Gravitas

A Bolsonaro, disseram-lhe que lhe falta “gravitas”. O que isso significa?

Lucas Pereira Novaes
Nov 2 · 5 min read
Estátua do imperador César Augusto.

Nesta semana, por mais que tenhamos testemunhado inúmeros episódios da novela chamada Brasil — interminável história seriada, de múltiplos personagens, povoada de clímaces e reviravoltas — , um deles chamou a atenção por, mais uma vez, ter-se originado de um tuíte presidencial (já que estamos em um tempo em que os tuítes, muitas vezes, importam mais que declarações oficiais): em sua conta no Twitter, o presidente Jair Bolsonaro veiculou um vídeo em que um leão (mas não aquele da tribo de Judá ou aquele das Crônicas de Nárnia) é perseguido por hienas (espécie, notadamente, carniceira e associada, com frequência, a comportamento traiçoeiro ou desleal).

As hienas, no vídeo, são representações de instituições, grupos e organizações brasileiras e estrangeiras (STF, MBL, CUT, Força Sindical, OAB, ONU etc.), partidos políticos (PT, Psol, PSDB, PSL — o partido do presidente — etc.), veículos de comunicação (Rede Globo) ou mesmo a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), organismo institucional da Igreja Católica. O leão, acossado, só é salvo por outro leão, nomeado “conservador patriota”, que sugeriria o cidadão comprometido com a “defesa do Brasil” e com os “valores do presidente” (que seriam identificados, justamente, com os interesses nacionais). A alegoria é clara para dizer que as hienas (infiéis, astuciosas, sorrateiras etc.) perseguem e atormentam o leão (altivo, nobre, bravio etc.).

Entre as variadas reações ao vídeo, destaca-se a fala do decano do Supremo Tribunal Federal, o ministro Celso de Mello, que, entre outras coisas, afirmou:

Esse comportamento revelado no vídeo em questão, além de caracterizar absoluta falta de gravitas e de apropriada estatura presidencial, também constitui a expressão odiosa (e profundamente lamentável) de quem desconhece o dogma da separação de poderes e, o que é mais grave, de quem teme um Poder Judiciário independente e consciente de que ninguém, nem mesmo o Presidente da República, está acima da autoridade da Constituição e das leis da República.

Se ignoradas as demais reações ao e as implicações políticas do conteúdo do vídeo e de sua propagação, poderíamos ficar com a menção do ministro a uma virtude muito desconhecida aos partícipes da arena política atual: a gravitas. Para sabermos um pouco mais sobre ela, devemos recuar no tempo — mais precisamente, até a Antiguidade: gravitas, na antiga Roma, era uma das chamadas virtudes romanas, responsáveis pela formação do homem romano.

A etimologia da palavra virtude, aliás, aponta para sentidos um tanto diferentes para a compreensão atual sobre ela: em uma definição antiga (latina), virtude (virtūs,virtūtis) era entendida como “masculinidade, virilidade, i. e., a soma de todas as excelências físicas e mentais de um homem [em latim, vĭr], força, vigor; bravura, coragem; […] valor, excelência […]”. O que faz um homem (vĭr) ser homem é, portanto, sua virtude. A virtude era, inclusive, personificada na figura da deusa Virtus (Virtude).

Provável representação da deusa Virtus.

Entre as virtudes que deveriam ser alcançadas pelo homem romano e os princípios que o orientavam estariam, por exemplo, (1) a auctoritas (“autoridade”: que não seria propriamente uma virtude, mas o efeito das virtudes, uma espécie de exercício de “autoridade” moral/espiritual capaz de infundir respeito em outrem, mas que não se confunde com poder [potestas], que é a faculdade de exercer o poder, de “mandar”); (2) a dignitas (“dignidade”: um senso de amor-próprio e de autoestima; a consciência do próprio valor e a reputação ganha por ele); (3) a pietas (“piedade”/”dever”: em primeiro lugar, uma devoção ao dever dentro do grupo familiar; mais amplamente, a postura de reverência devida não só às práticas religiosas, mas, de igual maneira, ao Estado e às leis que regem o Estado; aos costumes; à pátria); (4) a fides (“fé”/“fidelidade”: a “fidelidade” no sentido de “confiança” e de cumprimento de obrigações; a “fidelidade” ao juramento e à própria palavra); (5) a gloria (“glória”: o reconhecimento, a admiração e a adulação públicos, também o efeito da prática das virtudes); (6) a constantia (“constância”: a perseverança em realizar e praticar o que é certo mesmo em circunstâncias desagradáveis, difíceis ou negativas); (7) a pudicitia (“modéstia”: mais relacionada às mulheres, seria a forma adequada e discreta de se vestir e de portar na administração da casa); (8) a castitas (“castidade”: a pureza virginal mantida pelas mulheres antes do casamento e a pureza mantida, mesmo após o casamento, na viuvez); etc., etc.

Essas virtudes podem espantar aqueles que associam a antiga Roma, normalmente, à devassidão, à promiscuidade e à intemperança de nomes famosos como Calígula ou Messalina ou aos anos de decadência daquele império, porém foram justamente elas as responsáveis por instituir, principalmente, nos patrícios, aristocratas, senadores e imperadores — em suma, a classe política — o compromisso em atingir a “excelência moral” responsável pela formação do homem e exigida em prol do convívio social e da construção da sociedade, fato que permitiu à civilização romana sobreviver por quase mil anos.

Nos governantes romanos era, sobremaneira, apreciada a gravitas (“gravidade”), que pode ser traduzida como “a virtude de ser pesado, [alguém que é] dificilmente movimentado do lugar onde se está”. É claro que esse “peso” não se refere à quantidade de quilos de alguém, mas, em referência ao homem de Estado, àquele que possui o discernimento para reconhecer a seriedade dos assuntos e dos problemas:

Ao utilizar um afiado senso de disciplina, [aquele que possui gravitas] pode reconhecer os sentimentos e preocupações dos outros acima de suas próprias emoções e seus próprios interesses. Essa percepção lhe permitiria controlar suas respostas [aos problemas] adequadamente. […][A gravitas] desenvolve a habilidade de se controlar em vários contextos sociais. Além disso, o discernimento proveniente de um senso de gravidade também encoraja o indivíduo a reconhecer suas responsabilidades sociais e conduzir seriamente suas obrigações.

Um homem “grave” — e esse significado se mantém hoje — seria um homem sério, sóbrio, circunspecto e prudente em palavras e ações. Isso, é claro, não é algo que falta somente em Bolsonaro, mas — arriscaria dizer — em toda a classe política brasileira há anos, ou será que poderíamos enxergar gravitas em um sem-número de episódios no Parlamento, em atitudes de vários presidentes ou em famigeradas propagandas políticas de candidatos à Câmara dos Deputados?

Ironicamente, o vídeo veiculado supostamente em defesa do “conservadorismo” é uma expressão carente de gravitas, uma virtude que ajudou a forjar e a construir uma sociedade conservadora e tradicional do passado que ainda nos tem muito a ensinar sobre — vejam só! — a atenção dada e a postura em relação à “coisa pública” (ou res publica). Mais do que um adereço do regime republicano, aperfeiçoado e legado a nós pelos romanos, a gravitas é uma virtude obrigatória aos homens públicos — basta assistir aos noticiários para que o confirmemos.

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