mente de um narcisista. É um transtorno triste, mas que aborrece muito as pessoas que estão em volta de quem sofre disso.

Os narcisistas tendem a ser arrogantes quando confrontados sobre seu potencial, justamente por não entenderem que nem sempre são a última bolacha do pacote, exibem uma forte convicção de que são a perfeição em pessoa e perfeitos em tudo que fazem, além de tendenciarem a sempre centralizar tudo para eles, todos os assuntos terminam -ou começam- com eles no palanque falando sobre eles mesmos. 
Os narcisistas buscam incessantemente a admiração e a provação de que são bons o suficiente.

Uma coisa é você contar histórias sobre você, outra coisa é você saber só contar histórias sobre você. Uma coisa são atitudes narcisistas durante a vida, outra coisa é um transtorno narcisista. Pensemos que todos nós estamos propensos a em algum momento na vida deixar o orgulho nos guiar e ser egocêntrico, isso é normal e pode sim acontecer, mas a partir do momento em que reconhecermos que isso é prejudicial é que damos o primeiro passo para acabar o sentimento de superioridade.

É comum também a confusão que fazem quando falamos sobre narcisismo, o ser narcisista não quer dizer que não seja bom no que faz, em muitos casos os narcisistas são bons e até muito bons em suas profissões, hobbies, estudos ou o que quer que façam. A grande questão é a busca por holofotes e pelo reconhecimento das pessoas que os cercam, a vontade de gritar para o mundo todo o quão bom são. 
Quando se é bom em algo o reconhecimento vem, por mais que demore ou por mais que nem todos tenham a noção do quão bom são, mas ele vem, e não precisamos falar o tempo todo sobre nossas qualidades afim de enfiar goela abaixo essas qualidades, quase forçando-as a aceitar isto. 
Precisamos sim saber de nossas qualidades, mas não podemos empurra-las para que todos a reconheçam.

As pessoas narcisistas não são pessoas ruins, não são monstros sem princípios e nem pessoas horríveis merecedoras de maus-tratos, não é nada disso e não pense desta forma. São pessoas que não entendem bem como funciona o sucesso e como lidar com suas próprias qualidades. Apesar de por fora se mostrarem tão auto-confiantes e superiores, por dentro é comum que pessoas com transtorno narcisista sintam-se vazios e com a necessidade de receber sentimentos amorosos em suas relações mais pessoais. São carentes como todos nós e precisam de amor para entender o caminho que seguem, além de que, como qualquer transtorno mental, precisam de ajuda médica, principalmente, para superar a superioridade que invade a cabeça.

Ninguém nunca será o melhor de tudo, melhor que os outros ou o melhor humano do universo e buscar por isso só mata por dentro. Buscar ser bom é importante e necessário, buscar ser o melhor para que os holofotes estejam virados pra você é preocupante.

Se a palavra ‘eu’ não existisse, como você viveria?