Cidades universitárias: os condomínios fechados do conhecimento.

Uma das coisas que mais me preocupa na história da arquitetura moderna é essa vocação de criar cidades do “zero”. Entre as cidades que mais me consternam, não vamos sequer falar de Chandigarh e Brasilia, estão os modelos de cidades universitárias.

A imagem tétrica das vacas em frente aos edifícios monumentais de Corbusier em Chandigarh e a dicotomia das “caixas” da Brasília de Lucio Costa.

Apesar de não ser algo novo pensar em grandes espaços afastados da cidade com o fim de agregar toda a comunidade acadêmica — podemos tomar Oxford, Cambridge e outras instituições européias como exemplo — esse modelo se espalhou como fogo na America Latina ao longo da metade do século passado. Chama atenção também o fato de esses modelos terem surgido justamente num período de ouro do movimento moderno na arquitetura e contemporâneo à construção de Brasília, muito embora eles não tenham se restringido ao Brasil.

Como exemplos nacionais podemos falar do Campus da UNB em Brasília feito por Niemeyer, mas temos outros exemplos como o projeto para a UFRJ de Jorge Machado Moreira no Rio de Janeiro, o campus da UFPE em Recife ou, um exemplo mais tardio nos anos 60, o exemplo da USP em São Paulo — com seu objeto mais interessante chamado “corredor das humanas”. Teríamos como exemplos estrangeiros e latinos os campi da UNAM, na Cidade do México, com grandes medalhões da arquitetura moderna de Juan O’Gorman e a UCV de Caracas, a maior obra de Villanueva.

O campus da UCV em Caracas, de Villanueva, que desmatou área contígua ao jardim botânico da cidade, em meio a uma paisagem deslumbrante.

Todos esses projetos são fruto de Estados interventores, eles são postos avançados de proporções urbanas de universidades prioritariamente públicas e são carregados de significados, principalmente num contexto pré-ditaduras latino americanas. Além de serem objetos de estudo e laboratório de experimentação para arquitetos modernos latino-americanos elas foram berço e panela de pressão para o movimento comunista que permeava nossas bandas latinas. Não é por menos que a chegada da ditadura no Brasil em 1964 serviu para acabar com o projeto do Corredor das Humanas da USP e deixar inacabados prédios que certamente seriam marcos históricos da arquitetura brasileira que já estavam na execução das fundações.

O que me causa dúvida e talvez até um certo constrangimento é a ausência de crítica a esse modelo de cidade proposto pelos arquitetos modernos da época. Claro, fica fácil criticar modelos vencidos quase 70 anos depois da execução, no entanto, mas como apontar o dedo pra falar algo de negativo quando nomes de Paulo Mendes da Rocha, Vilanova Artigas, Oscar Niemeyer, e tantos outros nomes de tal grandeza na história da arquitetura moderna estão envolvidos?

Minha questão está numa idéia de uma NOVA cidade, uma cidade afastada, muitas vezes com “prefeitura” própria, ser executada à margem da cidade já existente. Essas cidades de fato negam o núcleo urbano já construído e consolidado e buscam artificialmente criar um novo “universo” onde todos são estudantes, professores ou funcionários. Ainda por cima sob argumentos demagogos de que “não existem cercas ou muros” — o que não é o caso da USP atualmente -, sugerem uma cidade “democrática” e segura, como se não estivesse sujeita a estrutura hierárquica inegavelmente entranhada ao meio acadêmico e como se essa segurança não fosse o fruto de uma cidade redoma, em que o diferente não faz parte: não é frequentada por pessoas pobres (nem por muito ricas também) e vive-se de uma fantasiosa paz que esconde um isolamento solene em relação a realidade exterior de desigualdade abissal sob um véu de hipocrisia.

Essa mesma estrutura “exclusiva” — faço o uso dessa palavra entre aspas para nao dizer excludente — é nada menos que um simulacro dos condomínios fechados que tanto criticamos no omisso urbanismo contemporâneo: apenas troca-se o critério de escolha de entrada, no Alphaville, para entrar, há que ter riqueza, na universidade tens que ter conhecimento — ou a palavra que não quer ser dita por seus frequentadores: o mérito.

As cidades universitárias, uniprogramáticas, com poucos (ou sem) alojamentos e espaços de moradia, obrigam seus frequentadores a usarem o carro para chegar ao campus, a serem frequentadores assíduos dos engarrafamentos decorrentes da falta de diversidade de horários de uso, e a estacionar e caminhar na chuva até o prédio muitas vezes. Isso para não falar da tarefa indigna de chegar em ônibus lotado e dobrar os problemas acima referidos.

Quem essas cidades universitárias estão formando nesse universo redoma em que as diferenças sociais estão negadas ou até mesmo proibidas? Que cidadãos estão sendo criados nessas bolhas de conhecimento apartado da sociedade e de suas mazelas? Que arquitetos são esses que projetam sobre a cidade que sequer frequentam no cotidiano? Num Estado cada vez mais esvaziado de função, sucateado e refém do mercado, quando poderemos propor novos tipos de ocupação e ressignificação do contato das universidades com as cidades? São essas as perguntas que me vem a cabeça quando penso sobre cidades universitárias.