O sangue nos une, a LGBTfobia nos divide

Cena do filme “Orações para Bobby”

Um dos temas mais caros às pessoas LGBT’s é sem dúvida alguma a família. Sendo o núcleo fundamental de formação e vivência dos sujeitos, a família é entendida como um laço irrevogável dotado de uma realidade objetiva biológica, a consanguinidade. Não é incomum ouvir frases como “mãe é mãe”, “pai é pai” ou “filho é filho” para reafirmar a autoridade da relação familiar sobre qualquer circunstância, principalmente quando se fala de uma relação de violência dentro desse núcleo. Como então lidar com essas violências num espaço tido como inquestionável?

Acredito que o primeiro passo seja desmistificar a ideia do parentesco como uma relação universal e necessária. A antropologia, por exemplo, por muito tempo se baseou na ideia de que o parentesco constituía a base dos sistemas ‘primitivos’, e nas concepções mais ortodoxas acreditava que por de trás deles havia uma base biológica universal. O antropólogo David Schneider investiu uma crítica radical a esses estudos ao colocar que as ideias sobre o parentesco, a sociedade fundamentada na família, as terminologias e os pontos principais dos sistemas de parentesco partem de um contexto social, político e religioso específico, no caso, o europeu, que não se pode pretender como universal.

Afinal, retirada a ideia eurocêntrica de que o parentesco é definido por laços de sangue e medido pela determinação genealógica, o que sobraria seria uma relação social como qualquer outra. Para ele, o que os antropólogos sociais chamam de estrutura de parentesco é apenas uma forma de falar de relações de propriedade que poderiam ser referidas de outras formas. Uma crítica Marxista por exemplo, coloca a família monogâmica burguesa como parte dos mecanismos de reprodução do capital. É nela que se tem a exploração dos filhos pelos pais e das mulheres pelos homens. Os laços afetivos dentro do capital seriam então reduzidos a meros instrumentos de produção.

Entendida como uma construção social não é de se espantar que na família se reproduzam os mais diversos tipos de opressão. Para muitas LGBT’s é nesse espaço em que se passam as primeiras e mais dolorosas violências. Desde a imposição compulsória do gênero até a supressão da sexualidade que escape a norma hétero. Talvez seja onde a violência simbólica seja mais acentuada, afinal é o nosso principal ambiente de formação identitária e afetiva. O autor da violência não é uma pessoa qualquer, mas o sujeito principal da sua formação.

Seria uma irresponsabilidade falar aqui em uma aversão total a família, afinal a nossa construção simbólica se dá nessa relação, sem falar da dependência material em alguns casos. O ponto aqui é destacar a importância da crítica as noções comuns e o discurso sentimentalista sobre a família, para que não mergulhemos em relações abusivas em nome do “mãe é mãe, pai é pai, filho é filho”. Em algumas situações é possível estabelecer um tipo de intermediação sim e acredito que as consciências devem ser disputadas. Mas em muitos casos o rompimento com essa relação é a única saída para a saúde física e mental de pessoas que sofrem abusos.

É famoso o caso de Bobby Griffith nos anos 80 na Califórnia, filho gay de uma família cristã que se suicidou após ser rejeitado pela família e submetido a um processo de cura gay. Não muito distante e mais recente é o caso de Itaberli Lozano, 17 anos que foi assasinado e teve o corpo carbonizado pela própria mãe que não aceitava a sua sexualidade. Ainda mais chocante o caso de um garoto de 8 anos no Rio que foi assassinado pelo pai porque “gostava de dança do ventre e andava rebolando demais”.

São inúmeros os casos que poderiam ser citados para provar que a consanguinidade não é relação necessária para determinar laços de afetividade. A antropológa norte-americana Kath Weston escreveu em 1991 um livro chamado Families We Choose (Famílias que Escolhemos) a partir de uma etnografia sobre gays e lésbicas em São Francisco nos anos 80, em que aponta como o determinismo biológico estava sendo desorientado pelo que estava acontecendo na época. Era um momento em que muitos jovens estavam ‘saindo do armário’, e a partir dessa confissão muitas rupturas aconteciam, pais expulsavam seus filhos de casa, irmãos e tios repudiavam a relação familiar.

Nesse contexto, laços baseados numa relação de aceitação solidificou-se em contraste com a determinação sanguínea. A antropóloga coloca que “Nos discursos sobre famílias gays, a noção de amizade vira de cabeça para baixo a associação cultural que apresenta a conexão biogenética como a que permanece, pois, aqui, a amizade é a relação mais segura e duradoura”.

Aqueles que assistem Sense8 devem ter se emocionado como eu com a frase do personagem Wolfgang que ilustra isso: “Ele é meu irmão. Não por algo acidental, como o sangue, mas por algo muito mais forte: por escolha”. Acredito que está aí a chave da segurança física e mental das LGBT’s quando se põe o assunto família. É compreender que a despeito das violências vividas no núcleo familiar tradicional existem possibilidades de outras relações afetivas à serem construídas. Quando a relação consanguínea se combina com a relação afetiva, ótimo. Mas quando não é possível construir esse laço, é importante valorizar aqueles que se baseiam em outras determinações.

Daí também a necessidade de que o movimento LGBT seja um espaço seguro e acolhedor. Não foram poucas as vezes que recebi pedidos de ajuda de pessoas em crises familiares, passando por processo de expulsão ou até mesmo agressão. Enquanto LGBT’s devemos estar atentos à nossas irmãs porque é na militância que também se constroem laços. Família tem de ser onde você se sente bem. Fazer amigos, irmãos também é resistência!

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