Quando a Califórnia se fez Califórnia

Vou contar uma história pra vocês: eu nunca fui um cara descolado. Eu queria ser, mas não consegui. Um pouco por culpa da minha falta de habilidade social e outro pouco por culpa da minha mãe, que não me deixava fazer o que as crianças (e adolescentes) normais faziam. Eu não ia ao cinema, eu não saia à noite e, uma das coisas que mais me afetou, eu não podia andar de skate. Eu era amigo da galera que andava, mas eu não tinha skate. Só que eu me enfiei de cabeça nessa cultura. Do skate, conheci a música, e daí foi um abraço. Nessa sim eu consegui mergulhar de cabeça.

Não me entendam errado, eu amo a minha mãe e amo a pessoa que sou graças à criação que ela e meus avós me deram. Talvez, se ela tivesse me deixado andar de skate, eu não estaria agora viajando através dos E.U.A. Vai saber. Mas na música elas me deixaram brincar. Nunca apoiaram muito, mas também nunca disseram não. E daí, com a mesma galera do skate, eu formei minha primeira banda de punk rock (na época a gente chama de HxCx porque a gente não tinha nenhuma noção de coisa nenhuma). E daí eu encontrei o cara que eu ia ser. E, tanto do skate quanto da música, a maior parte das coisas que eu gostava vinham do mesmo lugar: a ensolarada califórnia.

NOFX, Blink-182, Z-boys, tudo tinha essa coisa que eu não sabia explicar, essa aura que unia tudo que eu gostava nessa época. Meus dias se resumiam em jogar Tony Hawk’s Pro Skater, ouvir “HxCx” e tocar. E eu fui criando um amor por essa tal de Califórnia que, na época, eu só tinha visto em fotos e vídeos.

E eu não era o único. Todo mundo com quem eu andava queria ser californiano. Talvez não todo mundo, mas a maior parte e os que estavam mais presentes na minha vida. Eu olho pra trás hoje e vejo que, mesmo sem nunca ter posto o pé aqui até esse momento, esse lugar me fez ser quem eu sou, construiu o meu caráter. E daí o tempo passou, eu fiz muitas coisas na minha vida e essas coisas fizeram com que fosse possível que eu viesse viajar por 4 meses nesse País que eu sempre admirei. E, agora, nosso caminho chegou à califa.

Los Angeles vista de cima

Los Angeles não é bem o que eu esperava. É cinza, suja, é triste. Me deu um medo. Mas Santa Monica e Venice, são exatamente como os retratos mentais que eu construí daqui. As pessoas são exatamente as que eu imaginei que seriam meus amigos e as casas são exatamente como as em que eu planejei passar a minha velhice. Eu hoje pisei no mesmo solo que um dia os skates dos Z-Boys usaram para construir tudo que a gente conhece como skate hoje. E tá sendo demais. É o primeiro lugar da viagem que eu queria poder ficar, morar, construir minha vida.

Em janeiro eu volto pro Brasil. Vou levar na mala alguns souvenirs, umas roupas sujas, dois cabos para carregar meu celular e uma vontade louca de voltar pra Cali.