Bixa Gospel

O título desse texto foi o “apelido” que fui conhecido por algum tempo durante o ensino médio, mas ele não vai ser sobre pessoas querendo me arrancar do armário ou homofobia na escola mas o que realmente foi ser bixa e gospel e o impacto da religião na vida dos LGBT’s.

Menino comportado, assíduo na igreja, com boa oratória, boa voz, liderança; características perfeitas para todos em volta colocarem as expectativas do bom cristão em mim. Na vida “secular”, forte crítico da cristofobia e dos ataques do movimento gay ao tradicional plano de Deus da família perfeita. Um detalhe mudaria toda história: ela era bixa ela.

Criado na igreja desde os primeiros meses de vida, toda minha identidade se organizava naquela ambiência. Minhas ideias, meus relacionamentos, minha rotina, tudo era mediado pela religião. Ao mesmo tempo que me encaixava nas expectativas em alguns aspectos, em outros fora do meu controle, eu era o ponto fora da curva. Não gostava de esportes, delicado, voz fina, gostava de brincar daquilo que todo mundo dizia que era de menina. As palavras de ordem vinham de todos os lados: “Fale grosso menino”, “Endurece essa mão”, “Para de entortar a cabeça como menina”, “Não anda rebolando”, “Menino não brinca disso”, “Quer ir pras MR é?”.

Esse “Quer ir pras MR é?” precisa ser explicado de maneira mais detalhada: Para quem não conhece a estrutura das igrejas batistas, existem duas organizações para formação religiosa de crianças e adolescentes, Mensageiras do Rei e Embaixadores do Rei, respectivamente uma organização feminina e outra masculina. Os embaixadores do rei, a qual fiz parte, é uma organização nos moldes militares. Tínhamos uma hierarquia, fazíamos todo o ritual da continência, repetíamos frases prontas sistematicamente e ainda pagávamos algumas penitências como flexão de braço, mas a que mais desafiava a masculinidade daquele espaço era ser convidado a participar das Mensageiras do Rei, a organização feminina, que se centrava nos moldes da mordomia e do cuidado.

Parênteses a parte, esse tipo de abordagem contra meu comportamento fora do padrão me fazia vigiar cada movimento meu. Minha infância toda passei vigiando minha mão, vigiando meu andar, vigiava até a posição do meu pescoço, além de tentar engrossar a voz. Até hoje não consigo me ver em vídeos ou ouvir minha voz gravada dado a intensidade desse processo.

Apesar disso, eu ainda achava que podia me encaixar, eram comportamentos, com muito esforço eu podia mudar isso, ser “adestrado”. Quando percebi que não era só uma questão de comportamento mas que realmente havia algo diferente em mim, tudo desmoronou. O que eu fazia? Pedia perdão copiosamente a Deus por estar sentindo algo errado. “Perdão Deus” era um mantra na minha cabeça, que ainda hoje ainda ouço ecoar no meu subconsciente. Assistia vídeos e mais vídeos de “ex-gays”, lia textos e mais textos dessas pessoas, fazia orações de libertação, punia fisicamente meu corpo por ter aqueles desejos. Tudo isso sozinho, alguém saber daquilo era o pior dos terrores. Imagina ser descoberto com o depravado, imoral da igreja?Ouvia “Jesus te ama” todos os dias, mas nessa frase nunca poderia se encaixar o fato de eu ser gay.

Com a visibilidade que a pauta LGBT foi ganhando no mundo secular, o tema da homossexualidade começava a aparecer mais vezes dentro da igreja. Chegava a ouvir nas pregações do domingo a noite “porque os viados agora querem ter até o direito de casar”. Estudos sobre o “homossexualismo” começavam a ser feitos, com a justificativa de que logo, logo homossexuais poderiam começar a querer frequentá-la. Vocês acham que o debate foi sobre inclusão? Enganaram-se. Os estudos partiam da premissa que a homossexualidade era um pecado, e não havia sequer a possibilidade de discutir isso, a discussão que deveria ser feita é o que fazer com eles quando chegassem lá. Mal sabiam que eu já estava lá, que aquele que eles diziam abençoar imensamente a igreja com sua voz era aquilo que eles também abominavam.

Vou poupá-los da história de como descobriram que eu era gay porque seriam muitas linhas a serem escritas, mas deixo a prévia de que foi em um momento em que eu ainda não estava preparado para lidar com a pressão de estar fora do armário, mas aconteceu. Fui chamado pelo pastor e líderes da igreja para uma conversa que eu não sabia do que se tratava até chegar lá e iniciar o que chamei de “sessão de tortura”.

Começaram a tal conversa lendo versículos da bíblia sobre depravação, pessoas imorais, pessoas que subvertem a palavra de Deus, que se juntam com vãs filosofias pra ludibriar de outras e etc. Depois começaram as perguntas sobre o “homossexualismo”, se eu o condenava e coisas do tipo. Com minhas respostas negativas a ofensiva começou a ser mais direta, perguntavam sobre mim, se já tive relações com homens e deixando claro que “a conversa era sigilosa, mas se fosse necessário outras pessoas poderiam ser chamadas”. Fui excluído do ministério de louvor e recebi um prazo de 15 dias, para esclarecer e contar tudo a todos. Foram os dias mais aterrorizantes da minha vida, não consigo sequer descrevê-los.

Resumo da história: saí da igreja, fui excluído do rol de membros, perdi “amigos” e tudo aquilo que organizava a minha identidade, morri aos poucos. Só sobrevivi a essa fase porque tive amigos fora da igreja que fizeram tudo por mim e acabaram por se tornar a minha família. Me tornei forte, enfrentei as mais duras batalhas e hoje tenho a força pra conseguir bater de frente com qualquer uma que queira me derrubar.

Compartilho essa história porque sei que não é um fato isolado, diversos amigos passaram por coisa parecida e até pior. Sei que milhares de LGBT’s estão vivendo isso nesse exato momento, sendo humilhados e torturados nas sessões de cura. Muitos não sobrevivem, morrem simbolicamente indo pro campo da apatia, as vezes até fisicamente com o suicídio.

Essa semana vi essa imagem e lembrei de tudo que passei. Não, eu não perdoo. Não perdoo porque segurar uma faixa dizendo “queremos te pedir perdão por todas as vezes que a religião te machucou” pra pagar de inclusivo e se livrar da imagem de intolerante é muito fácil. Os problemas psicológicos e físicos que as igrejas causaram e ainda causam a milhares de LGBT’s com a perseguição e os tratamentos de “cura” não serão apagados com uma faixa. Quero ver vocês colocando o gay assumido da sua igreja pra ser líder do grupo de louvor, a lésbica pra fazer a pregação do domingo a noite, o casal gay pra participar do jantar de casais. Isso vocês não fazem né? Vocês não conseguiram nem sair da discussão se um gay pode continuar indo a igreja sem se arrepender de ser gay.

No lugar do perdão eu dou em troca a vocês luta. Luta pelos meus. Porque só lutando, outros como eu se livrarão do peso da culpa. Só lutando as sessões de tortura que vocês promovem acabarão. Só lutando o amor vencerá o ódio.