A Força Criativa da Gambiarra

e toda a chatice dos métodos convencionais

Pra ler ouvindo:

Eu sou um apaixonado por soluções alternativas. Tenho um histórico de disrupção que, apesar de soar bonito, não me ajuda muito. Isso porque eu acho processos estabelecidos chatos, monótonos, tediosos. Não consigo me apegar a estruturas normativas pré-estabelecidas. Eu gosto mesmo é do que é novo. Meu principal gatilho mental pra entrar em ação é ouvir alguém dizendo “ninguém consegue fazer isso”.

Levando isso em consideração, venho escrever esse manifesto em defesa da gambiarra. Pra quem não sabe o que é:

O site onde eu achei a definição da palavra não me deixava fazer ctrl+c, ctrl+v. O que eu fiz? isso mesmo, uma gabiarra.

E a sociedade em geral vê a gambiarra com péssimos olhos, como algo de baixa qualidade ou de pouca confiança. Mas a verdade é que, em muitas vezes, o processo padrão é de baixa qualidade e de pouca confiança, e ele só é escolhido porque foi validado pela academia ou por alguém com “fé pública” (esse termo existe, mas eu não estou usando ele como deveria). Mas a verdade é que, em muitas vezes, a gabiarra pode otimizar uma ação, acelerar um projeto ou então resolver um problema que não foi previsto pelos clichês dos métodos padrão.

Mas se falar “life hack”, pode

Life Hack, um termo celebrado na cultura da internet, nada mais é do que a gourmetização da gambiarra. São pequenas soluções práticas pra resolver problemas triviais do dia-a-dia.

Nesse post do site lifehack.com há uma coletânea enorme de hacks que você pode usar no seu dia-a-dia, desde como sorrir para uma foto até como fazer o sanduíche de mortadela perfeito. Mas não se enganem, apesar do nome bonito, tudo não passa de gambiarra.

Matando o método científico de vergonha

Toda vez que você ouvir alguém dizer que, por estar fazendo algo de forma diferente, você está fazendo aquilo do jeito errado, desconsidere. Sempre que alguém falar que algo deve ser feito do “jeito certo”, lembre esse alguém que esse “jeito certo”, um dia, não era ainda um método estabelecido, era algo novo, que foi testado e deu certo e, então, ficou validado como oficial. Essa é a premissa básica do método científico: tentativa e erro.

Fazer se torna certo errado dependendo do resultado obtido. Novos caminhos podem ser atalhos pra qualquer resultado que o método padrão vem obtendo da mesma maneira há anos. E, nisso, entra a gambiarra.

Se uma gambiarra se faz necessária, é porque, em algum momento, o método padrão se fez ineficaz: ou ele não deu certo, ou ele se tornou muito caro, ou se tornou muito complexo etc. A gambiarra é a solução prática pra esse problema.

Metodificando a gambiarra

1 — Identifique o problema: pode parecer bobagem, mas, muitas vezes, nossos métodos falham porque a gente não consegue devidamente saber qual é o problema. Lembrando que, se, por exemplo, nossa casa está sem luz, o problema não é “falta de luz”. O problema pode ser “curto circuito”, “queda da chave geral”, “não pagamento da conta” etc. Problema precisa ser algo que é diretamente solucionável, que tem aplicação prática para ser avaliada e consertada.

2 — Busque referências: com o advento da internet, é besteira ficar desesperado, achando que seu problema nunca aconteceu com ninguém. Acredite em mim, já aconteceu. E, se já aconteceu, tá na rede. Saber usar o google é um dos princiapais dotes de um bom gambiarrista. Por mais que você não ache a solução, vai achar material para estudar o problema e desenvolver a sua própria.

3 — Olhe ao seu redor: problema encontrado? check. Referências estudadas? check. Hora de parar e olhar com calma em volta. Esse recurso é muito importante por diversos motivos. Principalmente, porque a solução do seu problema pode ser óbvia o bastante para estar dando mole ao seu redor. Segundamente, porque toda boa gambiarra tem um quê de artesanato, e os materiais jogados à sua volta cumprirão de forma ímpar o papel de ferramentas ou recursos para execução da gambiarra. Pedaços de madeira, latas, papel, cordas, plásticos, garrafas, tudo é valioso na mão de um engenheiro de processos não-convencionais.

4 — Compartilhe seu resultado: é importante mostrar ao mundo seus feitos. A comunidade gambiarrística cresce quando o conhecimento é compartilhado e montamos essa grande base de dados da ciência do empiricismo. Lembre sempre que tudo que hoje está na enciclopédia barsa um dia foi só rascunho nos cadernos de um cara que os amigos chamavam de maluco. Além disso, compartilhar é importante porque todo entusiasta da gambiarra precisa ter o ego um pouco inflado, pois esse é o pagamento pra toda boa gambiarra.

E o que que eu tenho a ver com isso tudo?

Há uns dias eu postei um texto que falava sobre o novo papel do cara de comunicação. Nele, eu falava um pouco sobre o growth hacking, que nada mais é do que a gambiarra institucionalizada, permitida e endossada pelos CEOs mais cools da atualidade. E a gambiarra tem tudo a ver com isso.

No início do texto, quando eu falei um pouco sobre mim, era pra acabar nisso. Pra mostrar que o meu perfil de profissional da comunicação é total embalado pela gambiarra. Que existe um valor incalculável no cara que consegue ser o McGyver (a.k.a. Magaiver) do departamento de marketing. Aquele cara que é a referência pra quando não se tem referência nenhuma.

Eu tenho orgulho em, provavelmente, ser esse cara. E sei que, quando eu olho pro futuro da profissão, vejo que, por mais que os métodos padrão mudem, sejam destruídos e construídos de novo, sempre vão ser necessários caras como nós, que existem só para quebrar regras e distorcer processos.

Uma salva de palmas à gambiarra.

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