Pare de falar sobre si mesmo

O (já não tão) novo consumidor e a consciência sobre o que é comunicação

Lucas Portal
Aug 9, 2017 · 3 min read

“Compre batom, compre batom” — eu tinha uns 5 anos quando a garoto veiculava esse comercial no qual uma criança tentava nos hipnotizar para nos convencer a comprar o chocolate. Óbvio que na época eu não sabia (primeiro por ter só 5 anos, e segundo por eu não ser futurologista), mas esse viria a ser uma das peças publicitárias que mais representaria a comunicação dos anos 90 — unidirecional, egocêntrica e com um propósito claro.

O famigerado comercial dos anos 90

O tempo passou, a internet veio, a TV da sala foi ficando pra decoração e a gente foi ficando mais esperto com as mensagens que o mundo nos emitia. Se o garoto me mandasse comprar batom, eu de pronto perguntaria “por quê?”. E, de lá pra cá, a publicidade vem apanhando pra resolver esses pequenos “porquês” que surgem de todos os lados. O consumidor não quer te ouvir falar do produto, ele já conhece o produto. Na verdade, o consumidor quer que a comunicação também seja produto.

Eu me formei em publicidade há 3 anos (completando exatamente no dia da publicação desse texto), mas nunca quis ser chamado de publicitário. Isso porque eu ainda vejo nos meus colegas de graduação a imagem da garotinha hipnotizadora. Ainda vejo agências gigantes contando com a burrice do público e, ao mesmo tempo, se perguntando porque não são mais tão gigantes como eram antes. Um bom slogan e uma foto bonita não resolvem mais. O conteúdo precisa ter valor para se sustentar como um produto próprio, independente da comercialização de algum outro item.

Muita gente acha que entendeu esse conceito porque dá ouvidos aos seus clientes, mas, vamos combinar, esse é o mínimo esperado. O que as marcas, agências e veículos de comunicação em sua maioria ainda não entenderam é que ninguém quer te ouvir falar sobre si mesmo. Ninguém aguenta aquele cara chato do rolê que só fica contando vantagem. A galera gosta mesmo é daquele cara que passa horas explicando teorias sobre a vida e o espaço e que faz com que todo assunto se torne interessante. Isso porque esse cara tem conteúdo e personalidade. Eu sei que eu sou só um cara qualquer, descontente com o sistema, que fica profetizando umas merdas, e sei também que vocês não tem nenhuma razão pra me ouvir, mas eu noto que as marcas que estão acertando a mão na comunicação hoje em dia são aquelas que estão apostando em sentimentos ao invés de mensagens, em autoria ao invés de autoridade, em admiração ao invés de valor de mercado.

Boça, o expoente maior do “chato do rolê”

Eu sempre fui interessado por conteúdo — entrei pra publicidade porque diziam que eu “escrevia bem” (e porque eu não sabia o que fazer da vida), comecei a trabalhar com vídeo porque gostava de contar histórias e acabei nessas de digital porque sou fascinado por narrativas transmídia, pela experiência multi-telas, por automação, por dados e o caralho a quatro. Eu acho que eu tenho uma vantagem no cenário atual justamente porque eu nunca fui um cara pro offline (sou um bosta como diretor de arte, por exemplo). E eu enxergo que o futuro da comunicação digital (não vou usar o termo marketing porque isso vem de mercado, que me faz lembrar de venda, que me faz lembrar de um monte de coisas com as quais eu não concordo) é justamente a criação de valor através do conteúdo. É fidelizar indiretamente.

Apesar de parecer desconexo, não é. Se você trabalha em uma empresa de aviões, por exemplo, faça conteúdos sobre turismo, roteiros e dicas de viagem, guias de como gastar pouco nos destinos mais procurados, coisas do tipo. Construa sua base de público de forma que você se torne autoridade no assunto e o lucro vai vir automaticamente (se o seu produto for bom, é claro. Se não for, melhore o produto, porque propaganda por si só não se sustenta). E o mesmo serve pra quem faz doces, panelas, sapatos, pintos de borracha etc. Procure ser o cara interessante do rolê, e não o bróder chatão que a galera só chama por pena.

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